Ep. 4 - Provavelmente, a melhor equipa de sempre

Veja todos os episódios de Chegámos Lá, Cambada aqui.


O episódio anterior de Chegámos Lá, Cambada teve daquelas cenas (pelo menos duas) dignas de filme e que as pessoas que adoram toda esta coisa da bola dificilmente se esquecem — por mais datas e anos que o nosso calendário biológico acumule. Porque é efetivamente verdade que as há: aquela cena inesquecível, aquela linha que sabemos de cor, aquele ator que nos marcou, aquela parte em que o pai do Simba, pregada à composição de Hans Zimmer, no Rei Leão, faz com que qualquer criatura que tenha um coração a bater no peito esboce um fungar do nariz e comece a lacrimejar.

Todavia, ainda que assim seja, há casos em que a ficção não consegue de todo cismar o drama daquilo que é o dia-a-dia na vida daqueles que vivem no mundo dos de carne e osso. No caso do Chegámos Lá, Cambada, puxando a bobina do filme para trás, a primeira cena inesquecível foi aquele danado gancho. Em 1996, foi como se o pé do checo Karel Poborský fosse um gancho que elevou a bola num arco de volta perfeita, tão inesperado de ser executado por um homem num momento tão nervoso, tão decisivo, que sobrevoou Vítor Baía e tocou o fundo das redes. E depois foi Batta. O juiz francês, durante o Alemanha - Portugal, disputado a 6 de setembro de 1997, no Estádio Olímpico de Berlim, mostrou o único cartão vermelho da carreira do maestro do conjunto português. No entender do senhor do apito, Rui Costa demorou tempo demais a abandonar o relvado no momento em que era para ser substituído por Sérgio Conceição. Para quem viu, para quem relembra o incidente, na opinião da esmagadora maioria, Batta gorou a hipótese de qualificação de Portugal para o Mundial’98. Doeu, magoou e o povo sentiu-se amplamente injustiçado. Só que o tempo provou o ditado e não adiantou - mesmo - chorar sobre o leite derramado. Pelo que, rapidamente, a equipa das Quinas se recompôs e quis saltar para o capítulo seguinte para poder reescrever a história, mas desta feita com um final feliz. E até já tinha destino marcado e tudo: passava pela Bélgica e Holanda, dali a 3 anos - ou seja, no Euro 2000.

"Portugal podia ter sido perfeitamente Campeão da Europa em 2000. E se me perguntarem, dos jogos da seleção de que me lembro, qual a equipa que gostava agora de pegar num DVD e ir rever, é essa, a de 2000”, afirma sem hesitar Carlos Daniel, jornalista da RTP. Não é um sentimento e opinião difícil de encontrar quando se fala neste Europeu. Esta crença, de que foi neste ano que se encontrou o melhor do futebol nacional, é algo que se repete inúmeras vezes quando se pede, sobretudo a quem acompanha mais de perto a modalidade, que destaque um conjunto ou ano da seleção de futebol sénior.

Nuno Matos, radialista da Antena 1, por exemplo, também não tem dúvidas: “A geração do Euro 2000 foi brutal. Para mim, foi a melhor. Agora vão-me crucificar, mas eu acho que foi a melhor”. Não é o único a pensar assim, longe disso.

Estávamos à beira do novo milénio. E ainda que se trate de um curto período de tempo desde o fatídico afastamento do MUndial de 1998,  fora das quatro linhas, vários são os pontos obrigatórios que vincariam a história portuguesa (e internacional) em qualquer exercício de memória desta época. Na Federação Portuguesa de Futebol tinha sido feito um exame, um eletrocardiograma, ao coração da seleção. E o diagnóstico foi peremptório: urgia o sentimento de acelerar até 2000. Já sem Artur Jorge, mas com Humberto Coelho, a comandar à proa.

