A sala é estreita e escura. Um foco de luz incide sobre uma bicicleta envolta por uma estrutura transparente de vidro. De cor verde, pneus finos, está suspensa no ar. Pelo design, configuração do assento, volante e mudanças, nota-se que por ela muitos anos passaram, mas não lhe pesam. Data de 1984 e está quase imaculada. Ainda transporta o bidão da água e lê-se as letras “Sporting”, o clube, e “Raposeira”, o patrocinador.

Uma frase de Alexandre O’Neill sobressai igualmente da escuridão: “O homem que pedala, que ped’alma com o passado a tiracolo, o ar vivaz abre as narinas: tem o por vir na pedaleira”.

Parece um Mausoléu, mas não estamos a falar de nenhum faraó. Falamos, sim, da bicicleta de Joaquim Agostinho. A “tal” em cima da qual o ciclista sofreu, a 30 de abril de 1984, uma queda na Volta ao Algarve — e que levou à sua morte dez dias depois, a 10 de maio, devido a um traumatismo craniano.

Vencedor de três Voltas a Portugal, venceu também cinco etapas do Tour de France, entre as quais a de Alpe d'Huez, a 15 de julho de 1979, onde uma estátua sua permanece, e foi ainda duas vezes 3.º classificado na mítica prova francesa.

O nome do melhor ciclista português de todos os tempos ficará agora eternizado no Museu do Ciclismo Joaquim Agostinho, espaço inaugurado com pompa e circunstância durante a 1. ª etapa da Volta a Portugal Santander.

Localizado em Torres Vedras, no Bairro Arenes, foi erigido no antigo refeitório da Casa Hipólito, empresa centenária metalomecânica que viria a produzir (1990 a 1997) a bicicleta dobrável STRiDA, projetada por Mark Sanders, engenheiro e designer britânico, pouco tempo antes de ser declarada insolvente em finais do século passado. 

"Joaquim Agostinho está vivo entre os torrienses e não só"

 “Joaquim Agostinho está vivo entre os torrienses e não só”, avisou, à entrada do Museu, Jorge Ferreira, treinador e responsável pela Academia Joaquim Agostinho, escola de ciclismo que ostenta o nome de uma das mais ilustres figuras do ciclismo português. “A bicicleta está no sangue das gentes do Oeste e neste eixo do Oeste, Cartaxo e Alpiarça”, continuou, referindo-se ao local de nascimento de Joaquim Agostinho, na zona Oeste.

Agostinho vestido de verde e branco dá as boas-vindas a quem quer embarcar na viagem pelo conhecimento. A evolução da roda no ciclismo acompanha a escadaria até ao 1.º piso e convoca os visitantes a entrarem sem freio nas duas exposições que se entrelaçam de forma labiríntica.

Começamos com a exposição temporária, “Um Outro Lado da Bicicleta” onde ficamos a saber os usos da bicicleta, deste as suas funções em algumas profissões até à utilização para fins militares e à ligação aos movimentos de emancipação feminina.

A memória do ciclista nascido a 7 de abril de 1943, em Brejenjas, freguesia de Silveira, concelho de Torres Vedras, fica agora preservada, para sempre, no espaço museológico. Tem espaço reservado na Exposição Permanente "53:11 Esforço e Glória. Joaquim Agostinho e uma Volta à História em Bicicleta".

Entre camisolas das equipas que representou (Gribaldy), a malha amarela, o cartão de sócio n.º 24.100 do Sporting Clube de Portugal e a caderneta militar compõe o espólio agora reunido num só local.

Numa exposição interativa e tecnológica, há ainda filmes e muita informação à distância de um simples toque num ecrã.

créditos: © Miguel Morgado | MadreMedia

Da rivalidade de Sporting e Benfica na “Volta” a João Almeida e Maria Martins

“Recordo o ano de 1951. A Volta a Portugal, na passagem por Castelo Branco, na qual sairia vencedor Alves Barbosa [primeiro corredor a vencer por três vezes a Volta a Portugal em bicicleta, 1951, 1956 e 1958], e [Hugo] Koblet no Tour de France”, relembrou Marçal Grilo, administrador da Gulbenkian. O consultor da exposição e verdadeira enciclopédia velocipédica encetou uma curta troca de palavras com o SAPO24, enquanto caminhava pelos corredores do espaço museológico, minutos antes da partida do pelotão para a 82.ª edição da mais importante prova nacional.

Quem caminha nas salas do Museu, entre o acervo material e imaterial, viaja pelas diversas etapas do ciclismo nacional, acompanha a evolução da Volta a Portugal e depara-se com os traçados e heróis ao longo dos tempos.

A rivalidade de José Maria Nicolau e Alfredo Trindade merece particular destaque, uma rivalidade a partir da qual nasce outra e que ajudou a fomentar a raiz nacional de dois clubes de Lisboa: Benfica e Sporting.

Os vencedores surgem um a um. De António Carvalho a José Roque e Marco Chagas.

Na galeria da eternidade surgem os nomes Lance Armstrong (EUA), Miguel Indurain (Espanha), no Tour, e Marco Pantani (Itália), no Giro. Na Volta à Itália, o português João Almeida é um dos indefetíveis. No percurso de novos nomes do ciclismo não é esquecida Maria Martins, 7.ª no omnium e diploma olímpico na estreia nos Jogos Olímpicos Tóquio2020.

Por fim, e quase no fim, a palavra Doping em letras garrafais merece igualmente um capítulo neste trajeto desenhado por Henrique Cayatte, onde não está esquecida a mensagem de luta contra a dopagem, uma questão que tem ensombrado este desporto.

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