Gary Lineker, ex-jogador e agora comentador, doou dois meses de salário à Cruz Vermelha Britânica e é uma das vozes mais sonantes no que toca a criticar alguns clubes ingleses, incluindo o seu ex-clube, Tottenham Hotspur. Os Spurs anunciaram esta semana que não iriam cortar nos salários dos seus jogadores, mas que 550 dos seus trabalhadores teriam um corte de 20%, para já, na sua remuneração.

Fazendo contas por alto, e tendo em conta que o total auferido pelos jogadores do Tottenham é de aproximadamente 75 milhões de libras por ano (mais de 85 milhões de euros), e o salário médio em Inglaterra é de aproximadamente 30 mil libras (cerca de 34 mil euros), chegamos à conclusão de que um corte de apenas 22% no salário dos jogadores cobre um ano de salário dos 550 trabalhadores sujeitos a este corte. Estamos a falar de um ano de salário e não dos dois ou três meses em que esta situação, se espera, durará.

Três meses de salário destes 550 trabalhadores poderá custar ao clube qualquer coisa como aproximadamente 4 milhões de libras, uma vez mais, apenas 22% do salário mensal dos vinte e poucos jogadores no plantel, cobririam as despesas de 550 pessoas e assegurariam a potencial estabilidade destes e das suas famílias.

Esta é uma situação que tem que ser obrigatoriamente apontada ao clube e não aos atletas. Jogadores por todo o mundo estão a tomar a iniciativa de cortar no seu próprio salário. De forma completamente voluntária. O mesmo, com toda a certeza, irá acontecer em Inglaterra, mas para isso será preciso que os jogadores avancem com essa decisão. Até ver, a Federação Inglesa apenas aconselhou os jogadores a falarem com o seu sindicato, antes de aceitarem qualquer corte salarial.

A classe política tem vindo a público diariamente criticar o mundo do futebol, dizendo mesmo que estes vivem num vácuo moral. Da mesma forma que Inglaterra está algumas semanas atrás nos efeitos da pandemia, espera-se que também aqui o caso seja o mesmo e que muito em breve se siga em Inglaterra os exemplos de Espanha e Itália, onde cortes salariais significativos nos planteis têm servido para garantir os salários dos restantes trabalhadores nesses mesmos clubes.

Antes de anunciar quais os clubes ingleses ainda cumprir com as suas obrigações salariais, importa também dizer que todos os clubes, sem excepção, têm feito algo e têm apoiado a comunidade em que estão inseridos. Seja com doações ou com disponibilização de infra-estruturas. Alguns clubes decidiram tomar decisões que não parecem ser as mais sensatas, como veremos abaixo, mas a esmagadora maioria manteve todas as situações regularizadas.

No pequeno grupo de clubes que decidiu não esperar por um consenso, estão o Bournemouth, o Newcastle e o Norwich.

No Bournemouth, Eddie Howe tornou-se o primeiro treinador a tomar a decisão voluntária de cortar no seu próprio salário, sendo seguido pelo seu assistente, pelo diretor executivo do clube e pelo diretor técnico . Já o ‘Chairman’ do clube, assim como outra personalidade dentro da estrutura, continuam a receber o salário por inteiro. Em relação aos restantes trabalhadores, 50 pessoas viram já o seu salário ser cortado, de forma não voluntária, em situações muito específicas, sendo que o objectivo do clube é manter o restante pessoal com pagamento por inteiro.

O Newcastle United, por seu turno, foi o primeiro clube a informar os seus funcionários de que deveriam recorrer ao fundo de financiamento do governo, onde poderão reclamar 80% do seu salário até 2.500 libras/mensais (cerca de 2.850 euros). A esmagadora maioria dos trabalhadores foi dispensada provisoriamente, sem direito a salário e a ter que recorrer ao fundo governamental mencionado acima. Todo o staff e jogadores da primeira equipa continua a receber na totalidade.

