"Não é bem um desporto, eu chamo-lhe mais uma atividade". É assim que Miguel Judas começa por definir trekking, a tendência que originou a publicação do seu livro Os 200 melhores percursos de trekking de Portugal, pela editora Saída de Emergência.

Esta atividade, que consiste em caminhadas por trilhos, normalmente de montanha, "é uma boa maneira de fazer exercício e de manter a forma sem grande intensidade. A grande razão da popularidade das caminhadas é exatamente isso", afirma o jornalista, de 44 anos, ao SAPO 24.

"É bom para começar a fazer qualquer atividade física, porque tem essa baixa intensidade que nos permite fazer algum exercício sem nos apercebermos. Claro que se fizermos 20 quilómetros seguidos percebemos, no dia a seguir, que fizemos exercício físico. Mas não é aquela coisa de 'vamos correr, vamos ao ginásio, vamos começar a praticar um desporto'. É mais suave".

Pedro Marques | MadreMedia

Dedicando-se a artigos sobre viagens, em colaborações com a Visão, Evasões ou o Diário de Notícias, Miguel conta que sempre andou muito a pé, mesmo sem ser pelo meio da natureza."Como faço jornalismo de viagem, raramente ando de transportes quando chego a um sítio, o que às vezes é chato para o fotógrafo que anda comigo, porque tem de ir atrás com tudo. Às vezes chego ao fim do dia mesmo muito cansado, mas é uma forma de nos cruzarmos com muitas histórias e muitas situações", refere.

Mas o que é preciso para começar a praticar trekking? A resposta é bastante simples. "No fundo, basta ter vontade. Eu costumo dizer que isto é só pôr um pé a seguir ao outro. Mas claro que quando nunca se fez nenhuma atividade física é preciso começar devagarinho. Caminhadas curtas, distâncias curtas. Mas acho que em termos de preparação é mais, digamos, mental. É preciso ter vontade de começar".

Em termos de equipamento, para caminhadas curtas, basta apenas "roupa e calçado confortável, talvez um chapéu para um dia de sol e comida e bebida". Mas há quem se atreva a caminhadas mais longas. Nesses casos, há que ponderar onde dormir e levar tudo o que é necessário.

O guia "não é de todo para pessoas que já estão muito batidas nas caminhadas ou nos trails, porque esses têm os relógios GPS, tiram os trilhos na Internet e tudo isso. A ideia é ter-se o guia no carro, ir passar um fim de semana a qualquer sítio e pensar 'deixa ver o quê que há aqui na zona, sem ter de ir à Internet'", ressalta.

Andar é, então, "uma forma de conhecer o país, com tempo. É uma maneira de ir a sítios a que de outra forma não se iria".

Pedro Marques | MadreMedia

No caso deste livro, todos os percursos apresentados estão marcados. Miguel já passou por quase todos, mas nem sempre em caminhadas. "Faço trail running [corrida] e algumas das provas passam por muitos destes percursos. Às vezes utilizo-os também para treinar", refere.

Escolher 200 percursos foi complicado "porque poderiam ser mais". Existe, cada vez mais, "um mercado das caminhadas". Não só das empresas que as organizam como "ao nível de turismo rural, dos restaurantes, as próprias autarquias e entidades locais que cada vez abrem mais percursos pedestres para chamar pessoas e tudo isso", explica Miguel.

No livro, o país é dividido em zonas: Norte, Centro, Lisboa e Setúbal, Alentejo, Algarve e Ilhas. Miguel Judas deixou sete sugestões ao SAPO 24 e partilhou algumas histórias.

Norte

Ponte da Barca: Trilho da Serra Amarela 

"Escolhi este percurso pela dificuldade. É um percurso muito difícil, é um verdadeiro desafio. São 35 quilómetros e é um desafio físico bastante exigente. As paisagens valem por tudo. É mesmo aquele tipo de situação em que tudo o que se vê e tudo o que se ouve durante o percurso compensa o esforço e o sacrifício físico que é fazê-lo na totalidade. A escala da paisagem é uma coisa que nos faz sentir muito pequeninos com toda aquela beleza à volta".

