Ep. 3 - Do "chapéu checo" ao Mundial a que não nos deixaram ir

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Foi de gancho. Foi como se o pé do checo Karel Poborský fosse um gancho que elevou a bola num arco de volta perfeita, tão inesperado de ser executado por um homem num momento tão nervoso, tão decisivo, que sobrevoou Vítor Baía e tocou o fundo das redes.

Foi de gancho que a seleção portuguesa, que começava a ser polvilhada pelos jovens talentos da geração de ouro, saiu Inglaterra, do Campeonato da Europa de 1996, 30 anos depois de ali, nas terras de Sua Majestade, os “Magriços” de Eusébio terem entrado para o pódio do mundo e feito história.

Tinham passado 22 anos desde a primeira participação da seleção das quinas num Europeu, naquelas meias-finais de 1984 em que a França de Platini nos roubou o sonho de conquistar um troféu que, na altura, estava muito além da nossa imaginação. Dez anos depois daquele que ficou conhecido como o caso Saltillo, uma década depois de uma travessia no deserto em que a seleção falhou a presença no Europeus de 88 e 92 e nos Mundiais de 90 e 94, Portugal participava novamente numa grande competição de seleções.

"Em 96 qualificar-nos já era uma grande coisa, nós estávamos habituados em Portugal a ver as fases finais das competições, a ter de escolher uma equipa pela qual torcer. Uma parte importante das pessoas nos mundiais torcia pelo Brasil e depois nos Europeus cada um escolhia a sua. E subitamente temos a nossa seleção ali a disputar já era uma vitória", sublinha o sociólogo Pedro Adão e Silva.

Não chegámos a Inglaterra de gancho, mas de balão. No balão também imprevisível, de Rui Costa frente à Irlanda, no estádio da Luz, num encontro que terminaria 3-0, mas que ficaria marcado por aquele pontapé do meio da rua do ‘maestro’ que sobrevoou o guarda-redes, tocou na parte debaixo da barra e atravessou a linha de golo.

créditos: Lusa

Um balão de ar quente que foi ganhando mais fôlego com a alegria que se viveu nessa noite no Estádio daLuz,  a cada golo e, finalmente, no apito final. A alegria de um outro Portugal. O país tinha-se modernizado e uma década depois os efeitos da entrada na CEE (Comunidade Económica Europeia) na sociedade eram nítidos; e outra seleção, os meninos de Queiroz, as gerações de Riade de de Lisboa, os bicampeões mundiais, as nossas esperanças calçavam agora as botas na seleção principal e eram o rosto de um país mais aberto.

“Não digo que seremos campeões europeus mas vamos tentar”

O país abriu as fronteiras ao resto da Europa e as quatro linhas do retângulo de jogo deixaram de ser paredes. Jogadores portugueses a brilhar lá fora deixaram de ser casos isolados para começarem a ser uma "normalidade" que chamava a atenção aos gigantes dos desporto-rei. Paulo Sousa na Juventus, Rui Costa na Fiorentina, Luís Figo, Vítor Baía e Fernando Couto no Barcelona eram rostos de um futebol mais moderno e da afirmação do jogador luso.

"Portanto, já havia aquela ideia de que Portugal tinha dificuldades em marcar golos, mas com bola era uma equipa muito bonita. O Oceano era titular, a fazer um bocadinho o trabalho de sapa, mas depois libertava Paulo Sousa sobretudo para começar a organizar, Figo, Rui Costa. O ataque João Pinto e Sá Pinto foi quem jogou mais vezes, mas também havia Domingos para lançar, Folha... Era uma equipa com muita qualidade individual", recorda Carlos Daniel, reavivando o onze daquela equipa das quinas.

Ao contrário de José Torres que 10 anos antes tinha pedido ao país para os deixar sonhar, António Oliveira, selecionador nacional, prometia que ia tentar. “Não digo que seremos campeões europeus mas vamos tentar”, dizia. A mudança no verbo mostra que desta vez não tínhamos chegado ali por acaso. Chegámos a Inglaterra porque tínhamos qualidade, porque éramos outra seleção.

