Se lhe dissessem que o avançado mais excitante da primeira metade desta época seria um adolescente norueguês de 19 anos a jogar na Áustria, acreditaria? Então pense de novo. Depois de John Arne Riise e Ole Gunnar Solskjær, a Noruega poderá estar prestes a exportar uma nova estrela internacional, um miúdo goleador chamado Erling Braut Haaland, neste momento a liderar a frente de ataque do Red Bull Salzburg e a fazer o resto da Europa tomar notas.

Para que se entenda este entusiasmo, falemos de números: nesta época, Haaland já apontou 26 golos em 18 jogos, tendo sete dos tentos sido apontados em quatro jogos da Liga dos Campeões. Para além disso, o “miúdo” norueguês já leva cinco hat-tricks nesta temporada, o primeiro dos quais logo no primeiro jogo da época, ainda em julho, na primeira ronda da taça austríaca frente ao SC-ESV Parndorf.

Por comparação, no ano passado, com metade da época feita no Molde, da Noruega, e com a transferência na janela de inverno para o Salzburg, fez 17 golos ao longo de 35 jogos. Aqui, porém, é necessário ter em conta que na segunda metade da época quase não contou para os austríacos, sendo utilizado por apenas cinco ocasiões, marcando na única vez em que foi titular.

(Claro que, apesar da época ainda não ir a meio, alguém já fez um vídeo com os seus tentos e assistências. Apesar de já estar incompleto, este é dos que tem a música menos irritante, pelo que aproveite)

Regressando à atualidade, depois da entrada magistral na temporada, ficou “a seco” numa partida contra o Rapid Viena para depois marcar em sete jogos consecutivos, juntando mais três hat-tricks à conta pessoal. De resto, até à data, só por mais três ocasiões é que Haaland não “molhou a sopa”, revelando-se uma verdadeira máquina de marcar golos.

“Sim, mas marcar golos  no campeonato austríaco não é o mesmo que fazê-lo no inglês ou no alemão”, estarão (com razão) a pensar as mentes mais céticas. No entanto, veja-se que na Liga dos Campeões — tida como, provavelmente, a mais exigente das competições do mundo do futebol — o miúdo também se tem divertido a bater ou a igualar recordes.

Seguindo os passos daquele que é um dos melhores avançados do século XXI, Haaland tornou-se no primeiro jogador adolescente a marcar um hat-trick na sua estreia na competição desde que Wayne Rooney havia conseguido tal proeza frente ao Fenerbahce, em 2004. O jogo foi contra o Genk, é certo, mas Haaland manteve a veia goleadora nas três partidas seguintes na Liga dos Campeões, marcando fora contra o Liverpool (numa derrota por 4-3), bisando frente ao Nápoles em casa (3-2 para os italianos) e marcando ainda mais um golo no empate na segunda volta diante dos napolitanos.

Ao fazê-lo, juntou-se ao reduzido lote de jogadores que marcou nas suas primeiras quatro partidas na competição (ocupado por Alessandro Del Piero, Diego Costa e o defesa central Zé Carlos, que atingiu esta marca quando jogava pelo FC Porto em 1992-93). Mais: é agora o jogador que menos jogos precisou para chegar aos sete golos — por comparação, Messi precisou de 18 embates e Cristiano Ronaldo de 33 partidas.

Com tudo contabilizado, o norueguês é o melhor marcador da Liga dos Campeões até ao momento (sete golos), à frente de Robert Lewandowski (seis) de Son Heung-min e de Raheem Sterling (cinco cada um). O facto de ter mais um golo do que o experiente avançado polaco do Bayern Munique é um ponto de interesse, já que estes são dois dos três avançados em melhor forma na Europa neste momento e com melhor pontuação no índice da Bota de Ouro (o outro é Ciro Immobile, dos romanos da Lazio).

