"Vamos chegar ao terceiro mês. Não recebemos um único salário em 2020. Em fevereiro começámos a protestar, tentámos falar com a direção e dissemos que íamos fazer greve aos treinos e aos jogos, tentámos marcar posição… era uma situação muito grave, inadmissível. Na semana seguinte, um jornal escreveu que não tínhamos recebido por causa do Covid-19. [...] Tenho colegas de equipa que gritam no balneário 'como é possível'. Eles batem à porta dos dirigentes a pedir um avanço salarial porque isto já não é possível para eles. E mesmo isso o clube não consegue fazer".

As palavras duras são de Quentin Beunardeau, guarda-redes titular do Desportivo das Aves, à emissora francesa RMC, e são partilhadas por  um balneário frustrado que no presente ano civil o único salário que recebeu foi em fevereiro e dizia respeito ao montante devido e em atraso relativamente a dezembro de 2019.

A SAD do emblema avense, detida maioritariamente por capitais chineses, diz que os atrasos se devem à paralisação da economia da China devido à pandemia do novo coronavírus e que, o mais rapidamente possível, pretendem pagar os ordenados em atraso. Com o clube num nível desportivo muito abaixo das expetativas, ao qual se agrava a situação económica, alargar-se o fosso entre a SAD e a direção do clube.

Esta é a breve história dos últimos anos do Desportivo das Aves.

O verão quente de 2015

No verão de 2015, o Desportivo das Aves encontrava-se afundado em dívidas, com um passivo que ultrapassava o milhão e meio de euros. O clube que na altura militava na segunda divisão portuguesa estava impedido de se inscrever para a nova temporada e em risco de terminar. Foi então que surgiu a Galaxy Believers, uma empresa de capitais chineses e brasileiros, sediada em Cascais e dedicada ao marketing desportivo, que não só apresentou uma proposta de aquisição de 70% da SAD do emblema avense, como se comprometeu a saldar as dívidas mais urgentes, avaliadas em cerca de 300 mil euros.

A empresa, maioritariamente detida pelos chineses Wei Zhao e Hongmin Wang - este último com ligações ao mundo do futebol, nomeadamente ao Shanghai Shenhua, clube da principal divisão do campeonato chinês -, escolheu o brasileiro Luiz Andrade como presidente da SAD e definiu um plano para o clube: primeiro, estabilidade; segundo, a subida de divisão, onde o Desportivo das Aves só tinha estado em três ocasiões, (1985, 2000 e 2006); terceiro, criar uma equipa forte na primeira divisão que permita a permanência e, finalmente, entrar na discussão pelos lugares de acesso às competições europeias.

Para além disso, um outro grande projeto: a construção de um centro de estágio, o Galaxy Futebol Campus. Numa operação conjunta entre a Galaxy Believers e a Federação Chinesa de Futebol, avaliada em 3,5 milhões de euros, o projeto previa a construção de três campos de futebol, dois de relva sintética e um de relva natural, este com bancada; seis balneários, 50 quartos, salas de apoio médico, espaços de convívio, escritórios, um refeitório, um ginásio e salas destinadas a conferências. O objetivo era que todos os anos duas equipas chinesas ‘migrassem’ para o novo ninho do Aves num projeto de formação de jovens talentos com o objetivo de enriquecer as fileiras mais jovens do clube da Vila das Aves.

O plano cumpriu-se e, superando todas as expetativas, foi coroado em 2017/18 com a conquista inédita da Taça de Portugal diante do Sporting CP. A Europa nunca chegou porque o clube não enviou a documentação a tempo e a vaga conquistada na prova rainha do futebol português calhou a outro. Era o primeiro sinal visível de um plano que começava a desmoronar.

créditos: MIGUEL A. LOPES/LUSA

Do dinheiro da China ao vírus da China

Depois da final no Jamor, a história do Aves nunca mais seria a mesma. Alegando divergências com os restantes membros da sociedade anónima, o então presidente brasileiro Luiz Andrade apresentou a demissão e foi substituído pelo chinês Wei Zhao, que já era acionista maioritário da empresa ligada ao marketing desportivo, a par de Hongmin Wang, passando a deter 90% do capital da SAD avense. Assim, a nova época começava longe do sonho da temporada passada. À falta de um brilharete nas taças nacionais, a temporada passada salvou-se a manutenção quatro pontos acima da linha de água.

E foi então que chegámos à temporada atual (2019/20) do Desportivo das Aves, com Enzo Zidane, o filho mais velho do atual treinador do Real Madrid e lenda do futebol Mundial Zinedine Zidane, como rosto da renovação da crença da equipa para a atual temporada. Exigiam-se melhores resultados, mas, desportivamente, o Aves afundou-se. As más exibições foram tentando ser resolvidas com mudanças de treinador. Primeiro saiu Augusto Inácio, depois entrou Leandro Pires, da equipa de sub-23, para fazer a ponte até à chegada de Nuno Manta Santos. Atualmente, o Aves tem apenas 13 pontos, está a nove do Paços de Ferreira, a primeira equipa acima da zona de descida e não vê um futuro melhor no horizonte.

Ao mesmo tempo que os resultados do clube de Vila das Aves se agravavam, a propagação do novo coronavírus em território chinês dificultava cada vez mais a movimentação de dinheiro da China para Portugal. Foi assim que chegámos aqui:

“A SAD do CD Aves vem a público explicar, uma vez mais, que esta situação [atraso no pagamento de salários] se deve ao facto de a atividade económica da China ainda não ter sido retomada a 100 por cento, impedindo os seus responsáveis de fazer a gestão interna esperada, situação de que Portugal vem tomando noção nos últimos dias, com os constrangimentos impostos na vida”, pode ler-se numa comunicação publicada no site oficial do emblema do concelho de Santo Tirso.