O apuramento para o Euro 2000 arrancou em 1998. Em outubro, mais precisamente, com uma vitória em Budapeste, na Hungria, por 3-1. Sá Pinto (bisou) e Rui Costa foram os ilustres marcadores. Nos restantes encontros, há que abrir alas para duas goleadas ao estilo do hóquei em patins dos anos 90: 8-0 frente ao Lichestein e 7-0 ao Azerbeijão. Tudo somado, finda a contenta, o cabaz estatístico ditou que, em 10 jogos, Portugal marcou 32 golos e cedeu apenas 4. Ainda assim, não chegava para ficar em primeiro do Grupo 7. O que nos leva direitinhos à negra.

Ora, no último dia da qualificação, ganhar não chegava. O fado desportivo português não estava assegurado apenas com os três pontos. Era preciso mais que isso: a turma das Quinas estava obrigada a ganhar por uma diferença de três golos frente à Hungria. A razão? Apesar de todo o aparato evidenciado no número nas contas do grupo, a realidade dos pontos ditava que a seleção nacional estava em segundo lugar atrás dos tricolores que o lideravam: é que tinha havido tropeção precisamente frente à Roménia, logo na 2ª jornada, no Estádio das Antas, por 0-1 (um autêntico balde de água fria, pois Dorinel Munteanu marcou em cima dos 90’, na única derrota a assinalar em toda a campanha). Tratava-se da equipa do Maradona dos Cárpatos (Gheorghe Hagi), de Popescu e da estrela do videojogo Championship Manager, Florentin Petre.

Estávamos, portanto, em mil novecentos e noventa e oito. Um ano de grandes eventos em Portugal, daqueles que não se esgotam no dia e perduram na história. Em finais do mês de março, a inauguração da Ponte Vasco da Gama, à época a maior ponte da Europa, que liga as margens Norte e Sul do Tejo, e que conta com 17,2 quilómetros de extensão, encheu manchetes (e faria correr muita tinta nos anos que seguiam). Foi inaugurada ao sabor de uma feijoada, na celebração dos 500 anos da chegada do velejador português que lhe deu o nome à Índia. Dois meses apenas após esta abertura, em maio, assinalou-se a abertura em Lisboa de uma exposição mundial não menos grandiosa em todo o seu significado cultural global, a Expo 98; em outubro, José Saramago receberia o ainda único Prémio Nobel da Literatura português.

No ano seguinte, em 1999, mastigadas as 12 passas, a nível interno, o governo liderado por António Guterres consegue cumprir os quatro anos de legislatura (1995-1999) sem apoio maioritário da Assembleia da República e lá fora o alpinista João Garcia tornar-se-ia no primeiro português a chegar ao cume do Evereste; a 6 de outubro, o país e o mundo iria receber a triste notícia de que a Rainha do Fado, Amália Rodrigues, então com 79 anos, falecera em Lisboa. Por fim, embora não menos importante, ainda antes de passarmos à romaria propriamente dita do virar do milénio, a 20 de dezembro, Portugal oficializava a entrega de Macau à China. Ainda que Declaração Conjunta Luso-Chinesa tenha sido assinada em 1987, pelo então Chefe do Governo da República, Aníbal Cavaco Silva, este foi o dia em que Macau deixou oficialmente de ser território chinês sob administração portuguesa e se tornou numa Região Administrativa Especial (RAE) da República Popular da China.

Cronologicamente descrevendo, o que segue a seguir (o pleonasmo é intencional) ainda não é para inglês ver, mas sim para recordar receio tecnológico. E logo no primeiro de janeiro: isto é, a transição para o ano 2000 é feita sem que se registe qualquer problema com os computadores, ao contrário do que alguns especialistas da altura temiam. Todavia, janeiro ficaria igualmente marcado por duas situações completamente distintas. Uma séria, outra meio a brincar. Esta última, tem que ver com a estreia do primeiro de uma série de 30 telefilmes que foram exibidos na SIC, Amo-te Teresa, com Ana Padrão e Diogo Morgado — trata-se do filme que abriu caminho ao ator português para se sentar no cadeirão da Oprah Wiffrey já como “Hot Jesus” e estrelar filmes na Netflix. A primeira, séria e para obviamente para lamentar: a ETA, principal organização do Movimento de Libertação Nacional Basco, acabava com um período de 19 meses de trégua com dois atentados à bomba em Madrid, matando 23 pessoas. Nos meses seguintes, nomeadamente até junho, data em que se disputou o Europeu organizado em conjunto pela Holanda-Bélgica, foi lançada a PlayStation 2 no Japão, consola de videojogos que tornar-se-ia uma das mais populares e vendidas do género, durante toda a década que se seguiu.