Considerando apenas a atuação nos respetivos campeonatos, Lewandowski leva vantagem, com 16 golos em 11 jogos, face aos 15 golos em 12 jogos de Haaland. Contudo, contabilizando também jogos para as taças e para a Liga dos Campeões, o norueguês passa para os 26 golos em 18 jogos e Lewa para os 23 no mesmo número de partidas. Fazendo uma comparação, em média, Haaland tem marcado um golo a cada 48 minutos, Lewandowski a cada 67, ou, olhando para a coisa de outra maneira, o avançado do Salzburg tem marcado 1,44 golos por jogo, ao passo que o artilheiro do Bayern tem atingido os 1,28.

Estar a fazer uma época taco-a-taco com, possivelmente, o melhor avançado puro do mundo, é obra, ainda para mais para um menino de 19 anos. Mas Haaland não é alheio a proezas incomuns. No passado campeonato do mundo sub-20, organizado em maio, na Polónia, o norueguês foi o melhor marcador da edição, apesar da Noruega ter vencido apenas um jogo e não ter passado da fase de grupos. Porquê? Porque Haaland marcou nove golos na vitória por 12-0 frente às Honduras.

Sem surpresas, tal prestação não passou despercebida ao selecionador nacional sénior da Noruega, Lars Lagerbäck, que o chamou para duas partidas, frente a Malta e à Suécia, na qualificação para o Euro 2020. Tal subida aliás, foi um motivo de alívio para o selecionador sub-21 de Portuganl, Rui Jorge, que numa conferência de imprensa desabafou na brincadeira que esperava que Haaland não jogasse contra a equipa das quinas. Porém, isso nem sequer teria sido uma questão, caso o norueguês tivesse optado pela nacionalidade do país onde nasceu.

De Elland Road à Red Bull Arena, um percurso que se fez numa carreira de passos seguros

Quem sai aos seus, não degenera, mas também não tem de seguir o mesmo carrinho. O pai de Erling, Alf-Inge Håland, também foi um futebolista de perfil internacional, com uma carreira que o levou a jogar no Nottingham Forest, no Leeds United e no Manchester City, para além de ter somado 34 internacionalizações pela Noruega. Jogando ora na defesa, ora no meio.campo, não foi pelo golos que se notabilizou, e sim pela dureza do seu jogo e pela acesa rivalidade com Roy Keane, do Manchester United, cujo clímax foi um jogo em que o irlandês lhe entrou com os pitons no joelho direito e lhe terminou prematuramente a carreira, recebendo um cartão da mesma cor da camisola.

Alf-Inge Håland
Alf-Inge Håland, jogando pelo Manchester City, em partida contra o Manchester United a 21 de abril de 2001 créditos: ROBIN PARKER / FOTOSPORTS INTERNATIONAL / AFP

Por ter nascido numa fase em que o seu pai chamava casa a Elland Road, Haaland confessa-se fã da equipa agora orientada por Marcelo Bielsa e já disse que gostaria de ser campeão no Leeds. Porém, apesar de nascer num país privilegiado para a prática do futebol, Haaland mudou-se com a sua família para a Noruega quando o pai regressou ao país natal depois de se retirar dos relvados.

Bryne, cidade na costa oeste do país, não parecia o mais promissor dos locais para se iniciar no futebol, apesar de Haaland ter no seu pai um poço de conhecimento. Contudo, Alf-Inge diz que, apesar da sua tutelagem, foi o filho a verdadeira força motriz do seu desenvolvimento. “Eu sempre vi fome no Erling. Desde uma tenra idade, 11 ou 12 anos, ele ia sozinho para um campo interior, praticar as suas habilidades e jogar contra rapazes mais velhos. Ele sempre teve a vontade interior de ser melhor. Talvez tenha sido isso o que herdou de mim, porque nunca tive o seu talento”, conta o ex-jogador, citado pelo The Guardian.

