Espero que compreendam. Esta crónica é dedicada ao pai de um grande amigo e padrinho de casamento que morreu, vítima de morte súbita, no ano passado, enquanto assistia, pela televisão, à final da Taça de Portugal, no jogo que opôs o Desportivo das Aves ao Sporting Clube de Portugal em que o “seu” Sporting viria a sair derrotado.

Porque a vida é tão mais importante do que um simples jogo de futebol, ao meu amigo e padrinho, à mãe e restante família, com um ano de atraso, seguem as seguintes linhas que, por ironia, celebram a vida e a festa feita por famílias de dois clubes. A que se juntou no final a dos jogadores, como veremos. 


Depois de inundarem as matas do Jamor com picnics que variavam entre o Master Chef e o Pesadelo na Cozinha, ou outros que ali se apresentam como “amigos do Jamor” e que têm a particularidade manterem a tradição de uma década de ali irem cada vez que Jorge Jesus (Belenenses, Benfica e Sporting) ou o Sporting CP marcam presença no Jamor, com o aproximar da hora do jogo os adeptos começaram a preencher os topos norte (leões) e sul (dragões) do Estádio Nacional para a 79.ª edição da Taça de Portugal.

Se o futebol, do ponto de vista de quem segue o fenómeno, tem tanto de irracional como de especial vocação para mexer no caldeirão das superstições, bastava olhar para as cábulas sobre os jogos no Jamor entre Porto e Sporting para uma conclusão saltar à vista.

Em quatro finais (1978, 1994, 2000 e 2008), as duas equipas, com duas vitórias para cada lado, teimaram sempre em não conseguir resolver a contenda dentro do período regulamentar.

E o jogo em que se celebrou os 75 anos do Estádio Nacional não foi exceção. Empate a uma bola no tempo regulamentar, prolongamento, mais dois golos, um para cada lado no tempo extra, penalidades, cinco, sem vencedor, a que se somou, nos pontapés do mata-mata, o chuto decisivo de Luiz Phellype que viria a coroar a vitória leonina.

Muito tempo para fechar uma final, mais de duas horas, mas não tanto como num passado um pouco distante. É que, como nota de curiosidade, as duas equipas têm o ónus da final mais longa, no ano de 1994, em que após 240 minutos, João Pinto, capitão portista, subiu à Tribuna de Honra para erguer a taça debaixo de uma chuva de garrafas de plástico.

Se "prognósticos só depois do jogo" tolda a mente de muitos, as duas equipas entrarem em campo empatadas em triunfos nas finais, 16, com os leões a celebrarem a 29.ª presença, menos uma que Dragões, são também números que mostram o equilíbrio entre leões e dragões na prova. O desempate pendeu para o lado do Sporting CP, que assume a vice-liderança no que toca ao segundo troféu mais importante do futebol português: 17, menos nove que o líder Benfica (26 Taças de Portugal).

Mathieu, a força dos 35 anos. Keiser dá e baralha o jogo

Eram 16h30 quando a equipa do Sporting subiu ao relvado, onde já aqueciam os guarda-redes. Nas bancadas, ainda longe de estarem preenchidas, começavam a ouvir-se os primeiros cânticos. Os portistas entraram pouco mais de 10 minutos depois.

No seguimento, um número não correu bem à organização. Tentaram levantar o “caneco” gigante no centro do relvado, mas este teimou em não se levantar. A cerimónia de abertura mostrava vários desportos, do hóquei à natação, do basquetebol à ginástica, mas também motas voadoras e o hino de Portugal, que juntou vozes dos dois emblemas.

Depois do apito inicial, se o primeiro canto pertenceu aos leões, a primeira oportunidade de golo foi dos dragões. Marega, nos poucos duelos que ganhou ao central leonino Mathieu (considerado o homem do jogo), conseguiu colocar a bola no centro da área. Com o esférico vindo de um ressalto, Soares disparou para a baliza de Renan, que impediu o golo. Bruno Fernandes respondeu, como tão bem sabe fazer, com um remate de fora de área e em que Vaná fez questão de fazer esquecer Iker Casillas.

Aos 22 minutos entrou em campo o VAR. Marega introduz a bola na rede, bandeiras ao ar, gritos de êxtase, o n.º 11 a correr em direção às bancadas pintadas de azul e branco com os braços cruzados, um momento de pausa, conversas entre árbitros, um no campo e outros que estão a ver o jogo pela televisão e o orgasmo do golo faz um rewind. Jorge Sousa desenha o retângulo mais quadrado da geometria e anula os festejos. Fora de jogo assinalado.

Os portistas atacavam preferencialmente pela esquerda (tal como os leões na primeira parte) e em pouco mais de 10 minutos Bruno Gaspar (25’) e Gudelj (38’) viam amarelos, precisamente por faltas cometidas do lado direito da defesa leonina.