Por cá, João Paulo II visitava Fátima e beatifica os pastorinhos Jacinta e Francisco Marto, com a irmã Lúcia entre aqueles que estavam presentes a assistir à cerimónia. Vladmirir Putin era empossado oficialmente como Presidente da Rússia, naquele que viria a ser o seu primeiro mandato enquanto chefe de Estado. Mais tarde, haveria ainda tempo para a atriz e realizadora Maria de Medeiros estrear nas salas portuguesas o seu filme Capitães de Abril e o Real Madrid vencer a Taça dos Clubes Campeões Europeus contra o Valencia CF, num tal de… Stade de France. Golos aos 39’ de Fernando Morientes, 67’ Steve McManaman e aos 75’, por Raúl González. Curiosidade: o Porto foi eliminado pelo Bayern Munique nos quartos de final, mas ainda assim Mário Jardel terminou a prova com 10 golos — os mesmos que Rivaldo (Barcelona) e Raul (Real Madrid). E, agora, sim. Vai ser para inglês ver. É já uns parágrafos abaixo.

"Do ponto vista das competências e das capacidades que aqueles jogadores tinham, era provavelmente a melhor. O problema é que, na soma desses jogadores, não se conseguia apurar depois uma equipa que fosse mais do que essa soma”, comenta Vítor Serpa, diretor do jornal A Bola, sobre o plantel português no Euro 2000. “Em 2000, no Campeonato da Europa, na fase final, Portugal faz uma campanha brilhante”, corrobora o jornalista do Record,  Rui Dias. Mas, espera lá… Fase final? Então a seleção ganhou ou não ganhou no último jogo de apuramento? Quem ficou em primeiro e em segundo?

Pois bem, a turma de Humberto Coelho fez o que tinha que fazer no derradeiro jogo da qualificação: no Estádio da Luz (velhinho), com o apoio nas bancadas de mais 60 mil pessoas e equipados de branco e azul, venceram por 3-0. Rui Costa (15’), de pénalti, e João Vieira Pinto (17’) marcaram no primeiro tempo; Abel Xavier, que tinha entrado ao intervalo para o lugar de Secretário, e que ainda não ostentava uma farta cabeleira oxigenada, carimbou a passagem à fase final com um golo de cabeça, aos 57’, ao aparecer bem nas costas da defesa húngara após responder da melhor forma a um cruzamento de Figo, atirando, de baixo para cima, para o poste mais próximo de Gábor Király — sim, o mesmo Király que jogou contra Portugal no Euro 2016; e novamente sim, o eterno guardião estava com as suas calças de fato de treino cinzentas. Mas não se pense que não existiu drama. Porque houve. Ai, se houve. É que Pauleta tinha visto o segundo amarelo ainda na primeira parte — e não foi assinalado um pénalti daqueles assim para o claríssimo sobre João Pinto. Eram necessários três golos para Portugal seguir em frente, como equipa mais pontuada entre os segundos classificados, e o ponta-de-lança de serviço, o Açor-do-Golo, então ainda nos quadros dos espanhóis do Deportivo campeão, tinha recebido ordem do árbitro dinamarquês, Kim Milton Nielson, para abandonar. E estava fora do primeiro jogo, na Holanda, em Eindhoven. Só que isso era um detalhe que não importava; depois do episódio Batta, só importava dizer quem é que estava dentro do Euro. E Portugal estava dentro. E logo para nunca mais falhar uma competição internacional — até aos dias de hoje.