Fruto de um crescimento súbito, Haaland saltou etapas nos escalões jovens para chegar à equipa sénior do Bryne FK com apenas 15 anos. À BBC, um jornalista norueguês que o acompanhou na altura, Henrik Smith, disse que o jogador “era rápido” e “fazia corridas inteligentes”, tendo “talento puro” apesar de ainda ser “desengonçado” — capacidade essa que contrastava com a sua habilidade para a música rap. O clube da segunda divisão não o manteve durante muito mais tempo, sendo que em janeiro de 2017, Haaland foi transferido para o Molde.

Esta mudança foi chave para o seu desenvolvimento, encontrando no comando técnico um dos maiores goleadores da história do país, Ole Gunnar Solskjær, que ali esteve durante quatro anos antes de ir tomar as rédeas do Manchester United. Chamado de “manchild” (“homem-criança”, traduzido à letra, querendo significar um adulto imaturo) pelos colegas dada a sua enorme estatura física, foi com os ensinamentos de Solskjær e com muito trabalho de ginásio para desenvolver musculatura — “10 a 12 quilos”, segundo disse o técnico —, que Haaland começou a tornar-se num avançado temível. Ao todo, o ponta de lança marcou 12 golos em 25 jogos, levantando ondas na imprensa norueguesa, particularmente depois de marcar quatro golos nos primeiros 21 minutos numa partida contra o Brann, em 2018.

Essa propensão para o golo não passou despercebida aos clubes europeus, particularmente à Juventus, que tentou adquirir o seu passe por seis milhões de euros. Haaland e o seu pai — que também é seu agente —, porém, torceram o nariz, temendo que a passagem para um clube de tamanha estatura o prejudicaria por não lhe dar tempo de jogo. “Obviamente que fiquei lisonjeado pelo interesse da Juventus”, disse numa entrevista em janeiro deste ano, considerando que era “demasiado cedo para ir para lá”.

A escolha acabou por ser o Red Bull Salzburg, clube conhecido não só por ser uma rampa de lançamento de talento, mas também por acolher goleadores (“Jonathan Soriano”, diz vos alguma coisa?) e por ser um clube hegemónico no seu país. Por nove milhões de euros, o norueguês ingressou numa equipa que lhe permitiria potenciar-se de uma forma que hoje está à vista.

Futuro Zlatan?

No alto da estrutura musculada que se estende por 1,90 metros, Haaland por si só já teria um físico excecional para ser um terror na grande área adversária. Contudo, o norueguês alia essa benesse natural a uma agilidade rara para alguém do seu tamanho, possuindo destreza, controlo de bola e, ao contrário de outros jogadores de estatura semelhante, capacidade de jogar em velocidade, sendo bastante mais rápido do que parece. Todas estas características, em conjunto com o seu posicionamento inteligente e uma compostura incomum em frente à baliza — é só ver como marcou os penáltis contra o Nápoles na Champions, por exemplo —, arriscam-no a tornar-se um caso sério de sucesso no futebol da próxima década.

São por estas componentes aliás, que o têm vindo a comparar com Zlatan Ibrahimovic, sendo o sueco o exemplo paradigmático do avançado possante mas tecnicamente dotado. A comparação faz sentido, até porque o Ibra é um dos ídolos de Haaland. Em entrevista, o norueguês destacou Zlatan no topo das suas inspirações e, numa fase em que cada vez mais se equaciona que deixe os relvados, deixou também a ressalva de que “sendo também escandinavo, alguém tem de continuar por ele”.

Esta confiança absoluta na sua capacidade para seguir os passos de um dos melhores avançados de sempre é outra característica que aproxima Haaland de Zlatan. Tal como o sueco — famoso pela sua persona extravagante —, o norueguês tem evidenciado um semelhante misto de confiança/arrogância e sensibilidade cómica.

Estamos a falar de um miúdo que, depois de uma prestação única contra o Genk, respondeu de forma quase monosilábica e jocosa às perguntas do jornalista na secção de entrevistas rápidas e que, depois de marcar o sétimo golo na Liga dos Campeões frente ao Nápoles, limitou-se a encolher os ombros e a responder que “sim, tinha a certeza”, quando lhe perguntaram se estava seguro de que ia marcar na conversão de um penálti.

