José Carlos Santos é um corredor de trail e ultra trail. Com 60 anos de idade e com títulos de Campeão Nacional Circuito Ultra Trail na faixa etária dos 50, 55 e, recentemente, 60, soma vários prémios e participações em competições internacionais e nacionais — esteve no 1.º Circuito de Corridas de Montanha em Portugal, em 1995.

Veterano nestas andanças, o Ultra Trail Mont Blanc (Monte Branco), a mítica prova que atravessa, pelos Alpes, França, Suíça e Itália, também não é novidade para este atleta que “corre desde os 30” e que “se iniciou na estrada” antes de se “atirar para as corridas de montanha”, sublinhou ao SAPO24. “Fui um dos três portugueses, os primeiros, a vir ao Monte Branco para participar na 2.ª edição (2004) do Ultra Trail”, recordou. Regressou em 2006. "E esta é a minha terceira vez”, assegurou.

A novidade na terceira participação nos Alpes foi a vitória alcançada na prova OCC (Orsières-Champex-Chamonix), uma das sete competições que fazem parte do programa da 17.ª edição do UTMB.

“Demorei 8h04m”, referiu, um tempo que não parece tê-lo deixado totalmente realizado. Mas, olhando para as estimativas da organização, que apontavam para que o vencedor terminasse esta prova de média distância (56 km) em 5h30, cada um poderá tirar as suas conclusões sobre o tempo despendido por este atleta que completou 60 anos em abril. “Mas foi uma boa surpresa”, admitiu, de medalha ao peito, numa mão um chocalho (badalo ou sino que é colocado no pescoço do gado alpino) e na outra uma mochila, galardões que são dados a todos os atletas que merecem honras de subir ao palco dos prémios.

O percurso nesta 6.ª edição da OCC arrancou ontem, dia 29, às 8h15 (hora local; 9h15, em Lisboa) de Orsière, uma “comuna” na Suíça. Passou por alguns lugarejos helvéticos dignos de um postal, como seja Champex-Lac, que com a sua floresta e lago alpino é apelidada de “pequena Canadá”, e Trient, local onde vivem 150 habitantes, metade dos quais se inscreveu como voluntário na organização do evento (fazem parte dos dois mil no total). Seguiu-se a entrada em França, concretizada a mais de dois mil metros, a descida para Vallorcine, a subida até La Flegère e a chegada, em rota descendente, a Chamonix.

Ao todo, uma travessia por dois países, três “grandes prémios da montanha” com subidas até aos dois mil metros, dois picos de cada lado e um outro que divide a fronteira entre a Suíça e a França.

Uma equipa que nasceu em Monsanto

José Carlos Santos não está sozinho no Monte Branco. Veio acompanhado da equipa que fundou e a que pertence, a Monsanto Running Team, nome em homenagem ao local onde nasceu, no Parque Florestal de Monsanto, em Lisboa, palco de eleição dos treinos diários — tal como a serra de Sintra.

A seu lado estavam sete corredores de trail e outros tantos acompanhantes que fizeram questão de estar presentes na hora da “glória” de José Carlos Santos, testemunhando e escutando os decibéis do chocalho enquanto registavam o momento para a posteridade.

Divididos por três competições, sendo que nenhum participou, este ano, na prova rainha. Alguns dos atletas já terminaram as provas — OCC e TDS (Sur les Traces des Ducs de Savoie), com 145 km. Outros partem hoje. É o caso de Paulo Pereira, 49 anos.

Paulo soma a terceira participação alpina. “Depois da OCC e da TDS”, este ano aventura-se na CCC (Courmayeur-Champex-Chamonix), de 101km, prova que arrancou hoje de Courmayer, no Vale da Aosta, Itália, e tem prazo de chegada a Chamonix até amanhã ao meio-dia. “Talvez um dia faça o UTMB... ainda não tive coragem”, assumiu.

Corredor desde os 40, e a fazer ultra trail desde os 45, Paulo Pereira treinou afincadamente desde fevereiro na companhia dos seus colegas de equipa, um grupo “de três amigos” que começou a correr em Monsanto (quartel de bombeiros como ponto de partida). Hoje “somos cerca de 70”, adiantou. As corridas às “seis da manhã” e o “yoga” fazem parte da rotina que impõe a si mesmo.

Do continente à Madeira, os portugueses nos Alpes vêm de todo o país

Portugal é o 12.º país com maior representação de sobe e desce da montanha alpina esta semana. Cento e setenta participantes lusos espalham-se por todas as provas deste emblemático evento que penetra na alma das comunidades e da cultura dos Alpes.

À medida que iam completando as provas e cortavam a meta instalada em Chamonix, Igreja de São Miguel (Saint-Michel), debaixo de aplausos da multidão que se espalhava entre lojas e restaurantes contínuos, a bandeira nacional ou cachecóis de futebol com as cores verde e encarnada saiam das mochilas de apoio.

Outros ainda não entraram em ação. Da Madeira veio António Alves, 38 anos. É atleta e presidente do Clube Escola do Estreito. Faz a estreia nos 171 km que começam hoje em Chamonix e cujo final terá quer ser cumprido até às 16h30 do próximo domingo, 1 de setembro.

"Nunca paramos de treinar”, atirou, já com muitos quilómetros nas pernas. Este ano o objetivo era “chegar aqui”. Está cumprido depois de ter feito duas provas e de ser obrigado a desistir numa de 115 km para não “agravar uma lesão”, assumiu.

César Duarte, 31 anos, veio de Amarante. Entra hoje (18h) em ação na prova rainha, o UTMB, com 171 quilómetros. É a terceira vez que pisa este território. “Antes demorei 30 e tal horas”, sorri.

Para estar em forma, começou a treinar em março. Treinos “todos os dias”, numa média de "600 quilómetros por mês”, sublinhou. “Fiz algumas provas de 50 km de preparação, para não ter desgaste”, adiantou. Objetivo? “Acabar”, rematou.

* O jornalista viajou para Chamonix a convite da UTMB.

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