Conquanto, talvez seja aqui que se começava a notar as primeiras diferenças de mentalidade entre esta seleção, esta geração e aquelas que a antecederam. Camilo Lourenço, considera que "2000 foi o melhor exemplo de que nós já tínhamos uma mentalidade diferente na seleção” porque “os jogadores eram maduros”. E porque, acredita, “aqueles jogadores estavam ali a jogar e sabiam que podiam ganhar."

O épico dos jogos épicos

12 de junho, 1ª jornada da Fase de Grupos do Euro 2000.

Este é, talvez, daqueles jogos que nem é quase preciso escrever. Mas a existir a necessidade de o fazer, há que elaborar que, para coração lusitano, a nível de seleções, este foi o jogo onde se efetuou a remontada das remontadas, a mãe de todas e espetaculares recuperações. Pelos golos, pelo ambiente, pelas jogadas, pelo futebol praticado. E por ser contra quem foi, no palco que foi. Mais: o titular deveria de ser o Pauleta, mas este, como já vimos, estava suspenso. Na hierarquia dos avançados, seguia-se Sá Pinto, que seria então a escolha para o lugar de Pauleta — só que o infortúnio fez com que se lesionasse dias antes do primeiro jogo frente à Inglaterra. O que abriu as portas à titularidade do 21 português.

“Porque ainda por cima estávamos perante uma Inglaterra absolutamente fantástica. Aquela equipa era Beckham, Paul Scholes, Steve McManaman (que era um jogador extraordinário), Michael Owen... É uma equipa incrível que nos estava a ganhar por 2-0”, recorda Carlos Daniel. “E de repente, os golos, são todos admiráveis. O pontapé do Figo é épico. A cabeçada em rotação do João Pinto é um golo extraordinário, o passe do Rui Costa para a emenda do Nuno Gomes, enfim, são golos que estão na nossa cabeça para sempre. De repente remontar de 0-2 para 3-2 contra aquela Inglaterra, no primeiro jogo do Euro, lançou Portugal para o sonho de tudo ser possível”, continuou.

Mas, calma lá. Aqui importa frisar como tudo aconteceu. Segundo reza a lenda (e os jornais da época), a dois dias do Inglaterra-Portugal, o escocês Graeme Souness, que orientou o Benfica entre 1997 e 1999, disse à imprensa britânica: “Eles [Portugal] talvez joguem um futebol bonito, mas não têm qualquer killer instict. A Inglaterra é muito mais forte. Não há dúvida que vão jogar mais bonito do que a Inglaterra mas isto não é concurso de beleza. Espero que o jogo corra como aquele particular para o Mundial-98. Eles trocaram a bola muito bem, mas a Inglaterra mostrou muito mais poder e acabou por ganhar confortavelmente por 3-0. Portugal tem problemas em aparecer ao melhor nível nos grandes jogos e não acredito que o façam desta vez. Exceptuando o Figo, e talvez o Rui Costa, todos os outros são alvos fáceis. Vítor Baía é muito considerado mas joga sempre em grandes equipas, com grandes defesas que o protegem constantemente. Nuno Gomes, por exemplo, é o único avançado do mundo que joga de costas para a baliza e João Pinto é alérgico à grande área”.

Pois é. Alguém teve que meter a viola no saco. Nada como o relato na primeira pessoa do tal avançado que joga de costas para a baliza. “Foi o meu primeiro golo ao serviço da seleção A, foi o golo da vitória. Um passe do Rui Costa e eu domino a bola já a entrar na área e depois o David Seaman saiu com tudo para tentar fazer a mancha, mas eu consegui ser mais rápido e consegui fazer o golo”, conta Nuno Gomes.

