Foi um ano duro, mas nem tudo é mau. Alguns tiveram boas razões para celebrar naquele que ficará para a História como o ano da pandemia. Este é o Almanaque da Felicidade de 2020. Se também teve motivos para ser feliz este ano partilhe connosco, envie um email para 24@sapo.pt


Parecia um Portugal de outros tempos. Um país sentado no sofá não à espera de saber o resultado final de um jogo de 90 minutos, mas à espera de ver a cor da camisola que um miúdo de 22 anos, natural de A-dos-Francos, Caldas da Rainha, que de bicicleta rasgava Itália de lés a lés, iria vestir ao final da tarde.

João Almeida, ciclista da Deceuninck-QuickStep, um desconhecido para a maioria dos portugueses, não era sequer a primeira escolha da equipa para atacar a Volta a Itália (Il Giro), uma das três grandes provas do ciclismo mundial a par das míticas Volta a França (Tour de France) e Volta a Espanha (La Vuelta). Mas nada disso o impediu de fazer história e de pintar a cor-de-rosa um dos mais belos capítulos do ciclismo nacional, numa altura em que a modalidade não atrai o público que nomes como Joaquim Agostinho carregavam consigo no século passado, nem a mesma atenção mediática.

Num mês em se fazem as contas a um ano atípico e pesado, o quarto lugar de João Almeida na Volta a Itália ecoa como um dos grandes feitos de 2020. Melhor do que José Azevedo, que foi quinto em 2001, melhor do que Acácio de Silva, que em 1989 se tornou no primeiro e, até este ano, único português a vestir a famosa maglia rosa, o jovem de A-dos-Francos tornou-se no terceiro corredor da atualidade com mais dias de rosa no Giro, igualando Simon Yaap, e apenas superado por Vincenzo Nibali e Tom Dumoulin.

A tenacidade e espetacularidade da exibição de João Almeida sprintam-nos a memória, como se o próprio atacasse a revista do ano de 2020 como uma qualquer etapa do Giro. Mais do que o quarto lugar conquistado ou todas as marcas que bateu naqueles 15 dias de outubro – além de ser já o melhor sub-23 da história do Giro e o português que mais dias liderou uma grande Volta, foi mesmo o segundo ciclista nesse ‘ranking’ particular este ano, atrás apenas do esloveno Primoz Roglic, que andou de amarelo (no Tour, no qual perdeu a vitória para o compatriota Tadej Pogacar no penúltimo dia) e vermelho (na Vuelta, que venceu pelo segundo ano consecutivo) durante 23 jornadas —, João Almeida fez com que um país voltasse a sonhar andar de bicicleta. Só o “gigante” Stelvio, aquela que é descrita como a etapa mais dura da prova, desfez o sonho daquela que seria uma conquista absolutamente épica.

Diga-se que só uma prestação como a de João Almeida poderia ofuscar o brilho de Ruben Guerreiro (Education First), o primeiro “rei da montanha” português numa das grandes Voltas – e o primeiro ciclista nacional a vencer uma camisola de classificação principal no Giro, Tour ou Vuelta.

Como foi ser feliz num ano como 2020?

Neste ano atípico, um grande feito tem um sabor melhor. Senti muitas pessoas a vibrarem e a apoiarem-me. Estavam em casa, de quarentena, e sinto que lhes dei uma força extra para enfrentar esta pandemia, e mesmo outras situações do dia a dia também. Fico feliz por num ano como este ter conseguido motivar e inspirar pessoas, principalmente crianças.

Pessoalmente foi um ano normal, obviamente dentro desta pandemia. Desportivamente foi muito bom. Mas guardo sobretudo esse sentimento. Inspirar outros, dar-lhes uma motivação extra é excelente. É uma sensação brutal. Algumas pessoas dizem-me que quando me estavam a ver que tudo aquilo até lhes fazia esquecer que existia uma pandemia. Era um sentimento recíproco. As pessoas davam-me força a mim e eu a elas.

- João Almeida

A capacidade de surpreender não é no entanto uma qualidade de agora. Em outubro, em entrevista ao SAPO24 sobre a participação do ciclista na Volta a Itália, o selecionador nacional José Poeira relembrou o momento em que convocou um jovem de 15 anos chamado João Almeida pela primeira vez, na altura 'apenas' o nome de um jovem, sem registos anteriores, que tinha conseguido um sétimo lugar numa Volta a Portugal de cadetes.

“Na altura até já tinha a lista mais ou menos feita, com 12 cadetes. Mas pensei: é só mais um. Depois, nos testes progressivos, vimos que ele tinha valores muito bons, acima da média do grupo, e até acima da média de outros grupos que tínhamos como referência de outros anos”, contou ao SAPO24.

Poeira lembra-se de um dos primeiros momentos em que a qualidade do jovem ciclista ficou bem patente. Num treino conjunto de juniores e cadetes, o selecionador pediu a João que atacasse a subida. Nenhum cadete conseguiu apanhá-lo e foram poucos os juniores a fazê-lo.

“Nesse ano [2016] já foi campeão de contrarrelógio e campeão nacional de estrada, ganhou uma série de corridas e começou a ser o João que passámos a selecionar para os juniores e para sub-23. [Já em 2018] Correu a Volta à França do futuro onde foi sétimo e mostrou o seu melhor nível contra muitos ciclistas que pertencem a equipas pro tour”, relembra José Poeira.

Se recuarmos mais uns anos na breve história que é a vida de João Almeida a surpresa aumenta. Acreditaria, por exemplo, que um miúdo a quem dar-lhe comida era um tormento, que fazia natação e futebol, onde jogava a defesa, e que em vez de mostrar os seus melhores movimentos em cima de pedais o fazia em cima de um palco com o rancho da sua terra local viria a discutir uma das maiores provas do ciclismo até ao fim? A resposta é provavelmente não e não há que ter vergonha disso.

Afinal de contas, João trabalha para surpreender todos menos ele próprio. Para José Poeira tudo se resume à capacidade mental do jovem atleta. “Não se dá por vencido. É ambicioso, é calculista, tem um querer muito grande na forma de pensar, na forma de agir. Claro que há momentos melhores e outros não tão bons, mas ele supera sempre esses momentos menos bons com a força de vencer. Quando está bem consegue ultrapassar-se. É muito forte mentalmente. Depois tem outra particularidade, a forma como corre, a forma como se coloca, não é distraído, é atento à corrida. Isso faz com que os adversários vejam nele uma pessoa muito responsável, que está sempre no sítio certo, sempre junto aos adversários principais”, explica.

Já Célio Apolinário, um dos primeiros treinadores do agora ciclista da Deceuninck-QuickStep quando este militava no clube José Maria Nicolau, do Cartaxo, e depois no Bombarralense, tende a concordar. “O João sempre foi um miúdo que trabalhou para estar onde está. Ele sempre foi esforçado, com muito valor, com muito potencial. Tive atletas muito idênticos ao João que poderiam até estar ao pé dele neste momento e que não conseguiram meter em prática o valor que têm. É uma questão de mentalidade e de querer”, diz.

José Poeira não tem dúvidas que este ano "encontrou-se um campeão para as discussões das grandes provas”. A forma como o país se entregou naquelas semanas à prestação do João também não deixa muitas dúvidas. Aquele outubro cor-de-rosa será relembrado tantas vezes quantas as que o João quiser.

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