Esquerda, direita, esquerda... respirar. Esquerda, direita, esquerda... respirar. O ritual repete-se vezes sem fim.

Dia sim, dia sim. Uma vez, duas vezes por dia. Horas a fio de cabeça enfiada na água e olhos virados para baixo. O tronco vive mergulhado, os membros alternam entre si para remar e a cabeça faz uma rotação lateral para inspirar e expirar.

Tempos e distâncias incontáveis a passar a vista por azulejos nas piscinas ou a vaguear entre peixes no mar. Um ritual de movimentos simétricos e repetitivos, tal qual um ponteiro de relógio onde a notória monotonia casa com o prazer da repetição.

Duas nadadoras com mais de quatro décadas de existência, Susana Gomes e Mayra Santos, uma portuguesa, a outra luso-brasileira, contaram ao SAPO24 a história da opção das respetivas vidas marcadas pelo amor à água e à natação, a propósito do OceanMan, na Madeira.

Não são profissionais. Fazem-no para além do trabalho. E mais do que uma simples prática desportiva ou procura de bem-estar mental e físico, guiadas pela paixão, trilham um caminho de vontade superação, encarando a natação como uma forma de estar na vida e um estado de espírito.

A maternidade precoce, aos 19 anos, o começo tardio na natação e a Madeira e o Funchal unem as narrativas. Uma versa sobre a dedicação à piscina; a outra sobre as águas abertas.

Uma escolha natural

Susana Gomes. Aos 46 anos, sagrou-se recentemente campeã da Europa de Masters de 100 estilos e mariposa, campeonato que decorreu no Complexo de Piscinas Olímpicas do Funchal, na Penteada, Madeira. No evento, a atleta do Clube Naval do Funchal colocou ainda mais duas medalhas de ouro ao peito (100 livres e 50 mariposa), quatro galardões para acrescentar a um currículo vasto e não organizado.

Tudo começou “tinha cinco ou seis anos, o meu pai era treinador no Sport Clube Marítimo, foi o grande impulsionador da natação no clube e comecei com ele”, recordou ao SAPO24. “A família estava ligada à natação, o meu pai nadou, os meus tios também e quis que os filhos nadassem”, acrescentou.

Começar a nadar em nada se resumiu à simples aprendizagem, só porque sim. “Era já a pensar na parte competitiva”, frisou a bicampeã mundial Master (2019 e 2023).

A maternidade aos 19 anos, a família e a paragem de 10 anos

O primeiro de 13 títulos nacionais surge aos 9 anos. Nadou, treinou e competiu até um ano depois da maioridade. “Fui mãe pela primeira vez aos 19 anos”, confessou de sorriso estampado no rosto. O abandono da natação foi ato contínuo à maternidade.

“É uma altura chata porque aí damos o salto, sonhamos com algo mais”, admitiu. “Se não tivesse sido mãe tão nova talvez... nunca sonhei tão alto, com os Jogos Olímpicos, mas com os europeus sim, estava perto de fazer mínimos (200 estilos), revelou.

Evaporaram-se os sonhos pessoais e prevaleceu o que construiu a partir daí. “Construí uma família”, rematou. “É passado”, encerrou. “Não sei se se tivesse continuado estaria aqui, as coisas não acontecem por acaso e há coisas boas que surgem agora” atestou.

Susana Gomes reentrou numa piscina a tocar a barreira dos 30 anos. O acompanhamento a treinos e provas da filha mais velha, também ela praticante até aos 14 anos, despertou-lhe o tal “bichinho”.

“Em 2009-2010 voltei a nadar. Nos primeiros 25 metros senti-me levezinha. O resto foi terrível. Nos primeiros treinos apetecia-me chorar ao chegar ao balneário. Como é possível ter sido o que já fui e agora custar-me tanto”, contou no podcast “À conversa no Cais”.

“Foram 10 anos de pausa, mas fez-me bem”, assegurou. Neste hiato de tempo “dediquei-me à maternidade, ao trabalho e a fazer coisas que não fazíamos enquanto estava na natação”, frisou. “Quando pensamos que não existe mais nada, nem vida para além da natação, estamos focados nos nossos objetivos... aproveitei tudo... para sair à noite [risos]”, disse na conversa com o SAPO24.

