O Porto – Feirense deste domingo já havia começado, mas os portistas que se encontravam no metro rumo ao Estádio do Dragão não se importavam de não estar a ver o jogo. Afinal, o Futebol Clube do Porto já é campeão e o momento permite um maior alívio. Mesmo assim, não deixam de ter o telemóvel na mão para ir dando uma olhadela no resultado. O jogo pode já não contar para o desfecho do campeonato, mas isso não é razão para deixar de acompanhar o clube.

Cada vez mais próximo do seu destino, o metro enche-se com adeptos “azuis e brancos”, que quando entram fazem a sua presença notar-se com um entoar de “Ó, Marega, ó Marega!” e, pela primeira vez em cinco anos, “Campeões! Nós somos campeões!”. Aos 37 minutos de jogo, Sérgio Oliveira inaugura o marcador, e a reação é instantânea. Alguns cachecóis no ar e cânticos entoados. Há quem utilize o seu smartphone para permitir que todos consigam ver o remate do médio português.

“Era fundamental que tornássemos a ser campeões e furar um bocado esta hegemonia do Benfica”

Terminada a viagem, começa a debandada para cima, para a Alameda do Dragão, que é onde se concentram os portistas desejosos de ver os jogadores. Ricardo Granja, visivelmente contente, acelera o passo para se poder juntar à festa. Afirma que isto é maioritariamente culpa de uma pessoa: “Sérgio Conceição. Acho que conseguiu trazer a mística que faltava ao Porto nestes últimos anos”. Todo o ambiente de euforia que se vive na nação portista é algo que Ricardo considera que era merecido “há muitos anos”. “Era fundamental que tornássemos a ser campeões e furar um bocado esta hegemonia do Benfica”, diz.

Já está escuro e a Alameda encontra-se repleta de gente. Uns aproveitam para pedir comida nas roulottes, outros sentam-se no chão. Mas há quem esteja mais concentrado naquela fotografia, como é o caso de Aurora Duque, de 37 anos, que não deixa de esboçar um sorriso de orelha a orelha quando pedimos que nos diga o que lhe vai na cabeça, e no coração: “É uma emoção muito forte. O coração sai pela boca!”. Diz que Marega foi o jogador que mais se destacou, e como forma de apreço entoa o já indispensável cântico, um dos mais ouvidos da noite: “Ó Marega! Ó Marega! Ó Marega! Vai chutar e vai marcar!”. Aurora não está sozinha, outros tantos se lhe juntam.

créditos: Diogo Magalhães

O jogo encontra-se no intervalo e as pessoas que estão na Bancada Norte viram-se para trás, para conviver com quem está fora. É um prolongamento do estádio. Não se encontram quase espaços vazios. “É único”, afirma Pedro Fonseca ao apontar para o mar azul e branco de gente que o envolve. “Ver esta malta toda aqui é muito bom”. Ao contrário da maioria, o jovem de 19 anos afirma que o principal impulsionador da conquista do título não foi nem o treinador nem os jogadores. “Os adeptos. A força que meteram na equipa foi maior do que qualquer coisa”, remata.

Nuno Moutinho, de 17 anos, diz que aquilo que está a sentir é “a melhor sensação do mundo”. Não deixa escapar a oportunidade de mandar uma “bicada” ao Benfica: “Eles estavam a acreditar que iam ser penta campeões, mas isso nunca na vida vai acontecer porque esse título é única e exclusivamente do Futebol Clube do Porto”.

“Estamos todos sem palavras aqui, estamos a dar tudo pelo clube, para ver os jogadores também.”

Igor Cardoso, amigo de Nuno, três anos mais novo, diz que é “impossível” descrever o que sente. “Estamos todos sem palavras aqui, estamos a dar tudo pelo clube, para ver os jogadores também. Estamos mesmo contentes”, rejubila. Nem todos da família de Igor defendem as cores azul e branco, mas isso não importa: “O meu pai é benfiquista e vê-lo chateado é uma boa sensação também”.

No meio do delírio que se verifica perto das grades do estádio, Diogo Costa afirma não ligar “muito a futebol”. “Mas gosto sempre de ver o Porto”, diz. Mesmo que o desporto rei não seja a praia do jovem de 19 anos, Diogo está feliz, mas os motivos vão além futebol: “Fico contente com esta energia na cidade do Porto, mesmo que não ligue muito ao futebol, gosto de ver isto assim, gosto de ver o Porto assim”.

Dentro e fora do estádio ouvem-se muitos aplausos, depois de, à marca da hora de jogo, Brahimi ter feito o segundo da partida. É mais um pretexto para abanar os cachecóis no ar, e saltar e dançar. Avistam-se tochas e são ouvidos petardos com intervalos de poucos minutos. Quem não precisa de euforias para expressar a sua alegria, porque as lágrimas dizem tudo, é Sérgio Ribeiro, com 79 anos. “Já vi muitas vezes o Porto ser campeão. Vamos ver se vamos continuar”. Elege como o momento mais marcante da época o golo de Herrera ao Benfica: “Se não tivesse acontecido, se calhar não estávamos aqui”. Ao lado de Sérgio está a sua mulher Ilia. “Sofri muito! Durante o ano todo, sofri muito com o Porto!”, afirma. O casal viu Sérgio Conceição sagrar-se campeão no Porto como jogador, agora vê-o a fazer o mesmo na condição de treinador principal.