Na opinião de Camilo Lourenço, a qualidade dessa equipa em campo era dificilmente comparável ao país que éramos na altura. E maturidade era a palavra chave. “Isso para mim foi a mensagem [a recuperação frente a Inglaterra] e o sinal que nós tínhamos atingido a maturidade. E como é que isso liga ao país? Dificilmente. Porque, eu acho, nós não tivemos nenhum sinal de maturidade. Aliás, desde o Eng. Guterres à troika, como se viu, passamos estes governos todos e não houve nenhum sinal de maturidade”, revelou.

Ao segundo encontro, frente à Roménia, Costinha, campeão francês pelo Mónaco, ainda que fosse a surpresa do lote de convocados para a viajar até à fase final, neste jogo foi a ‘estrela': entrou aos 87 minutos e, já em período de compensação, apontou o único golo do jogo, que deu o acesso de Portugal aos quartos-de-final. “O jogo com a Roménia foi o que me projetou. Consigo fazer um golo que dá a qualificação direta a Portugal. Estava no banco, a Roménia tinha feito um ataque muito perigoso pelo Hagi, o Humberto Coelho pensou a poucos minutos do fim que era melhor ter um ponto do que a Roménia ganhar e ficarmos todos baralhados no grupo e decide por um centrocampista. Tira o Rui Costa e recordo-me, entrei meio perdido devido ao ritmo elevado do jogo", disse o próprio à agência Lusa.

E aos 90+4 minutos, na sequência de um lance de bola parada, um livre cobrado por Luís Figo, Costinha fez a diferença. E, tal como aconteceu uns parágrafos acima, o golo, na primeira pessoa: “Há um livre e para a área. Foram o Jorge Costa, o Fernando Couto e eu. Como era o mais novo, achei por bem ir para o meio campo ocupar a posição de defesa e o Paulo Bento é que diz ‘miúdo onde é que vais?'. Ele disse ‘vai para a frente, eu fico lá atrás'. O Luís Figo bate o livre e eu tenho a felicidade de me antecipar e marcar o golo que dá a qualificação e me deixa duas imagens fantásticas: uma a bancada atrás da baliza completamente cheia de portugueses em delírio e outra a mão do Jorge Costa a puxar-me o pescoço”, descreveu Costinha.

Estava selado o apuramento. Na fase de grupos os romenos levaram a melhor, mas a contar foi Portugal que avançou. Primeiro uma reviravolta (Inglaterra) que mais parecia uma epopeia homérica do futebol, agora uma vitória dramática em cima do apito final. Touché. Estava dado o mote para ficar tudo deslumbrado. Seguem-se três golos sem resposta à sempre poderosa Alemanha — todos apontados por Sérgio Conceição. "Foi um jogo em que tudo correu bem para Portugal. O Sérgio Conceição estava inspiradíssimo”, revela o seu antigo companheiro de seleção, Nuno Gomes.

A mudança do futebol alemão

Vítor Serpa, aproveita para recordar a mudança mais profunda que essa derrota ditou na Federação Alemã e no futebol alemão. Não foi só o facto de Portugal ter ganho com a equipa de segundas unidades e com relativa facilidade, mas foi o despertar daquilo que estava para vir. "Esse jogo com Alemanha determinou uma mudança histórica. Foi o tal clique que deu a origem à grande revolução do futebol alemão que a determinada altura percebeu que a questão não estava só em ter mais força e ter mais capacidade atlética que a questão, digamos, da forma como se apurava tecnicamente o jogador, era absolutamente decisivo e por isso veio aprender muito aos treinadores portugueses e também aos treinadores holandeses naquela época".

Ao longo da década de 90, o então técnico nacional Berti Vogts alertou o país uma e outra vez, visto que, na sua opinião, não estava a emergir sangue novo nas camadas jovens e a Alemanha estava, descansada, a viver sob os louros das glórias atuais sem se preocupar com o futuro.

