Há 12 anos, o FC Barcelona apresentava um jovem de 38 anos para comandar os destinos da equipa principal depois de um reinado de cinco temporadas com Frank Rijkaard sentado no banco de suplentes. Foi com o holandês que os catalães conquistaram duas ligas espanholas, duas supertaças e uma Liga dos Campeões, um título que fugia aos Blaugrana desde 1992.

O legado parecia demasiado pesado para os ombros daquele homem com pouquíssima experiência de treinador principal, que dois anos antes disputara os últimos jogos da carreira de jogador no México, no El Dorados de Sinaloa. Em poucos meses, Pep Guardiola mostrou-se capaz de carregar a ideia de um FC Barcelona maior do que alguma vez tinha sido, com a herança de Rijkaard nos ombros e o legado de Johan Cruijff  na cabeça, ao conquistar o primeiro triplete da história dos Blaugrana com um estilo de jogo que revolucionou o futebol moderno e que serviu de base para as maiores conquistas da história da seleção espanhola.

Estes são as histórias que antecipavam o aparecimento de um treinador nato e a sequela da carreira do técnico, pós-Catalunha, que faz hoje de Guardiola, com apenas 50 anos, um dos melhores treinadores da história com um palmarés com 30 títulos.

Guardiola, um "pau de virar tripas"

Na autobiografia de Johan Cruijff, conta-se a história de um “pau de virar tripas que não sabia defender, que não tinha força e que não conseguia fazer nada no ar” que jogava nos escalões de formação do FC Barcelona e de quem a direção do clube se queria ver livre no ano em que o holandês chegou à Catalunha para comandar os destinos do clube.

No sentido oposto, Cruyff via em Guardiola capacidade para colmatar os defeitos e, acima de tudo, “as qualidades fundamentais que são precisas ao mais alto nível: rapidez de acções, técnica, visão”. E fez força para que o jovem não só ficasse como fosse identificado como um dos nomes a ser promovido para o plantel principal da equipa.

Assim, em 1990/91, curiosamente numa temporada em que o técnico holandês esteve mais longe do balneário, devido a problemas de saúde derivados de um enfarte, o médio defensivo de 20 anos foi promovido à equipa principal. Entre nomes como Hristo Stoichkov, Ronald Koeman ou Michael Laudrup lá surgia aquele que viria a ser uma das bases da Dream Team de Cruyff: Pep Guardiola.

Na temporada de estreia, em que não somou mais do que cinco jogos, terá ficado a eterna recordação — para além da estreia a titular num encontro contra o Cádiz, a contar para o campeonato — da conquista da liga espanhola que colocou fim a uma série avassaladora do Real Madrid que tinha vencido o título nas últimas cinco épocas.

créditos: https://www.fcbarcelona.com/

Cruyff e Guardiola entram numa sala (repleta com uma Dream Team)

Na segunda época ao serviço da equipa principal do Barça, Guardiola revelou-se uma peça essencial do sistema implantado por Cruyff, de regresso a cem por centro ao banco e liderança da equipa.

Com um futebol assente na intensa troca de bola e pressão constante, num sistema que procurava aproveitar toda a largura do campo, o FC Barcelona encantou a Europa do futebol com a conquista da Taça dos dos Campeões Europeus, numa final em que a Sampdoria saiu derrotada por 1-0. Nesse mesmo ano, os Blaugrana voltaram a vencer a liga espanhola, sagrando-se bicampeões.

O “pau de virar tripas” mostrava o que valia com uma capacidade de racionalizar e decidir acima da média no meio-campo, no centro do furacão de Cruyff.

Ganhar, ganhar, ganhar e ganhar

Em 1994, na quarta época ao serviço dos Blaugrana, Guardiola ainda não conhecia outra realidade que não a de terminar a época com uma medalha ao peito. Assim, conquistou o quarto campeonato consecutivo numa equipa ainda liderada por Johan Cruijff - na mesma época em que voltou a disputar a final da Liga dos Campeões, em que o Barcelona foi derrotado pelo Milan por 4-0.

Pep Guardiola, pupilo e adjunto de Augusto Inácio

O médio viria a sair do FC Barcelona no final de 2001, quatro anos depois de conquistar mais um título europeu, a extinta Taça das Taças, na sequência de uma temporada desastrosa em que o Barça não foi além de um quarto lugar na liga e não conseguiu ultrapassar a fase de grupos da Liga dos Campeões, desiludindo também ao não conquistar a obrigatória Taça UEFA, depois de ser eliminado pelo Liverpool nas meias-finais. Guardiola mudou-se para a Serie A onde vestiu as cores do Brescia e AS Roma entre 2001 e 2003.

Depois da curta passagem por Itália, Guardiola foi para o Qatar vestir as cores do Al Ahli, onde em 2004/05 viria a cruzar-se com o treinador português Augusto Inácio que, quatro anos antes tinha quebrado um jejum de 18 anos do Sporting CP sem conquistar o título nacional da primeira liga.

“O Guardiola funcionava como meu adjunto, porque tinha uma paciência ilimitada em relação aos outros jogadores. Dizia-lhes como receber uma bola, como rematá-la. É uma pessoa fabulosa, bastante humana, com um trato fácil e simples”, revelou o técnico português ao Jornal I.