Já o Norwich também seguiu o exemplo do Newcastle e cortou nos salários de todos os que não têm possibilidades de trabalhar no momento, uma vez que não existem jogos. Os jogadores, apesar de receberem o seu salário na totalidade, têm doado parte do seu vencimento para cobrir, precisamente, o salário dos restantes trabalhadores do clube.

De referir que esta é uma situação nova para todos os clubes e que hoje, dia 3 de abril, existirá uma reunião de emergência entre a Premier League e as equipas para discutir a situação atual, sendo um dos pontos na agenda é as conversações com a Federação Inglesa e o sindicato dos jogadores, precisamente sobre cortes salariais. Todos os clubes que, até ver, mantiveram os salários em ordem, tiveram o bom senso de, pelo menos, esperar até à reunião de hoje. A partir da mesma, logo se verá o que acontece e que rumo tomarão.

A Premier League irá ou não terminar a época?

Depois da hipótese explorada aqui há duas semanas, têm surgido diversas outras possibilidades, com maior ou menor viabilidade. Uma delas foi proposta por Wayne Rooney, que sugeriu começar as próximas duas épocas no inverno, até no seguimento do facto Campeonato do Mundo de Futebol de 2022 no Qatar estar marcado precisamente para o inverno. Segundo o avançado inglês, ter-se-ia mais tempo para finalizar a presente temporada, e jogar-se-iam as duas próximas épocas no calendário civil de 2021 e 2022, acertando-se o calendário agosto-maio na época 2023-34. Um plano a longo prazo, com um potencial grande, mas que não parece ter angariado apoiantes suficientes.

Ultimamente, as hipóteses a serem consideradas com mais atenção, parecem ser duas:

1. Torneio ‘tipo’ Campeonato do Mundo

Uma das hipóteses mais prováveis de vir a ser colocada em prática, parece ser a realização de uma aldeia do futebol, onde os jogos seriam disputados com grande regularidade durante o verão. Todos os jogos à porta fechada, a jogar-se de três em três dias, onde as equipas disputariam os 92 que ainda faltam realizar para o término da liga, permanecendo em locais estratégicos no país, em ‘isolamento futebolístico’.

2. Porque não na China?

Esta ideia veio hoje a lume. A notícia de que um clube, dos 20 que compõe a Premier League, colocou em cima da mesa a possibilidade de terminar a restante temporada, presumivelmente nos moldes da ideia anterior, mas na China. Sim, na China.

Esta é uma medida que faz sentir algum desespero por parte de quem a sugeriu e resume bem a instabilidade que toda esta situação está a colocar na liga, nos clubes e em todas as decisões que rodeiam a Premier League. Afinal porque é que a Premier League insiste em terminar a liga a qualquer custo, nem que seja na China?

Essa é a única resposta fácil no meio desta situação. A razão é, obviamente, financeira. Já existe um plano em marcha para os grupos de transmissão televisiva receberem 750 milhões de libras de volta, caso os jogos e a transmissão dos mesmos não ocorram. Um valor essencial para o funcionamento e estabilidade da Premier League e um montante decisivo para o plano de investimento da liga no pós crise.

Ainda que o fator financeiro seja o que mais pesará no meio de todas estas decisões, qual será a melhor forma de encarar o desporto neste momento? Qualquer que seja a solução - para realizar os jogos que faltam - ainda é uma incógnita. Não sabemos como e em quanto tempo a situação irá progredir em Inglaterra. Mas mesmo que se avance com uma das soluções acima referidas, correr-se-á sempre o risco de haver um caso entre os jogadores e de uma propagação do vírus entre equipas.

Cada vez mais, o fim mais esperado para toda esta situação é a perda financeira de níveis extraordinários, e o término prematuro da liga. Não ajudará a quem poderá sofrer financeiramente, mas parece ser, a esta altura, a decisão mais viável e com menos volte-faces possíveis.

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