“Neste contexto de contágio galopante, acreditamos que nem as medidas tomadas pela Liga cheguem a tempo para atenuar a situação. A toda a esta situação, juntam-se os maus resultados da equipa, que também não têm ajudado a SAD, limitando-lhe as transferências na janela de inverno e impedindo-a de reforçar o plantel”, refere a mesma comunicação.

Os avenses foram um dos seis clubes - Boavista, Vilafranquense, Cova Piedade, Académica e Leixões - notificados pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) na quarta-feira para demonstrarem a regularização dos últimos três meses no prazo de 15 dias, após a sociedade liderada pelo chinês Wei Zhao ter falhado o pagamento de janeiro e fevereiro à maioria do plantel principal e da equipa sub-23.

Não obstante este contexto, o Aves (no referido comunicado oficial) reforça a intenção de “cumprir as suas obrigações o mais rapidamente possível”, perante manifestações públicas de desagrado dos jogadores, como Beunardeau, que revelou, para além dos atrasos de três meses no pagamento dos salários, já ter sido paga uma parcela do próprio bolso de Estrela Costa, antiga diretora executiva do clube que se demitiu em solidariedade com os jogadores, antes da derrota com o Sporting (2-0), a de março, da 24.ª jornada.

“Prometeu que nos iriam pagar os dois meses e concordámos em treinar e ir ao jogo, mas a meio da semana ninguém tinha recebido. Soubemos depois que tinha pagado da sua conta pessoal aos dois avançados, que têm maior valor de mercado, e o grupo ficou revoltado. Era para todos ou para ninguém”, afirmou o guarda-redes francês à Radio Monte Carlo.

No sábado, numa iniciativa da LPFP, em parceria com a Direção-Geral da Saúde (DGS), dedicada à simulação virtual dos jogos da 26.ª jornada, o defesa Afonso Figueiredo acordou com o médio Pepelu, do Tondela, pausar o desafio durante dois minutos, num gesto de protesto face aos salários em atraso do clube avense.

As verbas de dezembro só foram liquidadas a 14 de fevereiro, numa demora que Wei Zhao também justificou com a paralisação dos serviços na China desde o início do ano, motivada pelo novo coronavírus, mas arrastou-se aos meses seguintes, podendo significar a perda de dois a cinco pontos, de acordo com o Regulamento Disciplinar da LPFP.

Todos contra Wei Zhao

A SAD do Desportivo das Aves assume que pretende cumprir com o devido, mas a direção do clube diz que o crédito chegou ao fim. O jornal A Bola escreve que Armando Silva, presidente do clube, ameaçou com “ações mais contundentes” para que o Aves possa sair “deste pesadelo o mais rápido possível”. Entre as opções equacionadas, de acordo com aquele desportivo, está um resgate da SAD por parte do clube (recuperando o poder acionista), uma opção deixada em aberto antes do futebol profissional deixar de ser gerido diretamente pelo clube (através de uma SDUQ, Sociedade Desportiva Unipessoal por Quotas), para passar a ser gerido por uma SAD.

Este ano também já se falou na possibilidade do aparecimento de um novo investidor, neste caso a Red Bull, a marca de bebidas energéticas que nos últimos anos tem deixado a sua pegada no futebol pelos investimentos feitos no RB Salzburg e RB Leipzig, mas tudo não pareceu passar de um sonho.

Para já, certo é que a 9 de maio o clube vai a eleições para eleger para os órgãos sociais do Desportivo das Aves para o biénio 2020/2022. Na liderança do Aves desde a temporada 2010/11, Armando Silva, de 56 anos, foi reeleito sem oposição em abril de 2018, com 90% dos votos, dois meses antes de assistir a mudanças na administração da SAD, constituída em agosto de 2015, com 70% do capital detido pelo grupo de investidores Galaxy Believers.

Até lá, altura em que devem ser assumidas medidas em relação à SAD, o Sindicato de Jogadores vai passar à ação. Depois de ter estado reunido com o plantel principal e sub-23, por videoconferência, o sindicato diz ter identificado “situações verdadeiramente dramáticas, que colocam em causa não só a dignidade destes profissionais de futebol, como da própria competição”.

No plantel de sub-23, por exemplo, há jogadores com “problemas em garantir alojamento e despesas essenciais do dia-a-dia, jogadores contratados para a equipa principal no mercado de janeiro que não receberam ainda qualquer salário, outros que face ao atraso nos pagamentos e ao terem de custear o alojamento por meios próprios, ao contrário do contratualizado, enfrentam sérias dificuldades financeiras”.

Neste sentido, o Sindicato admite que irá intervir junto da Liga para que se notifique o clube no sentido de colocar termo a esta situação, pedir à Comissão de Auditoria que no âmbito do controlo financeiro do mês de março atue com a máxima celeridade e colocar à disposição dos jogadores os mecanismos do Fundo de Garantia Salarial para as competições profissionais e não profissionais.

Caso a situação não encontre resolução nos próximos dias, o Sindicato revela que "os jogadores irão exercer os meios legais à disposição e, aquando do retorno da competição, ponderam a tomada de medidas de força, entre as quais a greve".

É assim que o Desportivo das Aves se prepara para a revolução, após a revolução.

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