“Sofri muito! Durante o ano todo, sofri muito com o Porto!”

Paulo Silva está alheio à euforia do 28.º campeonato conquistado pelo Porto não permitir que o Benfica alcançasse o tão desejado penta. “O que me preocupa a mim é o meu clube, é o Porto. É óbvio que depois de 4 anos a não ser campeão, este ano em que eles estavam muito convencidos que iam fazer o penta, sabe melhor. Mas o que me preocupa mesmo é o meu clube ser campeão”, sentencia. Considera também que não existem individualidades a destacar, porque o Porto “é sempre um colectivo”. Além de ver o seu clube campeão, Paulo tem outro motivo para sorrir: “Foi a primeira vez que o meu miúdo viu o Porto campeão”. O miúdo a que se refere é Miguel, de 6 anos, que aponta Otávio como o seu jogador favorito. A razão? “Porque é bonito”. Pai e mãe não conseguem conter o riso com a resposta do filho.

Depois de José Valencia reduzir para o Feirense já no último minuto, o jogo termina, e para enorme agrado dos adeptos que aguardam pelos jogadores nas imediações do estádio, o ecrã gigante da Bancada Norte, ao lado da porta 24, dá uma volta de 180 graus para permitir a quem está fora de ver a equipa a fazer a festa e levantar o troféu. Pedro Proença, presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, é vaiado. Marega, melhor marcador da equipa, e Herrera, capitão e autor do golo aos 90 minutos contra o Benfica, são os jogadores mais aplaudidos. Mas não há dúvida de que Sérgio Conceição, com a maior ovação da noite, é rei e senhor desta equipa.

créditos: Diogo Magalhães

Enquanto espera que os jogadores subam ao palco montado por cima da bilheteira exterior, Pedro Ferreira diz que o que está a experienciar é “espetacular”. “Ainda por cima, estou aqui a festejar com os meus amigos. É uma coisa incrível, mesmo!”, diz. Para o jovem de 17 anos, a conquista do campeonato por parte do Porto tem um sabor especial, porque significa que os “dragões” são os únicos em Portugal que são penta campeões. “Isso faz de nós o melhor clube em Portugal”, assevera. Pedro e os seus amigos fazem uma roda, semelhante àquela que Sérgio Conceição introduziu no final de cada jogo. Como diz o speaker do Estádio do Dragão: “A união faz a força”.

“Estou aqui a festejar com os meus amigos. É uma coisa incrível, mesmo!”

Os jogadores sobem um a um, pela ordem dos números das camisolas, a rampa que dá acesso à parte superior da bilheteira. Iker Casillas é o primeiro e recebe fortes aplausos. A nação portista tem muito respeito pelo histórico guardião espanhol, que conquista assim o seu primeiro título a nível de clubes fora de Espanha. Logo a seguir, é Maxi Pereira. O uruguaio arranca risos da plateia, pois salta ao som da versão alternativa do cântico “SLB, SLB, SLB!”.

À medida que os restantes jogadores sobem, o público vai entoando vários cânticos, como uma nova versão de uma música da série espanhola “La Casa de Papel”: “Chora o Vitória! Chora o Vieira! O penta tchau, tchau, tchau!”.

"Não tenho palavras”

Chegando ao final dos números, falta subir o número 16, o capitão Herrera. Quem o avista na porta de saída, não fica indiferente e exclama: “É o Herrera! É o Herrera!”. Estamos longe do tempo em que o mexicano chutou a bola para canto, o que permitiu que o Benfica empatasse o clássico com o Porto. Mas para surpresa de muitos, o médio não sobe sozinho. Tem ao seu lado, e a segurar em conjunto o troféu de campeões, nada mais, nada menos do que Sérgio Conceição. O público entra em êxtase. Aqui estão duas das principais figuras que contribuíram para que o Porto se tornasse campeão.

Engane-se aquele que pensar que assistir a este tipo de cerimónias pela televisão é o mesmo que as presenciar ao vivo. Vasco Silva não tem muitas palavras para descrever estes momentos, em que adeptos e jogadores convivem em estado de graça. “É indescritível. É uma emoção incrível, não tenho palavras”.

Pouco depois da uma da manhã, as pessoas já começam a regressar às suas casas, não antes sem um aviso do speaker. No próximo domingo, 13 de maio, o Futebol Clube do Porto faz o último jogo da época, na deslocação a Guimarães. Com uma vitória, os “azuis e brancos” conseguem o maior número de pontos numa época na sua história.

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