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Centro 

Lousã: Caminho de Xisto da Lousã - Rota das Aldeias

"É um percurso curto, são 6 quilómetros que atravessam parte da Serra da Lousã: começa no Castelo da Lousã, cá em baixo, e depois sobe e passa por uma série de aldeias. É um percurso circular. Fiz esse percurso já há muitos anos, quando a minha filha era pequenina. Tinha sete ou oito anos e achei que ela não ia conseguir. Mas fomos andando e ela conseguiu ir até ao fim. Foi uma recordação que ficou. Na altura achei piada porque começámos a fazer o percurso só para andar um bocadinho e ela quis ir até ao fim. Hoje se calhar já não ia, já não sei se quereria fazer até ao fim, mas na altura era ela que queria fazer sempre mais um bocadinho".

Lisboa e Setúbal 

Lisboa: Rota da Biodiversidade

"Aqui em Lisboa há um percurso engraçado. Começa em Belém e vem até Monsanto. É interessante porque acaba por ser o exemplo de como também se encontra a natureza na cidade. O percurso também tem o objetivo de revelar este lado escondido de uma grande cidade, que passa muito despercebido". É um percurso de 14 quilómetros, com vários pontos de interesse.

Alentejo

Odemira: Rota Vicentina 

"Foi considerado um dos percursos mais bonitos do mundo, recentemente. Quem sou eu para contrariar isso? É uma grande rota, são mais de 300 quilómetros que não se fazem de uma vez - ou dá, dependendo da vontade de cada um em tirar férias e fazer -, mas é muito bonita. Tem a originalidade de ser feita junto ao mar, passa por praias muito bonitas". Para os menos afoitos, há a possibilidade de fazer percursos mais curtos, incluídos na Rota Vicentina: Dunas do Almograve, com 8 quilómetros, ou as Rotas de Santa Clara, com 23 quilómetros.

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Algarve

Alcoutim: Via Algarviana 

"Atravessa o Algarve todo pelo interior e mostra um outro Algarve que não está normalmente visível e que as pessoas muitas vezes não conhecem porque vão mais para a praia, para o litoral". Ao longo de 300 quilómetros, segmentados em troços de 30 que acabam sempre em localidades povoadas, recorda-se o caminho que, segundo a lenda, era percorrido pelos peregrinos na Idade Média, em direção a Sagres, local onde foram encontradas as relíquias de S. Vicente, padroeiro de Lisboa.

Madeira

Funchal: Vereda do Areeiro

"É a típica rota de montanha numa ilha que é mais conhecida pelo lado turístico de massas, mas a Madeira tem muitas potencialidades a nível de turismo de natureza que não são assim tão conhecidas". Este percurso, com 7 quilómetros, liga os três pontos mais elevados da ilha e possibilita uma vista de 360º sobre a Madeira.

Açores

Horta: Grande Rota - Faial Costa a Costa - 800 mil anos de História

"São 36 quilómetros que cruzam o Faial de ponta a ponta, com uma grande variedade de paisagem. É uma ilha que conheço muito bem, tenho lá muitos amigos e vou lá muitas vezes. Numa prova que fiz o ano passado, o dia começou fantástico, mesmo de primavera, e depois caiu uma tempestade e passámos uns 20 quilómetros a correr enterrados em lama até aos joelhos, com muita gente a desistir e uma série de aventuras". Cones vulcânicos, furnas e crateras fazem parte da vista e permitem uma história geológica da ilha.

Pedro Marques | MadreMedia

Para o futuro, Miguel já tem mais percursos em mente. "Nunca fiz os Caminhos de Santiago completos, só fiz parte. Já fui desafiado algumas vezes, é um projeto a ter em conta. Mas também gostaria de fazer a Via Algarviana na sua totalidade, coisa que nunca fiz. Há a hipótese de a fazer em breve, a correr, em dezembro. Apesar de estar habituado a fazer grandes distâncias, 300 quilómetros são um bom desafio", remata. Contudo, a certeza é só uma: "o mais importante não é a partida nem a chegada. O que interessa é o caminho".

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