Sabíamos disso e tentámos.

Logo no primeiro jogo, Portugal empatou com a campeã europeia em título, a Dinamarca, num jogo em que dominou por completo e reclamava atenção.

Portugal? "Sem balizas é a melhor equipa da Europa"

"Nós tínhamos claramente muito talento, éramos das equipas mais talentosas do Campeonato da Europa, isso é indiscutível. Eu lembro-me de um comentário do Gullit, que tinha deixado de jogar há pouco tempo, estava a comentar numa das televisões inglesas, não sei se a BBC ou a iTV, e ele dizia: "sem balizas é a melhor equipa da Europa", recorda o jornalista e comentador desportivo Carlos Daniel.

Portugal tinha talento e ao talento somava ambição. Nas televisões inglesas o futebol luso era comparado ao brasileiro, deixávamos de ter escolher apoiar o Brasil para passar a sermos nós o Brasil. Mas, conta com ironia António-Pedro Vasconcelos, o cineasta que acompanhou nos estádios esse campeonato, havia um problema: é que o Brasil nunca tinha ganho um Europeu.

"Lembro-me de tar um painel de comentadores e havia um tipo qualquer que dizia "epá, de futebol, Portugal fantástico, tem muitas hipóteses, é um futebol bonito é um futebol que faz lembrar o Brasil e tal". E houve um inglês daqueles muito frios que comentou "pois, mas eu não me lembro de alguma o Brasil ter ganho o Campeonato da Europa", relembra.

“Nós dependíamos muito do talento e o talento não surge todos os dias ao mesmo nível"

As vitórias com a Croácia e a Turquia colocavam Portugal nos quartos-de-final deixando a Dinamarca de Laudrup e Schmeichel para trás. E convencemos. De volta aos grandes palcos sonhava-se com uma nova graça em Terras de Sua Majestade, mas, naquele jogo frente à República Checa, Poborský tirou-nos o chapéu.

Os checos eram estreantes, mas não desconhecidos. "Eram jogadores com muita qualidade”, conta Carlos Daniel que recorda “o melhor de todos, o que veio a ser o melhor de todos, o Nedved que é um jogador fantástico, mas também o Poborský, o Smicer, o Patrik Berger”.

créditos: EPA/S. Martyn Hayhow

Num campo onde vinte e dois homens envergavam as camisolas dos respetivos países, o golo de Poborský, durante alguns segundos, foi extraterrestre. Entrou pela grande área portuguesa, do pé fez gancho, e, sem compasso, levantou a bola numa trajetória perfeita sobre Vítor Baía que, depois dos primeiros passos em direção ao checo, não conseguiu mais do que, colado ao chão, rodar a cabeça à medida que o esféricos caía das nuvens para o fundo das redes da baliza que defendia.

Que chapéu.

"Tecnicamente lembro-me que se falou que o Vítor Baía estaria mal colocado, estava muito adiantado. O Vítor Baía estava no sítio em que tinha de estar, ninguém consegue prever que um jogador pegue na bola e consiga executar de uma forma tão perfeita, tão perfeita um lance daqueles”, vinca Rui Dias, jornalista do “Record”.

No final do encontro, o guarda-redes do Barcelona confessava que aquilo tinha sido “uma coisa que nunca tinha visto, principalmente a maneira como a bola, a trajetória da bola... pareceu algo impossível”. "A República Checa foi à nossa baliza uma vez, conseguiu marcar um golo que nem sabe como. Nesta altura ainda não devem saber como é que conseguiram fazer aquilo", rematou no fim.

Rui Dias discorda. "Depois o resto foi a cabeça perdida até ao fim. Atacar muito, mas atacar mal, abrindo espaços que os checos podiam ter aproveitado para fazer o 2-0".

