O que está em causa é a terra onde vivem 11 mil (do total de 600 mil) colonos israelitas e uns 65 mil palestinianos, estes na cidade bíblica de Jericó e nos arredores junto ao Mar Morto que têm o melhor e mais decisivo solo agrícola da Cisjordânia.

É um facto que Israel já ocupa aquele território, que é um oásis da natureza, mas onde os movimentos são controlados e barrados aos palestinianos por patrulhas militares. É uma terra fértil que representa um terço da Cisjordânia. A tomada por Israel da soberania sobre esta porção do Vale do Jordão é ilegal face ao direito internacional, e modificaria a equação israelo-palestiniana: bloquearia de uma vez por todas a solução de dois estados (Israel e Palestina), já tão longínqua na conjuntura de agora.

Mas a ilegalidade dessa ocupação é coisa menor no discurso do candidato Netanyahu, perante a necessidade que sente de um golpe com efeitos eleitorais. Precisa do máximo de votos dos colonos. Acresce que, por um lado, ele tem e exibe o apoio incondicional de Donald Trump, por outro, a Palestina, embora continue a ser tema sensível no mundo árabe, deixou de estar no topo das prioridades dos líderes regionais, mais preocupados em controlar as tensões internas e, no caso da Arábia Saudita, com atenções principais voltadas para o Irão, alvo partilhado com o governo de Netanyahu em Israel.

A continuidade de Netanyahu na chefia do governo nunca esteve tão incerta. Ele está nas sondagens ombro a ombro com uma figura que só neste último ano apareceu na política: Benny Gantz, general retirado, ex-chefe do Estado-Maior do poderoso exército de Israel. É um homem que fez todas as guerras israelitas das últimas décadas. Tem portanto credenciais entre os tantos que só concebem a possibilidade de lideranças políticas robustas nos temas militares e de segurança. Gantz encabeça uma coligação, designada Azul e Branco, que agrega grupos políticos do centro-direita com o qual se identifica a atual maioria social em Israel.

O exército é em Israel a instituição mais prestigiada. Isso explica que muitos comandantes militares transitem para a política, como foi o caso de Isaac Rabin e Ehud Barak. Agora, Gantz, figura com imponente estatura física, é candidato com uma biografia onde tudo tem a ver com a carreira militar, até o cargo de conselheiro militar na embaixada israelita em Washington.

Em todas as sondagens, o Likud de Netanyahu e o Azul e Branco de Gantz estão em empate técnico com à volta de 30 lugares para cada, num parlamento, a Knesset, com 120 lugares. Gantz tem aparecido com uma muito ligeira vantagem, um ou dois deputados (32 ou 33 para Gantz, 31 para Netanyahu). Quem ficar à frente é quem vai conduzir a complexa negociação para formar o próximo governo.

As eleições desta terça-feira, 17 de setembro, acontecem porque das anteriores, em 9 de Abril, não resultou a possibilidade de alguma coligação. Netanyahu, que então ficou na frente, tentou mas falhou e preferiu convocar eleições a que outro tentasse.

Quem conseguir agregar 61 deputados fica com maioria para governar. Os partidos ultra-religiosos têm peso forte.

Quem sabe se o país que se define como democracia e único estado judaico no mundo vai quebrar um tabu e ter partidos árabes no apoio ao governo? É muito improvável. Houve uma experiência de apoio tácito ao governo de Rabin, no tempo dos Acordos de Oslo. Agora, Gantz, mesmo que precise deles para ter maioria, dificilmente abriria a negociação a esses partidos que para além de árabes são não sionistas. No entanto, representam 20% da população.

Avigdor Lieberman, um homem da direita extrema, ex-ministro da Defesa num governo Netanyahu, aliado que se tornou rival, agora em confronto aberto com os ultras religiosos, pode vir a ser um dos beneficiados com esta eleição. As sondagens dão-lhe 10 deputados, o que o torna fazedor de maiorias.

No atual cenário político de Israel a esquerda tornou-se residual. Mas juntará votos para afastar Netanyahu.

Se o governo for de Gantz, não será muito diferente na linha política do de Netanyahu. Até pode acontecer um retorno à grande coligação entre os partidos maioritários, com o Azul e Branco no lugar do velho Partido Trabalhista, que foi de Isaac Rabin e de Shimon Peres.

O que está, como questão principal, em fundo a esta eleição, é o referendo a Netanyahu: ainda mais ou já chega. Sendo que o ainda primeiro-ministro, que já soma 13 anos na função – a liderança mais longa de sempre em Israel – está confrontado com acusações de corrupção, suspeitas que ele rejeita. As audições judiciais estão marcadas para o mês que vem e então se saberá se a acusação é formalizada. Há quem antecipe que Netanyahu, tal como outros anteriores chefes políticos de Israel (o presidente Katsav, o primeiro-ministro Olmert), pode vir a ter de passar pela cadeia.

É, assim, acossado como nunca, que Netanyahu chega a estas eleições. Tem o trunfo de ser o chefe de governo que acabou com ataques suicidas em solo israelita. Mas tudo o mais no jogo político está contra ele.

A cidadania israelita tem uma segunda oportunidade para se livrar de Netanyahu. Nesta terça-feira fica a saber-se se é essa a vontade da maioria.

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