No século I a.c., mais precisamente no ano de 62, Pompeia, mulher do infame Júlio César, foi alvo de um profundo escrutínio devido ao facto de poder tido ou não relações com outro homem. A inocência de Pompeia foi confirmada, mas mesmo assim o seu cônjuge decidiu pôr fim à relação matrimonial, afirmando que “esposa minha não deve estar nem sob suspeita.”.

Esta frase desencadeou o nascimento de outra: “à mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Esta expressão sofreu constantes mutações ao longo dos anos, mas sempre assentou no mesmo ponto: uma coisa não basta sê-lo, tem de parece-lo.

Posto este preambulo histórico, apliquemos ao desporto e aos seus intervenientes esta ideia de que os valores, princípios e deveres não podem ficar só nas palavras, como também têm de ser demonstrados ao nível prático.

Nos últimos anos surgiram claros casos de falta desportivismo, ausência de fairplay e desrespeito crescente seja pelo adversário, adeptos ou próprios elementos equipa, no mundo do desporto.

Estas tendências estão associadas não só ao facto de tudo se ter tornado num negócio, assim como do excessivo mediatismo, de algum tipo de jornalismo mais preocupado com rumores e controvérsia do que com a análise e debate. Ou seja, assistimos à descaracterização do que é a cultura desportiva.

Em modalidades onde estes valores eram e são, supostamente, “lei”, como no râguebi, já surgiram alguns casos minimamente preocupantes que lançaram as primeiras “sementes” do distanciamento entre adeptos e intervenientes.

Um exemplo claro aconteceu quando Lukhan Tui, internacional australiano, decidiu ir à bancada ver a família após o fim do jogo - derrota com a Argentina em casa - acabando por ser atacado verbalmente e fisicamente por um adepto.

O atleta recusou-se a apresentar queixas contra o agressor, optando pelo silêncio, sendo que abandonou também a seleção até ao final do ano. Para piorar a situação, o padrasto de Tui tinha falecido um dia antes do jogo, o que tornou toda a experiência ainda mais pesada.

A nível institucional, a Federação Australiana de Rugby (ARU) invocou uma suspensão desta mescla de adeptos e jogadores após o término de jogos, quebrando uma tradição quase “milenar” e que dava um sentido diferente, harmonioso e de comunhão da modalidade.

Consequências do profissionalismo na modalidade, que só começou no final dos anos 1990, ou do crescente intensificar do número de jogos, competição e da necessidade de resultados por parte dos fãs?

A exigência de chegar ao topo ou de garantir a “vitória” quebram com os valores e princípios do râguebi?

A pressão, o acumular das horas de treino, jogo e pós-jogo desencadeiam situações extremas?

E chegamos então ao centro nevrálgico deste artigo: terá o râguebi português sofrido exatamente destes problemas? Terão sido os valores substituídos pela necessidade de ser o melhor? E há forma de demonstrar que os princípios e valores ainda são a parte mais importante da modalidade?

Caso prático de como os valores foram postos de lado: em maio de 2018, na meia-final entre AEIS Agronomia e GD Direito, jogadores lançaram-se num frenesim de agressões que escalou a um dos topos do recinto de jogo, onde estavam alguns adeptos.

Passado algumas semanas a Federação Portuguesa de Râguebi decidiu relegar os clubes, para depois ver essa decisão revogada pelo Conselho de Justiça, sendo que os emblemas ficaram com os campos interditos e uma multa para pagar de alguns milhares de euros.

Contudo, nem “agrónomos” ou “advogados” tiveram a coragem de penalizar os adeptos que decidiram recorrer à violência, escondendo até esse claro delito de tudo e todos. Felizmente, nas horas e semanas que se seguiram houve um empenho de relacionamento positivo e comunhão por parte dos outros adeptos, que não se reviam naqueles atos.

Curiosamente, esta situação de falta de desportivismo e de desrespeito nessa meia-final gerou uma situação consciente de desportivismo: Agronomia e Direito cederam mutuamente os seus campos um ao outro, para que pudessem jogar râguebi sem custos de aluguer durante os 8 jogos de suspensão.

Para os mais adultos esta troca mútua de campos pode passar como desprovida de um sentimento real de desportivismo, falseando-se o cumprimento do castigo. Todavia, para os mais pequenos, que não compreendem os conceitos de desonestidade, desconfiança e falsidade, este intercâmbio dos recintos de jogo pode ser interpretado como um sinal de amizade e de companheirismo, mesmo sendo os clubes “rivais” desde sempre.

Uma situação extremamente negativa e depreciativa para a modalidade acabou por gerar uma ligação curiosa entre clubes e pessoas. Ironicamente, a imprensa nacional não fez questão de passar esta situação positiva em direto, não cobrindo da mesma forma aquando dos desacatos em maio.

