Não estive lá, ainda faltavam uns anos para cá andar. Mas não é preciso lá ter estado para o sentir, não é preciso saber o que é não ser livre para ter a certeza de nunca deixar de querer saber viver a liberdade, em liberdade. Uma vez fiquei preso duas horas num elevador e já me chegou bem, mesmo que pudesse lá estar dentro a dizer mal do governo se me apetecesse.

E eu sei que parece estranho, assim de repente, estar a escrever isto numa altura em que estamos todos relativamente presos. Só que estamos presos a uma circunstância da natureza, que passará, e não por uma ideologia opressora que desclassifica humanos enquanto tal. E ela espreita, ela espreita. Ela dorme, mas não está morta. Mas nós estamos atentos, nós mantemo-nos vigilantes. Por nós, pelos que fizeram acontecer a liberdade, pelos que por ela morreram. Essa liberdade que é do tamanho de tudo e frágil como pouco, que veio de uma revolução que se começou a fazer a 25 de Abril de 1974 e que fazemos todos os dias desde aí. E que tem de ser feita por todos, ou quase, como bem sabemos. Mas nós, estes quase todos, chegamos. Somos imensos, em número e em tamanho, os que lutam pela saúde, pela educação, pela paz e pelo pão porque – já cantava Godinho – só assim será liberdade a sério.

Sabemos que os outros andam aí. Cospem o seu ódio abertamente nas redes sociais, cada vez menos dissimuladamente no Parlamento. Enchem colunas de alguns órgãos de comunicação social, enchem o ar de gatafunhos de populismo e tentam, com o seu bafo de miserável impostor da pátria, putrefazer a democracia. Pois que sigam tentando. Não passarão.

E hoje celebramos. Que dia lindo que está, que dia lindo que é. A liberdade sente-se de casa para casa, de vizinho para vizinho, pelo WhatsApp e ao telefone. O Instagram está cheio de cravos e vontades, de esperança e fraternidade, e até o pão que têm andado a fazer em casa parece estar com melhor aspecto.

Ainda o dia vai a meio e já me emocionei 14 vezes, porque as celebrações importam, porque nos trazem a tangibilidade do que podia ser só etéreo. Portanto, continuemos a celebrar e lutaremos o resto do ano, cada um como puder, seja médico, artista, jornalista ou carpinteiro. Seja lá o que for e quem for, desde que esteja na democracia por inteiro.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:
- I, Daniel Blake: Filme duríssimo. Gostei muito.

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