“Nunca contei azulejos da piscina, nem pretendo contar”

O processo repetitivo de treinos está mapeado entre o levantar cedo, treinar, trabalhar e voltar a treinar. “Faço uma hora e um quarto de manhã e uma hora e meia a duas horas à tarde”, explicou. “Há alturas da época em que faço treinos bi-diários. Entro na água às 6h00, saio às 7h20, vou para o trabalho, das 8h15 às 16h30, sigo direta para mais duas horas de piscina e depois ginásio duas a três vezes por semana”, detalhou. “É necessária uma disciplina grande. Temos o trabalho, filhas e família”.

Em média, diariamente, percorre três quilómetros de manhã e cinco à tarde. São anos e braçadas incontáveis sem sair do mesmo sítio. Provavelmente deu uma volta ao mundo a nadar sem saber ou sequer pensar. Nas incertezas do feito, uma certeza da prática. “Nunca contei azulejos da piscina, nem pretendo contar”, diz. E sorriu, de novo.

Susana admite que a natação é um desporto solitário. “Somos nós e o cronómetro”, usa a expressão. E nem tudo é cor-de-rosa. “Treino para melhorar décimas de segundos e não conseguimos. Há a frustração no momento, momentos que não estou sempre bem, em que estou cansada, mas faz parte de mim conseguir dar a volta e dou a volta rápido”, afiançou. “Não gosto de falhar aquilo que me propus, crio objetivos e enquanto não acontecer estou sempre a bater o pé”, continuou.

Créditos: Pedro Vasconcellos

“Faria tudo igual”

Adora o treino e a competição. Encontra o equilíbrio no meio aquático. Nos Masters, soma oito medalhas de ouro, cinco de prata e de bronze, três Mundiais e quatro europeus e 31 recordes nacionais (Masters).

Agora, conseguiu tudo aquilo que, por forças das circunstâncias da sua história, parece ter deixado para trás. Reconheceu ter vivido “momentos felizes” na dedicação à natação e ao olhar para o retrovisor da vida “faria tudo igual”, garante.

Mas falta-lhe algo. “Tenho um sonho que guardo para mim. Estava à espera que acontecesse na Madeira, no europeu. Tenho a marca de referência (nos 100 mariposa), a melhor marca de piscina curta aqui, mas há um recorde de uma italiana. Gostava de ter uma marca europeia, de piscina curta ou longa”, deixou no ar ao podcast À conversa no Cais.

Mayra Santos, a maratonista aquática que nasceu numa terra sem mar e casou no mar

Das piscinas às águas abertas. Mayra Santos vive de e para a água. Salgada, do mar e doce, dos rios. Uma paixão de quem, curiosamente, viveu afastada do meio aquático grande parte da vida.

Brasileira de nascença, viu a luz do dia em Juiz de Fora, no Estado de Minas Gerais. “Era uma cidade do interior, não tinha mar”, mas a atração pela água foi precoce, contou ao SAPO24 a luso-brasileira a viver na Madeira há cerca de 20 anos. “Sou a brasileira mais madeirense”, assegurou.

Praticou vários desportos na infância, mas foi a natação a tomar-lhe o coração. “Comecei a nadar em criança, aos nove anos de idade, em piscina, mas não em competição”, relembrou. “Aos 11 anos interrompi, mudámos de casa e não tinha maneira de continuar a pagar a natação”, lamentou.

Salta quase toda a década. “Fui mãe cedo, aos 19 anos”, destapou. Novo salto do tamanho de um oceano. Já com os pés bem assentes na Região Autónoma da Madeira, recorda a primeira vez. “Recomecei [a nadar] aos 36 anos. Tudo começou numa brincadeira ao experimentar uma prova de águas abertas de 1,5 quilómetros [em 2015] e apaixonei-me”, afirmou. Uma paixão que a levou até ao altar. “Até casei no mar”, contou.

Casou no mar e com o mar. O corpo frágil, a voz vigorosa e sorriso maroto escondem a coragem de várias e inéditas travessias no oceano e rios.

Corria o ano de 2019 e foi a primeira mulher a fazer a travessia a nado entre o Porto Santo e a Madeira, marina da Quinta do Lorde, no Caniçal, 42 quilómetros em 12h07 horas. A data, 4 de setembro, ficou gravada na sua memória.