Mas existem mais situações práticas de que os valores da modalidade estão a ser velados. Em outubro deste ano, o GDS Cascais tem uma ação excecional, depois de uma vitória com tons de espetacularidade num jogo fora de casa ante o CR São Miguel: os atletas designados como os melhores em campo, e o capitão, ficaram a limpar o balneário. Não foi castigo, não foi por obrigação, foi sim por iniciativa própria.

A moldagem dos jogadores do amanhã passa sem dúvida pelo primar pelo exemplo, por ter atenção às pequenas “coisas”, de trabalhar todos os detalhes e pormenores, seja um passe de trinta metros ou de apanhar as fitas de ligamentos de fisioterapia do chão e colocá-los no lixo.

No Grupo Dramático de Cascais - a equipa sénior é treinada pelo Professor Tomaz Morais, o selecionador nacional que ajudou a levar os Lobos ao Mundial em 2007 - este comportamento foi introduzido pelo treinador adjunto do escalão de sub-16, Nuno Meira e tem vindo a ser uma constante nos últimos tempos.

Os All Blacks, mítica sele ção da Nova Zelândia, têm sido os grandes embaixadores desta ação de limpar o balneário (Sweeping the sheds) e os melhores do mundo como Dan Carter, Richie McCaw, Conrad Smith, Jerome Kaino, Dane Coles, Beauden Barrett, entre outros, participaram neste ritual de honrar o espaço onde se equipam e comungam antes de entrar para o jogo.

É este comportamento irrepreensível de demonstração de valores que fazem qualquer indivíduo comum sentir-se incomodado, procurando no seu âmago fazer melhor e ter outra ação no dia-a-dia.

E o râguebi português durante largos anos teve este comportamento de fair play, de positivismo no desporto, de respeitar os adversários, de saber partilhar e comunicar, de dar uma imagem tão forte que “forçou” pais e mães a deixarem os seus protegidos brincarem e entreterem-se com o Mundo da bola oval.

O caso da meia-final de 2018 não foi o primeiro de sempre em Portugal, longe disso, tendo acontecido em outras raras situações. Por vezes, há uma falange de jogadores, treinadores, dirigentes e adeptos que não conseguem “vestir” bem o espírito competitivo, entrando numa falência emocional crítica para o râguebi e desporto em geral.

Olhando para outros casos de demonstração total dos valores, é ver o trabalho exímio do projeto Râguebi com Partilha, por exemplo.

Projeto iniciado por um grupo de antigos atletas, visa envolver reclusos das várias instituições prisionais portuguesas no râguebi, levando a modalidade para dentro desses locais, tocando-os com os seus valores, sacrifícios e métodos.

O projeto tem sido um sucesso de forma tal que mais instituições prisionais querem esta envolvência, desenvolvendo-se uma ação positiva para com pessoas que cumprem penas de prisão.

Por vezes, o público em geral confunde reclusos com seres ostracizados pela sociedade não merecedores de qualquer espécie de vínculo emocional e social com o mundo que fica lá fora.

O Râguebi com Partilha dá assim a outra face, com um desejo de envolvimento com quem está na prisão, preparando-os para reintegração na sociedade quer seja amanhã ou depois. Nem todos são passíveis da tal reintegração, mas não é por isso que a sociedade deve colocar de parte os outros todos.

créditos: Luís Cabelo

Existem tantas outras atividades e ações do verdadeiro espírito do râguebi, como o trabalho do Projecto Escolhas no Bairro do Cerco no Porto, a construção de uma unidade de râguebi pela Escola de Râguebi da Galiza, que tem motivado cada vez mais atletas de bairros mais carenciados a participar na modalidade; do espírito do Ubuntu pela equipa com o mesmo nome.

Definitivamente existem mais casos práticos dos valores do râguebi no desporto português que devem servir de tábua de crescimento para o futuro da modalidade, sustentada não só pelos resultados a nível sénior, mas por toda a ação fora das quatro linhas, de influência positiva no caractér e desenvolvimento humano dos seus intervenientes.

É com base nisto que o futuro do râguebi em Portugal tem de caminhar para outra época de ouro, desta vez com foco num projecto a longo prazo, não só de conquistas, aumento de número de atletas, criação de mais clubes, mas sobretudo de capacidade de diferenciação como uma modalidade especial que procura a redenção em todos os capítulos.

Para fechar a discussão da colocação em prática dos valores râguebi, a comunidade da oval lusa abraçou um projeto de apoio ao râguebi em Moçambique. 500 crianças, que estão a aprender a jogar a modalidade em Maputo, vivem uma crise de fome e a APOIAR lançou o projecto “Alimentar Campeões”. Do Algarve a Arcos de Valdevez, do campeão CF “Os Belenenses” râguebi até ao Ubuntu Rugby, todos estão a trabalhar para garantir um futuro risonho à comunidade moçambicana de râguebi.

Podem saber mais em www.apoiar.org

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