“Nós dependíamos muito do talento e o talento não surge todos os dias ao mesmo nível", explica Carlos Daniel que, em sintonia com o relato de António-Pedro Vasconcelos, traça um cenário de desilusão dos portugueses cabisbaixos e desiludidos em Birmingham.

E naquele dia não sobrava mais nada, o talento tinha ficado todo na chuteira do pé direito do checo que viria, anos mais tarde a envergar a camisola do Benfica.

"Vamos beber para esquecer"

"Lembro-me sim depois de termos ido jantar após a eliminação a um grupo de jornalistas, quatro ou cinco amigos que ainda hoje aí estão para recordar isto, e de dizer "vamos beber para esquecer" porque de facto, despida a capa do trabalho não deixamos de ser portugueses e de estar ali com aquele sonho de pela primeira vez vermos uma seleção portuguesa sénior a ganhar e aquela era uma geração que prometia poder fazer isso", confessa Carlos Daniel.

A República Checa chegaria mesmo à final onde caiu aos pés da poderosa Alemanha com um Golo de Ouro de Oliver Bierhoff que bisou na partida. Nós voltávamos para casa, dias antes, com o único chapéu que Poborský não nos podia tirar: o de Eusébio. A lenda do futebol português fez a delícia dos fotógrafos quando entrou num táxi, à chegada a Portugal, com um chapéu da polícia inglesa, tal e qual como fizeram três décadas antes quando regressou de Ingaterra, no seu Mundial.

Despimos o equipamento e pendurámo-lo no bengaleiro. Afinal de contas havia um Mundial dentro de dois anos, em França.

"Para primeira amostra do que podíamos fazer estava bem assim, em 98 já tínhamos de ir com outras ambições. Nem sequer lá chegámos”, lamenta Rui Dias.

Em 1997 o país mostra outra face. Estava a um ano de receber a Expo 98 e os ganchos ‘aterravam’ na zona que agora conhecemos por Parque das Nações. O desemprego caía para números inimagináveis nos dias de hoje e o país era feliz.

A nova seleção, a talentosa equipa das quinas que em Inglaterra tinha sido parada pela República Checa, também começava a merecer a atenção do povo, ainda apaixonadas pelas imagens dos ‘putos’ de Riade e Lisboa que no Reino Unido já eram homens. O talento sobressaía e agora com a Geração de Ouro mais crescida, mais madura, esperava-se que o Mundial de 1998 fosse o da afirmação. Mas não chegaríamos a atravessar a fronteira.

O que é facto é “que Portugal podia ter ganho à Alemanha (...)  Quer dizer, não há português nenhum que não saiba que o árbitro era o Batta"

Portugal começa essa apuramento com um empate “na Arménia e perde na Ucrânia, quer dizer, com dois resultados destes a abrir…”, relembra Rui Dias. Mas esses não são os jogos que ficaram na memória.

O que fica é aquele encontro com a Alemanha que nos sentenciou, que nos sentenciaram. Porquê? Porque o que é facto é “que Portugal podia ter ganho à Alemanha. E não vale a pena a gente estar aqui a arranjar argumentos porque esse é o episódio que vai marcar essa fase de qualificação que é a expulsão do Rui Costa em Berlim que eternizou... Quer dizer, não há português nenhum que não saiba que o árbitro era o Batta".

créditos: AFP

No ano em que o país está unido, em que a Expo98 é como uma celebração do país, o desporto-rei, o ópio do povo, como muitos lhe apelidam, dá dois soco sno estômago dos adeptos. Um do árbitro Marc Batta, e outro de Sá Pinto, este último num sentido mais literal.

O primeiro o do francês, durante o Alemanha - Portugal disputado a 6 de setembro de 1997. Portugal vencia por 1-0, graças ao golo de Pedro Barbosa quando Batta expulsa Rui Costa porque entende que este está a demorar tempo demais a abandonar o relvado no momento em que era substituído por Sérgio Conceição. O maestro viu o vermelho.