Esse registo quase blasé tem convivido com tiradas que o tornaram num caso de sucesso na internet, como quando disse guardar na cama as cinco bolas com as quais já marcou hat-trick esta época, considerando-as “suas namoradas”. Ou quando disse a uma televisão norueguesa que tem o hino da Liga dos Campeões como despertador, dizendo que é “a última canção” da qual “se cansaria” - "Começo sempre o dia de maneira perfeita.”, referiu. Quanto a esta predileção em relação ao hino escrito em 1992 por Tony Britten, o seu colega de equipa Max Wober revelou numa conferência de imprensa que Haaland também ouve a célebre música no carro para se preparar antes dos jogos, algo que próprio revelaria num vídeo publicado na sua conta de Instagram.

Contudo, apesar de todo este mediatismo, o seu treinador, Jesse Marsch, diz que Haaland deixa as brincadeiras para fora de campo. “Ele comparece todos os dias, trabalha no duro e não toma nada por garantido. Dá tudo pelos seus colegas diariamente e fá-lo com um sorriso”, defende o técnico norte-americano. Esta postura, segundo o próprio jogador, foi formada pelo seu crescimento em Bryne. “Nós temos um ambiente especial lá. Contribuiu para eu não pensar que sou especial. Tenho sido sempre humilde, trabalhado no duro, sem ter pensado noutras coisas”, admitiu o jogador. Porém, Haaland terá agora muito em que pensar, já que tem meio mundo futebolístico à perna.

Os tubarões à caça do peixe graúdo

Neste momento é mais difícil especificar que grande clube europeu é que não quer Haaland do que aqueles que querem. São 20, ao todo, do Real Madrid ao Bayern de Munique, mas no topo da lista, segundo vários meios de comunicação, estão a Juventus e o Manchester United, dadas as ligações passadas.

Indo para o clube italiano que já o quis — há meios que avançam que já existe uma proposta de 40 milhões —, Haaland terá de disputar o lugar com Gonzalo Higuain e Cristiano Ronaldo. Já se optar por se reencontrar com Ole Gunnar Solskjær no Manchester United, poderá ter destaque numa equipa que se encontra órfã de um ponta de lança puro desde que Romelu Lukaku saiu para o Inter. O interesse dos Red Devils existe, tanto que, segundo o website The Athletic, Solskjær colocou o seu olheiro de confiança ao encalço de Haaland.

Porém, uma outra hipótese bastante realista, e até mais consonante com o percurso que Haaland tem feito até então, é mudar-se para o clube irmão do Salzburg, o RB Leipzig. Aqui, não só manter-se-ia dentro do grupo da Red Bull, como iria para uma equipa onde a sua titularidade seria praticamente garantida (assumindo que a saída de Timo Werner, avançado e principal figura da equipa de Leipzig, está próxima), seguindo os passos de outros jogadores que fizeram a mesma travessia, como Naby Keita, Dayot Upamecano ou Amadou Haidara.

O que parece cada vez mais incerta é a sua permanência no Salzburg. Haaland, que está avaliado em 30 milhões de euros pelo website Transfermarkt, já tem um preço afixado pelos austríacos: 100 milhões de euros.

Tendo uma panóplia de escolhas à sua frente, a tentação de dar um passo maior que a perna é grande. A Haaland interessará recordar-se tanto do caso do seu conterrâneo Martin Odegaard — cuja adaptação no Real Madrid tem sido dura e amarga, apesar do bom início de época ao serviço da Real Sociedad, por empréstimo dos merengues — como de Luka Jovic, jovem avançado de perfil parecido que também foi para os blancos e que ainda não se conseguiu impor na equipa.

No entanto, com o seu pai — que disse que o seu futuro invariavelmente passará pela Premier League — a zelar pela sua carreira, Haaland não parece estar muito preocupado com o seu futuro, considerando até que a contínua conversa de rumores é “aborrecida como a m***a”. Neste momento, só lhe interessa marcar golos, e nós por aqui continuaremos para apreciar.

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