A entrevista tem uma história que vale ser contada: por volta do meio-dia desta última quinta-feira, Eugenio Scalfari, fundador, ex-diretor e jornalista símbolo do La Repubblica, recebeu uma chamada no telemóvel. Do outro lado, de imediato, surgiu-lhe a voz do Papa. Começou por lhe perguntar como está a saúde – Scalfari, apesar de ir, enérgico, todos os dias à redação e de manter intervenção no jornal, tem 93 anos de idade e esteve uns dias acamado. Após as perguntas e respostas tranquilizadoras sobre a saúde, o Papa, que sabe que Scalfari é um não crente, propôs-lhe conversarem. Combinaram que seria nesse mesmo dia, logo às três e meia da tarde. O Papa recebeu Scalfari na residência de Santa Marta, no Vaticano. Logo acertaram que a conversa daria uma entrevista para publicação nos dias seguintes. O Papa exprimiu preocupação pelas decisões do G20 e das repercussões que estas têm sobre os povos desprotegidos empurrados para a migração. Também falou da Europa, o continente que simboliza a prosperidade, a terra na ambição do povo migrante. Foi então que o Papa, nessa entrevista a Scalfari, retomou a ideia de Europa federal. Talvez tenhamos uma oportunidade.

A realidade que hoje nos envolve contraria quase todo o pessimismo de há apenas um ano, quando, logo a seguir ao Brexit, a Europa, sob a ameaça de fronteiras impermeáveis, parecia em colapso: a economia sem fôlego, o Euro trôpego, as dívidas imensas, o desemprego tremendo, tudo a gerar um sentimento de não futuro potenciado por lideranças políticas que não estimulavam. Instalava-se a ideia de rejeição da Europa e de inquietante retorno aos nacionalismos. À deriva autoritária na Hungria e em outros países do Leste juntava-se a da Turquia de Erdogan. Depois veio a eleição de Trump. Parecia que íamos entrar num mundo de Trumps e Putins, com clones locais. Era o tempo do temor do populismo intolerante na Holanda e na França. Parecia chegar ao fim, depois de uma década perdida (após o rebentamento da crise financeira de 2007) uma era de sessenta anos de paz e construção de esperança na Europa.

O que hoje temos é um ressurgimento da Europa, que parece recuperar nova vida: o emprego recupera por toda a parte, a economia europeia cresce, está nos 1,7%, em vez dos 0,6% antes previstos. Os cidadãos recuperam algum poder de compra. Os défices que tanta turbulência causaram estão a entrar no colete de contenção.

Em vez do desmembramento, há sinais de cooperação na União. O eixo franco-alemão aparece, com Macron e Merkel, com solidária determinação europeia que quase faz lembrar a do tempo de Mitterand e Kohl. Em vez de confronto e até tumulto, há gestos de cooperação.

não de Trump ao Acordo de Paris sobre o Clima está a ser superado pela determinação europeia (rápida descida das emissões poluentes, mudança de comportamentos), pelo positivo empenho da China e da Índia e pela atitude de parte da sociedad e de muita indústria dos EUA. Está a ser possível o crescimento do PIB mundial sem que haja aumento das emissões. A Europa marca a liderança pelo clima.

As forças políticas isolacionistas anti-europeias perderam vigor nas urnas. Viu-se na Holanda e na França, tende a ser também assim em Setembro na Alemanha.

Estudos como os da Chatham House mostram que o anterior cepticismo dos cidadãos europeus abre-se agora à esperança de uma Europa mais coesa com uma união mais redistributiva.

Há a sensação de que a eleição de Trump e outros desalinhamentos com a tolerância, de Putin a Erdogan, para já não falar em Orban, produziram o efeito de vacina.

Passamos da perspectiva de “menos” para a visão de “mais” Europa, com mais harmonia e solidariedade. As reformas que ficaram por fazer na criação do Euro poderão avançar agora, a seguir às eleições alemãs.

O tempo pode estar a ficar de oportunidade. Mas, ao mesmo tempo há ameaças por resolver, como as que o Papa lembrou: a Europa tem optado pela navegação à vista perante as vagas migratórias. É preciso que a Europa evite o naufrágio no Mediterrâneo. O pacto que parece ter começado a nascer em Hamburgo entre Trump e Putin, talvez a abertura a uma Yalta do Médio Oriente, pode ajudar a soluções.

Mas tudo segue muito volátil: veja-se como Portugal, em um mês, retornou do entusiasmo a vagas de desconfiança.

Também a ter em conta:

A primeira página da Folha de São Paulo aponta mudança próxima, inevitável, na presidência do Brasil: cai Temer, entra Rodrigo Maia. A ser assim, três presidentes em um ano no Brasil.

Novos dados, no The New York Times, sobre a ingerência russa na campanha presidencial americana. Como reagirão os líderes e eleitores republicanos a esta falta de escrúpulo da família Trump e amigos em articular-se com um poder estrangeiro rival para ganhar uma eleição americana?

O complexo dicionário político da Catalunha que se precipita para uma consulta sobre a independência já em outubro.

As 25 novidades deste ano na lista da UNESCO d Património da Humanidade.

O Sopro, de Tiago Rodrigues, mostrado no palco de Avignon, comentado no Libération.

Meio século com Corto Maltese na Balada do Mar Salgado.

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