Contudo, não era só a falta de talentos que era apontada como uma das grandes lacunas no futebol alemão. Por vezes, ele estava lá. Mas ninguém dava com ele. E quando já não existem muitos e se os poucos jovens que tinham talento muitas vezes passavam despercebidos, pior ficavam. Um exemplo? Miroslav Klose, que bateu o recorde de mais golos marcados nas fases finais dos Mundiais, ainda jogava futebol amador, na quinta divisão, aos 21 anos, porque eram poucos os olheiros que viajavam para os cantos remotos do país, onde este se encontrava a fazer balançar a rede.

É por isso que Jörg Daniel, antigo guarda-redes de vários clubes da Bundesliga na década de 70 e diretor do Programa de Promoção de Talentos Alargado, afirmou que o objetivo do projeto, no dia em que foi apresentado ao público, passava por fazer os possíveis para que este tipo de situação não se repetisse no futuro. “Se o talento do século nasce numa pequena aldeia atrás das montanhas, a partir de agora vamos encontrá-lo”.

A Besta Negra

Seguiu-se a Turquia, nos ‘quartos’. Os portugueses eliminaram a Turquia (2-0), com dois golos de Nuno Gomes, assistido por Figo em ambos os lances. Pelo meio, uma expulsão do defesa central Alpay e a defesa de Vítor Baía, em cima do intervalo, que fizeram com que milhões de portugueses pensassem que o poderia fazer novamente no jogo seguinte. E assim, praticamente sem grande esforço, a nossa memória galga veloz para aquilo que nos salta de pronto à cabeça: a malfadada mão de Abel Xavier, no prolongamento, nas meias-finais do torneio. Por vezes, até o belíssimo tento apontado por Nuno Gomes é esquecido. No calendário romano, estávamos a 28 de junho, do ano 2000. Carlos Daniel faz o desenho do jogo e do que se passou dentro das quatro linhas.

”Há momentos em que nós temos muita qualidade, somos muito competentes, mas do outro lado também está uma equipa com muita qualidade e muito competente. E a França tinha Zidane, tinha Deschamps, tinha Patrick Vieira, tinha Desailly, tinha Emmanuel Petit... E depois ainda tinha na frente — que era aquilo que nós não tínhamos com essa fartura — o Anelka, mas sobretudo o Trezeguet, o Thierry Henry. Para quem, como eu, tinha 14 anos no golo do Platini, aquela desgraça daquele prolongamento de 84... A França era a nossa besta negra”, conta.

Nuno Gomes, aos 19’, deu a vantagem a Portugal contra os gauleses, mas Thierry Henry empatou o encontro na segunda parte. “Foi um golo que ninguém estava à espera porque foi uma ação repentina em que houve um ressalto de bola e onde o Sérgio Conceição disputou a bola com um jogador francês e a bola ressaltou para mim e eu deixei a bola correr. De costas para a baliza, chutei de primeira. Surpreendi o guarda redes e toda agente. Foi um golo que nos alimentou essa esperança, de irmos à final. Embora ainda fosse cedo para deitarmos os foguetes, como se costuma dizer", recorda Nuno Gomes.

No jogo, sem que houvesse domínio claro de qualquer uma das equipas, Abel Xavier em cima do minuto 90, num cabeceamento virtuoso, obrigou o guardião Fabien Barthez a ter que executar uma excelente intervenção para impedir o golo do português. Até que foi necessário recorrer ao tempo extra para encontrar um vencedor.

Foi um golpe difícil de digerir, mas não deixa de ser verdade aquilo que relembra Rui Dias: “Antes do golo que ditou a derrota de Portugal há dois lances que Portugal podia ter feito o 2-1. Um remate do João Pinto que passa a arrasar o poste e uma cabeça do Abel Xavier na frente do Barthez que faz uma grande defesa”.

