“Não tenho medo, cara”. Kalani Lattanzi fala com um rasgado sorriso nos lábios sobre a onda da Nazaré. Da praia do Norte e do Canhão. “Cara, se ficar muito tempo olhando lá de fora da água, na praia ou no farol, eu fico, sim, com medo. Na água sinto-me à vontade”, garantiu ao SAPO24, este cidadão brasileiro de 25 anos, nascido no Havai e que “desde os seis meses” vive no Rio de Janeiro, em Itacoatiara.

É esta junção do local onde nasceu com o local onde vive que lhe deu “uma energia boa”, garante numa conversa de antecipação à exibição do documentário de que é a personagem principal - “Kalani - Gift from Heaven” –  e que é hoje exibido no Cinema São Jorge, às 21h30, no âmbito do SAL, Surf at Lisbon, festival de filmes sobre surf.

Desde 2015, primeira vez que aterrou no Canhão, o nome e a cara de Kalani é conhecido dentro da comunidade de surfistas de ondas grandes, tais como Garrett McNamara, António Cardoso, Andrew Cotton, Hugo Vau e Maya Gabeira. Só que, ao contrário destes que entram dentro de água com uma prancha de surf e com a ajuda de motas de água, o surfista brasileiro usa apenas o corpo e umas barbatanas, sem prancha e sem apoio de jet skis, para surfar a conhecida e poderosa onda da Nazaré. E "a maioria das vezes vou sozinho”, admite.

créditos: Ricardo Bravo

É frequente este ponto 'microscópico' ser percecionado no meio de uma parede de espuma com 20 metros. Foi essa a medida, mais ou menos exata, da maior onda que “pegou” em bodysurfing na Nazaré, ou uma “carreirinha”, para leigos.

Ora aparece, ora desaparece do radar, tamanha a sua pequenez entre as ondas, que contrasta com a coragem em andar lá no meio. “Entro de peito na onda”, descreve, enquanto solta mais uma gargalhada. “Vou para a água, pego onda e pego caldo [é enrolado] no bodysurfing. 50% acaba por tomar um caldo. Não tem muita velocidade e a onda acaba engolindo você”, admite.

Explica que a “prática” é o melhor treino que pode ter. “Tem que pegar, fazer um esforço para surfar e toma um caldo. Não tem treino melhor que esse”, sorri, de novo. “Tem adrenalina até de noite. Até para adormecer demora quatro horas”, frisa.

“Fico ali no meio das ondas, no mínimo uma hora e meia”, anuncia. “Tem dia que pego duas ondas, tem que esperar, ver, e voltar a fazer e está bom”, atira. “Já fiquei oito horas direto dentro de água. A pilotar e a surfar”, diz, só deixando no ar uma queixa, que é mais um reparo: “A água é fria. Mas botas uma roupa e vamos para cima”.

Carreirinhas até “quebrar ao meio”

Há quem lhe chame “maluco”, “herói da Marvel” ou “X-Man”. Recusa todos os nomes. Descreve-se somente como alguém que acredita “no Bem” e que se “o fizer o bem, o Bem vem" até ele, solta.

Passa, por norma dois meses, por ano, na Nazaré. “Venho em outubro e fico até dezembro. Este ano vim atrasado”, diz. “Sou bem índio, de raiz, gosto de ficar num lugar só. E esse é um lugar completo. Onda grande e boa”, descreve.

Com um 94 gravado acima da orelha esquerda (“é o número de cela”, brinca, quando se percebe, facilmente, que o número celebra 25 anos de vida), diz que o segredo está no estilo de vida que leva. “Me alimento bem, proteínas, verduras e água, me alongo, faço o ioga à Kalani, não gosto de sair a noite, não bebo. Ajuda”.

créditos: Ricardo Bravo

Filho único, a mãe é tema de conversa. “Foi ela que me meteu em cima de uma prancha de bodyboard para descer reto”, recorda. “Aos 12 anos meti pé de pato [barbatanas] e conhecei a surfar a onda de peito, durante um ano”, recua. “Mas não temos prioridade para pegar a onda no pico e como tinha os amigos todos no bodyboard, comecei a competir e estive durante sete anos como profissional no circuito mundial”. O surf deparou-se-lhe no caminho igualmente. “Hoje em dia pego tudo: body, surf e de peito. Onda grande é o foco”, sublinha.

É adepto do Vasco da Gama, clube brasileiro que não passa por um período áureo. “Não está bom? Vai fazer o quê?”, questiona com uma calma celestial. A mesma tranquilidade com que remata a conversa quando questionado sobre até quando pensa enfrentar as ondas sem ajuda de pranchas. “Até explodir e quebrar ao meio”, finaliza, com um rasgado sorriso de felicidade.

Um documentário que é algo mais do que umas imagens sobre a Nazaré

Kalani passou por Lisboa antes de rumar à Nazaré “até 21 dezembro”, anuncia. É a figura de cartaz do documentário de “Kalani - Gift from Heaven”, realizado por Nuno Dias e com fotografia de Ricardo Bravo. O conhecimento de Kalani tem origem “nas redes sociais”, recorda o jovem realizador de 25 anos que passou os últimos “três anos” a fazer filmagens “fora” e “dentro de água”, período em que esteve sempre atento ao minúsculo ponto que deambulava entre as ondas gigantes. Três anos que se resumem em 25 minutos.

As imagens decorrem na Nazaré e no Rio de Janeiro. “Procurámos saber onde vive e como se tornou no que é, como chega até aqui”, revela. “Ainda estou a tentar pensar perceber”, garante.

“Em 2015, começou a nadar na praia da vila, contornou o farol e entrou na praia do Norte onde esteve três horas”, recorda. “Em outubro de 2016 filmei uma sessão épica em que ele perde a prancha de bodyboard e fica a fazer bodysurfing”.

“Tenho mais medo que ele. Tenho ideias e ele vai para dentro de água”, atira Nuno Dias. “Há situações que o perdíamos durante cinco minutos e só o víamos com zoom digital. Preocupa-me muito quando o perco de vista”, exclama.

“Muito do que aconteceu não era planeado”, revela ao falar da obra que andará durante os próximos seis meses em “tour” por vários festivais na Europa, Estados Unidos e Austrália.

“Não há nenhum surfista de topo de ondas grandes que não saiba quem é o Kalani. O documentário mostra ao mundo quem é”, conta. “As pessoas sabem que ele vai para lá, mas não havia uma história, nem um contexto. Com imagens exclusivas, o documentário não é mais um projeto pela Nazaré”, remata. “Não há ninguém a fazer o que ele faz”, garante.

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