Reduzida a 10, a equipa das quinas viu Conceição só entrar aos 78 minutos para o lugar de João Vieira Pinto e aos 82 minutos o golo germânico do empate. Só um milagre nos poderia, a partir daí, levar a França, ao Mundial.

"Era a Alemanha que estava do outro lado, portanto... E a Alemanha tinha... Tinha, tem e terá um peso enorme não só no futebol, mas também noutras decisões que á Europa dizem respeito e ao mundo", desabafa Toni, antiga glória encarnada.

O povo, no ano em que José Saramago era laureado com o Prémio Nobel da Literatura, chamava nomes, sem pontuação, ao francês.

"É o momento mais negativo que eu tenho na minha vida futebolística"

"Eu nunca mais me vou esquecer desse momento e é o momento mais negativo que eu tenho na minha vida futebolística até porque é a única expulsão que eu tenho em termos profissionais. E ao fim destes anos todos continua a ser um único caso no futebol. E ao fim destes anos todos eu continuo a olhar para a cara do quarto árbitro, que está com a placa na mão, da substituição, e a cara desse quarto árbitro diz tudo o que se passou. Ele estava tão ou mais incrédulo do que eu, com uma cara que os olhos diziam, a cara dizia, "o que é que tu estás a fazer?", recorda o antigo médio criativo do Benfica.

Sérgio Conceição que, ao lado do quarto árbitro aguardava a saída do maestro, diz lembrar-se “perfeitamente” do momento. “Ele vinha a sair, normal, e o árbitro decidiu dar-lhe o segundo amarelo onde não havia justificação para isso. Não meteu o Rui Costa fora, meteu 11 milhões de portugueses fora".

"Todos chorámos com o Rui Costa quando ele foi expulso naquele jogo contra a Alemanha, queríamos muito que as coisas boas acontecessem a quem era bom. E acho que começámos a sentir que podíamos ser bons e não um caso isolado. Não éramos o país dos génios isolados, começámos a pensar que se calhar, enquanto nação, conseguimos fazer coisas fixes. Expos 98, caramba, isto era uma lixeira e agora estamos no futuro, apanhamos o metro e vamos ter ao futuro. Caramba, Portugal se calhar não somos os coitadinhos", relembra o músico Samuel Úria, com revolta.

créditos: Lusa

Era preciso vencer a Irlanda do Norte e esperar que a Ucrânia, em disputa por uma viagem a Paris, saísse derrotada do encontro contra a frágil Arménia, distante das disputas pelos lugares para a fase final.

Para o derradeiro jogo, Artur Jorge deixa Ricardo Sá Pinto de fora dos convocados. No dia do último treino antes da viagem para o Reino Unido, Sá Pinto dirige-se ao local onde está concentrada a seleção e responde a soco à não convocatória, agredindo fisicamente o selecionador nacional. O antigo jogador do Sporting CP acabou suspenso, Portugal venceu, mas não se qualificou e Paris, onde os dribles de Zidane destronaram as fintas do brasileiro Ronaldo, valeu o primeiro título do mundo aos gauleses.

Num país em efervescência económica, social e cultural, que se abria ao mundo, Marc Batta tinha nos fechado a porta na cara - pelo menos naquele jogo, mas aquele jogo poderia ter valido um apuramento. Ficou assim para memória futura uma história que não aconteceu, uma história nostálgica como são todas as que vivem do que poderia ter sido. Íamos de gancho para o novo milénio. Mas esse que sim, parecia - e parece - escrito para nós.


 “Chegámos Lá, Cambada” é um documentário produzido pela MadreMedia e que vai estar em exibição no SAPO24 entre 22 de maio e 14 de junho. Ao longo de oito episódios vamos contar a história de 30 anos da seleção, do pontapé de Carlos Manuel, em Estugarda, ao golo do Éder, em Paris, que nos deu a vitória no Euro 2016.

As suas memórias destes 30 anos fazem parte da história. Partilhe-as connosco através do email chegamoslacambada@sapo.pt e os melhores textos serão publicados neste dossier especial.

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