Há pouco mais de dois anos, quando jogava no Estádio da Luz, Renato Sanches era feliz. E os benfiquistas também; pelas corridas, pelas saídas a rasgar, pelos remates de fora de área, pela vontade que o menino da casa dava às águias.

Hoje, Niko Kovac devolveu o menino à casa. Contra todas as expectativas, Sanches pisou o relvado pela primeira vez neste início de temporada e logo como titular. A partir daí a Luz sabia uma coisa: não podia ser totalmente feliz em comunhão com o seu bom rebelde.

Mas foi.

E assim aconteceu porque, num futebol "capitalizado", a lealdade tornou-se rara. E na temporada de 2015/16, a única em que jogou pela equipa principal dos encarnados, Renato conquistou-a quando mostrou sentir o clube como poucos.

Por isso, quando aos 54 minutos o miúdo da Musgueira recuperou a bola na grande área do Bayern e correu até ao meio-campo do Benfica desenfreadamente, entregou a bola a Ribéry e recebeu-a no centro da área dos pés de James Rodriguez e fez o golo, ninguém podia ficar triste.

créditos: MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

O português levantou-se de imediato e pediu desculpa aos seus. Os adeptos do Benfica levantaram-se e aplaudiram-no de pé. E os dois ali ficaram durante largos tempos a aplaudir-se mutuamente.

Naquele momento não tinha sido o golo. Era o filho que tinha voltado a casa, era o menino que se tinha eclipsado nos últimos anos e que voltava feliz e feroz, incansável e destrutivo, a reerguer-se no sítio que o viu nascer.

O Benfica perdeu, mas não faz mal.

Ou faz, claro que faz. O momento romântico entre os adeptos do Benfica e Renato Sanches celebra em si tudo o que há de melhor no futebol, mas não apaga um jogo em que os encarnados foram incapazes de se superiorizar aos alemães. De apagar a discrepância de qualidade entre as duas equipas.

Mas o Benfica tentou. Já o tinha feito na primeira época de Rui Vitória, em 2016, na altura em que Renato ainda jogava de águia ao peito, quando fez a vida negra aos bávaros então comandados por Pep Guardiola. Na altura o técnico espanhol, agora ao serviço do Manchester City, saía vivo de uma campanha em que "morreria" na eliminatória seguinte, não se esquecendo de mencionar as águias num livro da sua autoria que foi publicado meses depois.

“É uma equipa digna de Arrigo Sacchi, que tem a melhor organização defensiva da Europa. Mas não é uma equipa defensiva. Coloca a linha mais recuada muito subida e pressiona sem parar. Não deixa espaço entre linhas e tem avançados muito rápidos. Na Alemanha, em Inglaterra e em Espanha, as pessoas não veem a liga portuguesa e, por isso, ninguém dá valor ao Benfica, mas é uma equipa digna de Sacchi”, escreveu Guardiola.

O Benfica de hoje já não é aquele. Aquela equipa em que as ideias de Vitória demoravam a ver-se num conjunto que ainda emanava uma certa imagem de Jorge Jesus. Hoje as ideias são outras, mas o objetivo continua a ser vencer. Tal como aconteceu há dois anos, o Benfica tentou. Entrou bem no jogo, tentou enfrentar um gigante sem levantar o queixo, sem olhar de baixo para cima, colocando-se à mesma altura do hexacampeão alemão. Mas rapidamente se percebeu que a velocidade — ainda que longe de outros périplos — e destreza de Arjen Robben e Frank Ribéry não morreriam em vão nos cortes da defesa encarnada. Assim como as arrancadas de um Renato renascido ou a impaciência de um Lewsandoswki que fez o primeiro golo da partida ainda antes de concretizar um único passe.

Foi logo ao minuto 10 que o polaco recebe um cruzamento de Alaba para a entrada da área. Lewandoski com calma e classe, ‘senta’ Grimaldo e atira para o fundo da baliza de Vlachodimos.

Os alas irrequietos faziam-se notar a seguir. Primeiro Robben, lançado por Kimmich a ficar isolado e a obrigar Vlachodimos a uma grande defesa. Depois Ribéry, num movimento típico da lateral para o meio, a atirar para defesa fácil do guardião encarnado.

A vontade do Benfica só se conseguiu concretizar aos 22 minutos, quando Salvio recupera a bola após erro de Hummels e remata por cima da baliza de Neuer. Seis minutos depois, a primeira grande oportunidade: Pizzi serve Salvio no interior da área, que atira para defesa do gigante alemão.

Pizzi organizava, Gedson transportava. O meio-campo das águias tentava, mas Seferovic foi insuficiente para lidar sozinho com Boateng e Hummels, ladeados por Kimmich e Alaba, que impediam que Salvio ou Cervi viessem para o meio ajudar a atormentar a vida aos dois centrais.

A equipa de Vitória tentou lá chegar com bolas longas, mas sem qualquer efeito. O filme da partida estava escrito na discrepância entre as duas equipas. Quando aos 54 minutos Renato escreve aquela história de amor, soube-se que o jogo tinha terminado ali. Que o jogo tinha tido só um minuto, e não 90.

Ninguém se vai lembrar daquela bola perdida de forma trapalhona por Rúben Dias que poderia deixar Ribéry numa clara situação de perigo. Ninguém se vai lembrar de como Jardel se colou a Lewandoski para lhe tirar a bola dos pés quando o polaco se preparava para atirar à baliza e fazer mais um para os bávaros. Ninguém se vai lembrar do ânimo que Gabriel deu ao lado encarnado quando entrou na partida. Do grande jogo de Pizzi ou da grande defesa de Vlachodimos diante de Robben. Ou de um Kimmich que projeta todo o futuro de uma renovada geração alemã.

O amor cega e faz-nos esquecer tudo à nossa volta. E se quisermos, se fizermos um esforço, também não nos temos de lembrar dos assobios a James Rodríguez, no momento em que o colombiano era substituído por Goretzka e respondia com uma mão cheia de dedos, numa provocação a recordar os 5-0 no Dragão, no tempo em que o médio representava o Porto. Porquê? Porque o futebol é muito mais "aqueles aplausos" do que "aqueles assobios".

créditos: MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Bitaites e postas de pescada

O que é que é isso, ó meu?

Uma perda de bola infantil de Rúben Dias deixa Ribéry em posição de criar uma situação de perigo - que criou e que terminou com a bola nas mãos de Vlachodimos. O jovem central soma várias exibições de qualidade esta época, mas também já somou algumas ações menos felizes dentro de campo.

Renato Sanches, a vantagem de ter duas pernas

Renato Sanches renasceu no sítio em que nasceu para o mundo do futebol. Num regresso ao estádio da Luz, o médio campeão europeu voltou a jogar de uma forma feliz e com a mesma garra com que ganhou a atenção do mundo em 2016. O renascimento é coroado por um golo incrível, que começa e acaba em si.

Fica na retina o cheiro de bom futebol

O primeiro golo do Bayern Munique é um espelho da classe de Lewandoswki. A calma com que recebe a bola, tira o adversário da frente e atira para a baliza é merecedor de uma vénia. Não fosse o jogo de Renato Sanches e os adeptos do Benfica podiam também ter aplaudido este golo.

Nem com dois pulmões chegava à bola

Seferovic não teve dois pulmões, nem duas pernas, nem dois pés. O avançado foi incapaz de lidar com a dupla defensiva do Bayern.

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