Aos 40’, Soares inaugura o marcador após um cruzamento de Herrera. O brasileiro subiu entre os centrais na pequena área e fez saltar de alegria os adeptos que estavam no topo oposto. Camisola amarela de Iker Casillas colocada no centro do relvado e cânticos de homenagem nas bancadas ao guarda-redes espanhol. Fazia-se justiça pelo aquilo que se observava no tapete verde.

A festa durou, no entanto, pouco tempo. Bruno Fernandes, o médio goleador, fez o que tem mostrado que sabe fazer. Igualdade (embora o árbitro tenha colocado na ficha de jogo autogolo de Danilo) antes do apito para o intervalo e os jogadores leoninos foram para o descanso ao som de “Sporting até morrer”.

Um golo no último suspiro numa história já conhecida por todos

No recomeço, e tal como no primeiro tempo, a equipa de Sérgio Conceição entrou mais acelerada, com Soares a atirar ao ferro. Marcel Keizer mexeu na equipa com a entrada do central Tiago Ilori para o lugar do amarelado Bruno Gaspar e responde com nova disposição dos jogadores em campo. Depois entrou Bas Dost por Diaby, aos 74’, e os leões deixam o jogo das alas e começam a jogar com dois avançados entre os centrais portistas. O técnico holandês tentava trocar as voltas táticas a Conceição, que respondeu com a saída de Otávio e a entrada de Manafá, para dinamizar o corredor direito.

Os últimos instantes do tempo regulamentar pareciam antever o golo portista: Renan comete um erro colossal e numa bola atrasada falha um pontapé, colocando-a nos pés de Herrera, ainda que se tenha redimido na sequência do lance, evitando o remate do mexicano que ia com selo de golo. O guardião brasileiro, de resto, voltou a fazer o mesmo com o esférico vindo da bota de Brahimi e ainda viu Danilo atirar ao ferro e Coates evitar com a mão (numa jogada que lhe rendeu um cartão amarelo) o último ataque portista.

Jorge Sousa apitava para o final dos 90 minutos, o Sporting respirava de alívio e a história repetia-se. Jogo para prolongamento.

No duelo Mathieu-Marega, o veterano central francês justificava porque tinha renovado com os leões. Já maliano saiu sem pulmões para dar lugar a Adrian López.

Bas Dost marca ao minuto 100 e aos dragões começava a pesar a memória da última final perdida, no ano de 2008, em que um outro avançado, o brasileiro Rodrigo Tiuí, foi herói do tempo extra. Com a equipa de Alvalade em vantagem, os leões geriram o tic-tac do relógio. Faltas, lesões, paragens, substituições, amarelos para jogadores de ambas as equipas até que, no soar do gongo, Felipe, imperial, voou e de cabeça colocou a bola na baliza leonina.

O topo sul no qual estavam adeptos do clube do norte do país abanou. Apito para a marcação de penalidades e escutou-se o “Super dragão eu sou...”.

17.º troféu de 1,695 kg e 58 cm de altura segue para Alvalade

Se alguma justiça foi feita no empate arrancado, algo divino começava a soprar pelo Jamor. E se olharmos para a história mais recente, em duelos entre as duas equipas, os dragões perderam os derradeiros três (meias-finais da Taça da Liga e da Taça de Portugal, em 2018, e final da Taça da Liga, já em 2019).

Cinco pontapés da marca dos 11 metros. Bas Dost falha o primeiro, euforia no lado oposto, Pepe falha, exaltação verde e branca. Cinco penáltis, quatro marcados para cada um dos conjuntos. Alguém iria marcar e o outro iria falhar. Renan defende o pontapé de Fernando Andrade, Luiz Phellype marca e Sporting vence a final da Taça de Portugal.

No final, enquanto os portistas subiam à tribuna ouvindo tímidos gritos de “Sérgio fica”, os leões colocavam pela 17.ª vez a chapa no troféu de 1,695 kg e 58 cm de altura. Uma taça que ergueram um ano depois de terem visto o Desportivo das Aves fazê-lo, um ano depois dos acontecimentos de Alcochete que precipitaram eleições e rescisões.

A celebração foi logo feita no relvado com os jogadores acompanhados das famílias, a que se vai seguir a festa no Estádio de Alvalade, e não para a praça em que o escultor Francisco dos Santos, que foi jogador dos leões, desenhou o Rei da Selva para acompanhar o Marquês de Pombal, numa estátua inaugurada a 13 de maio de 1934.

No final, enquanto se encaminhava para a saída já com as bancadas despidas, um adepto não identificado com as cores de qualquer um dos clubes soltou um “há algo divino no futebol”. O sopro de divindade sorriu ao Sporting, que encerra a época 2018-2019 com o melhor ano desportivo desde a última temporada em que se sagrou campeão nacional (2001-2002): vencedor da Taça da Liga e da Taça de Portugal.

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