A minha primeira memória com José Mourinho não é particularmente feliz. Estávamos em dezembro do ano 2000 e aqueles 3-0 com que o (na altura “seu”) Benfica brindou o (desde sempre “meu”) Sporting deixaram-me bastante aborrecido. Afinal de contas, o Sporting era o campeão em título e no Benfica, que haveria de terminar o campeonato em 6.º lugar a 23(!) pontos do histórico Boavista campeão, foram titulares nesse jogo nomes como Dudic, Diogo Luís ou Chano. “Quem?”, perguntam, porventura, alguns amantes futeboleiros com menos memória. “Pois...”, respondo eu.

Depois disso, há ainda o episódio da camisola rasgada. Já depois de ser campeão nacional pela primeira vez, já depois de ter ganho a Taça UEFA (atual Liga Europa), em “vésperas” de ganhar a sua primeira Liga dos Campeões.

Mas já antes, Mourinho tinha começado a ser especial. “A única coisa que eu quero dizer é que nós somos os melhores. Em condições normais, somos muito melhores. E em condições normais, vamos ser campeões. Em condições anormais... também vamos ser campeões”, disse um dia, em conferência de imprensa. Como não admirar alguém que fala assim? Na altura, em 2003, pouco se ouvia falar de mind games. Mas o treinador setubalense já os conhecia a todos.

E a sua passagem pelo FC Porto é absolutamente incrível. Em dois anos e meio, Mourinho é campeão por duas vezes, vence uma Taça de Portugal e uma Supertaça, e consegue conquistar, em anos consecutivos, uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões, respetivamente.

Special One, Lo Speciale, El Especial

Depois da passagem pelo Porto, Mourinho embarca para Inglaterra e logo na primeira conferência de imprensa mostra que não está ali para ser mais um: “I’m a Special One”, disse na apresentação pelo Chelsea, clube onde foi campeão logo na primeira época, quebrando um jejum de 50 anos. Mourinho venceu a Premier League mais duas vezes pelo clube londrino (a terceira das quais na sua segunda passagem pelo clube, em 2015), mas faltou-lhe sempre o título mais apetecível: a Liga dos Campeões.

Foi em Itália que o agora “Lo Speciale” voltaria a alcançar a glória europeia. Campeão na sua primeira época ao serviço do Inter de Milão, é na segunda temporada que Mourinho entra na história, vencendo a sua segunda Liga dos Campeões, para além de campeonato e taça. O trabalho em Itália estava feito, seguia-se aquele que para muitos é considerado o trabalho mais difícil do mundo: treinar o Real Madrid.

Mourinho chega à liga espanhola para ser contemporâneo daquela que muitos consideram ser uma das melhores equipas da história do futebol (senão mesmo a melhor): o Barcelona de Pep Guardiola. Nos quatro anos em que o técnico catalão esteve à frente dos culés, o Barça ganhou três campeonatos, duas taças de Espanha, três Supertaças espanholas, duas Supertaças europeias, dois Campeonatos do Mundo de Clubes e duas ligas de campeões. No mínimo, impressionante. Era, portanto, uma tarefa hercúlea a de fazer um dos clubes mais titulados mas, ao mesmo tempo, mais problemáticos da história, triunfar no país de nuestros hermanos.

Mas Mourinho conseguiu-o, de certa maneira. "El Especial" (nova mudança de país e de idioma) conduz o Real Madrid ao seu último título de campeão (2011/2012, na sua segunda época no clube) e são dele também as vitória na taça de Espanha de 2011 e na Supertaça espanhola de 2012. Contudo, o período em Espanha foi talvez o de maior desgaste público para o treinador português. Em Madrid, conheceu-me o “mais bélico dos Mourinhos”, em constante guerra com imprensa e, claro está, o Barcelona.

Não foi, por isso, com surpresa, que no final da época de 2012-2013 José Mourinho deixasse Madrid para voltar a um dos lugares onde mais tinha sido feliz. Campeão no segundo ano desta sua segunda passagem por Londres, Mourinho acabou despedido no depois de sofrer nove derrotas nos primeiros dezasseis jogos dos Blues na época passada. Estava consumado o segundo divórcio.

O verdadeiro sucessor de Ferguson?

A forma como deixou o Chelsea na sua segunda passagem pelo clube fez muita gente catalogar Mourinho como “acabado”. Mas, como diria Mark Twain, parece-me que as notícias sobre a “morte” de Mourinho são manifestamente exageradas. Prova disso foi o facto de o Manchester United, a tentar recuperar da orfandade do mítico técnico escocês Alex Ferguson (que esteve ao leme do clube de Manchester durante 27 anos), ter escolhido o português para técnico da equipa, depois de épocas frustrantes com David Moyes e Louis van Gaal ao comando.

E se é verdade que o campeonato inglês está muito longe (o “seu” Chelsea, agora treinado pelo italiano Antonio Conte, está já a 14 pontos...), não é menos verdade que o Manchester United está a apenas 6 pontos do 2.º lugar (ocupado pelo muito irregular Arsenal) e a um passo da final da Taça da Liga (disputa hoje a 2.ª mão das meias-finais frente ao Hull City de Marco Silva, depois de ter vencido por 2-0 em casa, na 1.ª mão). Está também ainda em prova na Taça de Inglaterra (defronta o Wigan na 4.ª ronda) e na Liga Europa (os franceses do St-Étienne são o seu adversário nos 16-avos de final da prova), tendo já vencido a Supertaça inglesa no início da temporada, naquele que foi o seu primeiro título com os Red Devils.

Posto isto, e sendo objetivos ao máximo, não é descabido que José Mourinho possa ainda ganhar três títulos esta época. Depois de um início de época desconcertante, o Manchester United parece ter reencontrado o seu rumo e o treinador português garante estar apaixonado pelo clube.

Mas Mourinho não é “especial”, como referido no título do artigo, apenas pelos títulos que já ganhou e que pode ainda ganhar (a este respeito, e recentemente, o treinador foi considerado um dos dez melhores treinadores de sempre pela UEFA). Mourinho é o especial porque é “Mourinho”, sempre. E porque ser “Mourinho” já é uma maneira de ser, quer seja a relativizar a pressão que sente um treinador de futebol ou a atender o telefone de um jornalista numa conferência de imprensa.

Parabéns, Zé!

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