Ainda assim, Carlos Daniel considera que a “França era melhor”. “A nossa [equipa] era muito boa, mas a deles ainda era melhor. E portanto não há que regatear este mérito ao adversário. O Abel Xavier deu com a mão, foi pénalti; doeu, eu não gostava nada do golo de ouro, não deveria era de ter acabado ali o jogo. Deveria era de ter havido mais 10 minutos — quem sabe se Portugal não conseguia fazer qualquer coisa. Mas verdadeiramente não foi nada por causa disso que perdemos. Perdemos porque éramos excelentes, mas eles foram melhores ainda”, analisa.

Com apenas três minutos para terminar o prolongamento, David Trezeguet viu Vítor Baía retirar-lhe uma oportunidade flagrante, e Sylviain Wiltord recuperou a bola para ver o seu esforço ser bloqueado pela mão de Xavier perto do poste.

O árbitro Gunter Benk concedeu penálti sob ordens do fiscal de linha Igor Sramka e Portugal viu desmoronar o sonho logo ali. Foram precisos três minutos para que a turma lusitana acalmasse os ânimos e Zidane pudesse marcar a grande penalidade que colocou os franceses na final da competição.

Porém, a frustração da equipa portuguesa não permitiu que o jogo terminasse por aí. Os protestos continuaram. E Paulo Bento e Nuno Gomes tiveram mesmo que ser barrados da direção do fiscal de linha. Até Eusébio teve que tomar uma posição e ajudar a refrear os ânimos. Contudo, no coração de tudo isto estava Abel Xavier, que dificilmente parecia o mais discreto dos intervenientes enquanto repreendia a equipa de juízes da partida.

Nuno Gomes confessa que ficou com “o sabor da injustiça porque parecia que nos estavam a tirar ou a roubar algo. E também a desilusão do sonho ter acabado, de Portugal marcar uma presença na final, que seria um momento histórico na altura. Foi uma desilusão muito grande e foi com muita pena que nos viemos embora”.

O jogo termina com um golo de ouro que nunca mais voltou a ser protagonista de nenhum outro encontro; para o bem e par ao mal, Zidane marcou o último golo de ouro neste tipo de competição. Só com Vítor Baía pela frente, não tremeu, nem vacilou. Estava marcado o golo da nossa discórdia e indignação. Luís Figo era a voz da revolta com a célebre frase: “Já não há verdade; o futebol é um negócio”.

Lá fora, na imprensa internacional, o britânico The Guardian, com uma fotografia de Luís Figo, Vítor Baía e Abel Xavier, protestando junto do árbitro contra a grande penalidade, referia que a primeira meia-final do Euro 2000 terminou em controvérsia. “O jogo ficou paralisado durante mais de três minutos, enquanto os jogadores da equipa de Portugal protestavam junto do árbitro e do juiz de linha. Luís Figo parecia, temporariamente, ter deixado o campo, furioso, mas voltou pouco depois, a tempo de ver Zidane colocar a bola no fundo das redes e enviar a França para a final em Roterdão no domingo”, acrescentava o jornal.

Para Rui Dias, foi o fim de uma caminhada que parecia destinada a outros voos. Ainda assim, Portugal haveria de ter uma razão para celebrar, pois Luís Figo acabaria por ganhar a Bola de Ouro em dezembro. “Foi pena. Acho que esse Europeu apanha o Figo e o Rui Costa — principalmente estes dois —, uma dupla de centrais Fernando Couto e Jorge Costa, a jogar muito bem. Creio que, em 2000, Portugal tinha, de facto, todas as condições para ser Campeão da Europa”.


 “Chegámos Lá, Cambada” é um documentário produzido pela MadreMedia e que vai estar em exibição no SAPO24 entre 22 de maio e 14 de junho. Ao longo de oito episódios vamos contar a história de 30 anos da seleção, do pontapé de Carlos Manuel, em Estugarda, ao golo do Éder, em Paris, que nos deu a vitória no Euro 2016.

As suas memórias destes 30 anos fazem parte da história. Partilhe-as connosco através do email chegamoslacambada@sapo.pt e os melhores textos serão publicados neste dossier especial.

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