A 6 de novembro de 2020 assinalou o recorde de natação estática, 30 horas sem sair dos 25 metros da piscina curta.

A 20 de junho de 2021, bracejou ao longo de 45 km no Zêzere entre a Foz de Alge, em Figueiró dos Vinhos, e a Praia Fluvial na Aldeia do Mato, em Abrantes.

“Não deu para ver tudo na primeira volta e dei a uma segunda volta”

Entre as muitas travessias, Mayra Santos destaca uma. A 11 de agosto de 2022, cumpriu a dupla volta a Manhattan, cerca de “92 quilómetros, 57 milhas”, uma viagem de circunavegação no Rio Hudson “em 20 horas”, menos quatro do que estava inicialmente previsto. “Não deu para ver tudo na primeira volta e dei uma segunda volta”, gracejou ao relembrar a prova das 40 pontes.

“A primeira volta fiz em 7 horas, para a segunda já foram necessário 13. Aí dava para tudo e ia com a língua se fosse preciso”, brincou. “A segunda volta foi muito difícil, senti correntes fortes como nunca tinha sentido. Parei algumas vezes por causa de mudanças de corrente, eram duas braçadas para a frente, três para trás”, revelou.

Detém-se num pormenor desse dia. “A lua tem significado para mim porque, quando a minha mãe morreu, a minha filha explicou para o irmão que a avó tinha ido para a lua. Por isso, todas as vezes que faço uma travessia e vejo a lua, sinto que a minha mãe está presente. Em Manhattan aconteceu isso”, relembrou a maratonista de águas livres.

“Controlo bem a mente para controlar o cansaço. Costumo dizer que a nossa mente mente-nos”

“As provas são esquerda, direita, esquerda e respirar”, caracterizou. “Cada braçada tem um significado especial apesar de ser sempre o mesmo”, continuou.

“A partir da uma hora na água só penso em coisas boas para evitar que a mente controle o corpo. Depois aparecem as dores, o cansaço e para contrariar temos pensamentos positivos e coisas boas. Penso em muitas coisas a tempo inteiro, pensamos nas coisas boas, nas más, procuro pensamentos bons e evito os maus, mas vem de tudo e chuto alto os negativos”, disse a nadadora que completou em setembro duas maratonas aquáticas, a etapa do circuito mundial OceanMan, na Madeira, e o Swin Challenge (20 km), em Cascais.

“Controlo bem a mente para controlar o cansaço. Costumo dizer que a nossa mente mente-nos. Às vezes, diz que estamos cansados, mas não estamos. A mente coloca-te doente na cama, mas dá para fazer mais. Por isso tento vencer a minha mente”, relatou.

Créditos: João Costa Ferreira (OSGA PHOTO)

“Tenho 44 anos. Não escondo porque parece que tenho 20”, solta uma forte gargalhada. “Digo a toda a gente, sem problemas, que a nossa idade está no BI [cartão de cidadão], o corpo não tem idade. Temos outras coisas. Eu, por exemplo, devia ter juízo, mas não tenho”.

“Tem de ter uma cabeça forte e saber o que quer. Não é uma brincadeira, eu quis estar aqui, aliás foi a quinta vez que fiz o percurso Calheta-Funchal [todas as edições do Oceanman Madeira], já devia ter juízo. Até os peixes já me conhecem, ali vem ela de novo, ainda não tomou juízo”, brincou.

“Sinto cada momento que estou no mar, cada braçada e isso proporciona-me alegria e momentos de energia boa”, frisou. A energia retirada de estar na água salpica para terra. Quase é possível ver o seu sorriso enquanto nada. “Digo adeus quando vejo gente, quero é falar e mando beijos e faço coração [acompanha com um gesto]”, ri.

Nas largas horas no meio dos oceanos ou nas margens dos rios, é apenas ela e os peixes. E assume que “a chegada é sempre especial”. “Tanto a saída como a chegada, mas a chegada é o melhor momento e é onde as famílias estão à nossa espera”, destacou a nadadora e antiga consultora imobiliária. “Mudei de profissão. “Virei-me para o mar, uma empresa ligada a descobrir a Madeira, nadando de cabeça para baixo, vendo peixes...”, anunciou.

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