Guardiola levava a filosofia de Cruijff além fronteiras e começava a traçar, longe dos holofotes, aquele que seria o futuro profissional como treinador.

Pendurar as botas no México

Depois de duas épocas no Qatar, Guardiola mudou-se para o México, onde viria a terminar a carreira. No El Dorados de Sinaloa — clube da cidade de um dos criminosos mais procurados do mundo, El Chapo, e mais recentemente reconhecido por ter sido treinado por Diego Maradona, numa aventura do falecido astro argentino que terminou em série da Netflix — disputou apenas 10 jogos e, depois de uma lesão grave, retirou-se do futebol.

créditos: JOSEP LAGO / AFP

A nova vida de Pep

Um ano depois de ter pendurado as botas, Pep Guardiola regressou a Barcelona para treinar a equipa B dos Blaugrana. Estávamos em 2007/08 e uma época foi quanto bastou para Pep mostrar o que valia ao conquistar o título da terceira divisão e conseguir a promoção da formação secundária.

O feito não passou despercebido à direção do clube catalão que o escolheu para suceder a Frank Rijkaard, o último a conseguir aproximar o Barça daquilo que a equipa foi com Cruyff (e Guardiola) no início da década de 90.

Logo no primeiro ano, Guardiola mostrou-se um verdadeiro herdeiro do holandês. Foi às bases buscar talento, à equipa que tinha orientado na temporada anterior — Sergio Busquets, Pedro Rodríguez e Thiago Alcântara — e alterou radicalmente o estilo de jogo, privilegiando a inteligência tática à capacidade física, assente na capacidade de interpretar e ler o jogo da dupla Iniesta - Xavi e do talento imenso de Lionel Messi.

O tiki taka, o estilo de jogo assente na posse e troca de bola constante de forma a procurar espaços entre as linhas adversárias, nasceu assim no mesmo ano em que Pep, com apenas 38 anos, levou o Barça a vencer o primeiro triplete - La Liga, Liga dos Campeões e Taça do Rei - da sua história.

O início da lenda

“Johan construiu a catedral, e cabe-nos a nós mantê-la”, viria a dizer Pep Guardiola. E ninguém o fez melhor do que o próprio.

Em quatro temporadas no FC Barcelona, Pep venceu três ligas espanholas, duas Taças do Rei, três Supertaças de Espanha, duas Ligas dos Campeões (a segunda em 2010/11, frente ao Manchester United), dois campeonatos do mundo de clubes e duas supertaças europeias.

Deixou Camp Nou com apenas 41 anos e um palmarés invejável.

Formalmente o melhor treinador do mundo

Apesar dos números impressionantes da carreira de Pep Guardiola, o técnico catalão só foi considerado o melhor treinador do mundo pela FIFA em uma ocasião, depois de ter vencido a segunda Champions com o Barcelona.

Chegaria mais quatro vezes à grande decisão, mas acabaria sempre preterido.

créditos: ANDREAS GEBERT/EPA

O melhor futebol do mundo chegou à Baviera (mas não se expandiu à Europa)

Depois de quatro anos em Espanha, Guardiola fez um ano sabático antes de rumar à Alemanha para treinar o Bayern Munich que, na temporada anterior, com Jupp Heynckes tinha conseguido vencer todos os títulos possíveis, tal como Pep tinha feito em Barcelona.

O técnico ficaria três anos em terras germânicas, onde, apesar da supremacia na Bundesliga, ficou aquém da expectativa ao não conseguir voltar a vencer a Liga dos Campeões, apesar da super equipa que liderava e do futebol praticado. No entanto, de salientar que em três épocas, os alemães disputaram três vezes as meias-finais.

Na terra do melhor futebol do mundo

Em 2016/17, Pep Guardiola mudou-se para aquela que é considerada a melhor liga do mundo, a Premier League. Na primeira temporada, fez o que nunca tinha feito: terminou uma época sem vencer qualquer título. No entanto, levou a cabo aquilo que fez nos clubes por onde já tinha passado, criando bases estruturais para um futuro de sucesso, não só ao nível do estilo de jogo, mas sobretudo pela forma cirúrgica com que executou as contratações.

Assim, na segunda época em "terras de Sua Majestade", Guardiola não só regressou aos títulos (com uma Carabao Cup, a Taça da Liga inglesa, conquistada frente ao Arsenal), como também foi campeão inglês e bateu o recorde de pontos na Premier League, alcançando os 100. Mas o técnico espanhol não ficou por aqui e na época seguinte fez do City a primeira equipa inglesa da história a conquistar todos os títulos ingleses nacionais na mesma temporada.

O futebol praticado pelo City é brutal, mas continua a esbarrar na ausência de um título europeu, inédito para o Manchester City, e desaparecido do palmarés de Guardiola desde que abandonou a Catalunha.

No dia em que faz 50 anos, ninguém questiona a capacidade do técnico colocar uma equipa a praticar o melhor futebol possível. Mas os adeptos dos Citizens esperam ansiosos que Pep volte a comandar uma armada capaz de conquistar a Europa.

créditos: NIGEL RODDIS/EPA

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