É público que os serviços especializados russos – o chamado GRU, Departamento Central de Inteligência – interferiram nas eleições americanas de 2016, das mais variadas maneiras, utilizando as redes sociais para semear ódios raciais e políticos (a favor dos republicanos), provocar a confusão e rachar ainda mais o tecido social do país. Também é sabido que fizeram uma nova incursão em 2020, e neste caso até se viu em tempo real.

A primeira pergunta que se impõe, é porque é que os americanos não revidaram. Talvez porque na Rússia não há verdadeiramente eleições, que possam ser “hackeadas” a favor de uma das partes; as próprias autoridades russas tratam de inutilizar os oponentes de Putin por todos os métodos, inclusive electronicamente. Ou talvez porque o Presidente Trump, cujas relações com Putin nunca foram completamente esclarecidas, não estava interessado em que se pesquisasse muito. Por um lado, achava ofensivo pensar que tinha ganhado as eleições graças a manipulações de Moscovo; por outro, mostrou sempre uma complacência com Putin que levava até que se dissesse que era um agente russo infiltrado – um exagero, na minha opinião – ou, mais credivelmente, que os russos tinham informações cabeludas para o chantagear, o chamado “compromat”.

Os episódios estranhos foram vários, mas podemos destacar uma reunião entre os dois, em que mais ninguém esteve presente, e que no final Trump disse que, embora os seus Serviços de Informação lhe dissessem que tinha havido interferência, Putin acabava de lhe jurar que não, e ele acreditava em Putin. A cara do russo, enquanto ouvia esta declaração alorpada, era de um santo que acaba de ser ilibado ou, talvez, de alguém que acha que não tem piada ter um oponente tão pateta. Enquanto isso, imagina-se que os Serviços de Informação americanos rangiam os dentes – nunca lhes tinha acontecido ter o seu Presidente do lado do inimigo.

Mas não é destas interferências, sabidas há muito, que estamos a falar. O que aconteceu esta semana tem uma dimensão muito mais perigosa.

Há anos que o Governo americano gasta dezenas de milhares de milhões de dólares com o seu programa de defesa cibernética, dirigido de Fort Mead, no Maryland, pelo United States Cyber Command, com sensores espalhados por todo o país. O programa, chamado “Einstein”, simplesmente não mostrou a inteligência que o nome indica; tanto a Agência Nacional de Segurança (que tutela o Cyber Command) como o Departamento de Segurança Doméstica (Homeland Security) estiveram ocupados a proteger as eleições deste ano das acções de 2016; foi o sector privado que detectou os novos ataques. E estes, sim, são verdadeiros ataques, no sentido de acções ofensivas encobertas.

É uma vergonha, tanto que o Secretário de Defesa interino (no Governo Trump há sempre muitos interinos, porque as pessoas são despedidas inopinadamente e substituídas por quem está a seguir na linha hierárquica). Christopher Miller, quando interrogado pelos jornalistas, deu aquela resposta padrão: “Ainda não temos informações, mas estamos a investigar.”

Pois, devem estar. O F.B.I., uma agência chamada “de Cibersegurança e Segurança de Infraestruturas”, e ainda o gabinete do Director Nacional de Inteligência formaram uma força-tarefa especial, chamada “Grupo Unificados de Coordenação Cibernética” para descobrir o que os russos têm andado a fazer e preparar uma defesa. Note-se, uma defesa, não um ataque de retaliação. Porque, de facto, o problema agora é detectar os estragos, num período em que o país está praticamente sem liderança, de cima (Presidente) para baixo (agências várias).

Se o leitor já está com a cabeça a andar à roda com tantos organismos, pense apenas no essencial: os russos penetraram nos computadores de incontáveis (um número finito, mas desconhecido) computadores das grandes empresas nacionais, algumas estratégicas e de vários departamentos do aparelho do Estado (também não se sabe quantos) e recolheram informações de todos os tipos, comerciais, científicas, técnicas, etc.

Ao que parece, não mexeram em nada; o seu interesse era espiar, à maneira antiga, mas usando métodos de ponta. Da parte das agências que enumeramos, o silêncio tem sido total, um misto de vergonha por se terem deixado enganar e de ignorância quanto às dimensões da enganação. Alguns funcionários já reconheceram que as intrusões chegaram ao Departamento de Estado (Negócios Estrangeiros), Segurança Interna, Finanças e Comércio, além de partes do Pentágono.

O sector bancário e as empresas da lista das 500 maiores da “Fortune”, que foi quem deu o alarme, já perceberam que as intrusões se deram através de um programa de actualização de software chamado Orion, feito por uma empresa do Texas, a SolarWinds. Parece que toda a gente usava o Orion para actualizar os seus programas proprietários, inclusive o Laboratório Nuclear de Los Alamos (onde se desenham as armas nucleares) e a grande maioria das empresas contratadas pelas forças armadas. A própria SolarWinds também foi penetrada.

Parece que os intrusos russos não são os tradicionais do GRU, mas uma outra agência, a SVR, ainda mais secreta e eficiente. A SVR usou todos os truques para esconder as suas incursões: usou IPs americanos, alguns nas próprias cidades onde os alvos se encontram, criou códigos especificamente desenhados para evitar detecção pelos firewalls e operou fora das horas de serviço normal, quando haveria menos pessoas a usar os computadores.

Do lado americano, por enquanto, muito pouco. Na quarta-feira, Christopher Krebs, o Director de Cibersegurança que foi despedido por Trump no mês passado por dizer que as eleições tinham sido bem conduzidas, esteve a depor na Comissão de Segurança do Senado, e não se falou do assunto. A única preocupação dos senadores era saber se realmente as eleições tinham corrido sem falsificações.

Contudo, alguns senadores e representantes já se pronunciaram. Alguns até afirmaram que se trata de um verdadeiro “acto de guerra”. Mas, de facto, não é. Espiar é o que todos fazem, tanto russos como americanos, como outros países que nem vale a pena enumerar.

Quanto aos russos, evidentemente que desmentiram. Não aconteceu nada, os americanos é que estão paranóicos.

A questão importante é a fragilidade dos sistemas americanos, tanto públicos como privados. Se os “segredos” de um laboratório como o de Los Alamos podem ser extraídos, não se sabe onde irão parar. Certamente que os russos não querem uma guerra nuclear, mas apenas saber os desenvolvimentos americanos em armamento atómico. Contudo, outros países podem ter outros interesses. Os iranianos, por exemplo, que até se dão bem com Moscovo (às vezes...), certamente que gostariam de uma ajuda ao seu programa nuclear. Os norte-coreanos, outro exemplo, que ganham a vida a piratear contas em dinheiro e bitcoins nos bancos internacionais, também gostariam de saber as movimentações financeiras americanas.

Estamos habituados a ver as guerras e a espionagem como operações físicas, localizadas e com objectivos identificáveis. Ainda nos é um bocado difícil dar importância real ao que se passa no mundo invisível da cibernética. Mas, cada vez mais, os combates são virtuais, o que não os faz menos letais, pois são a preparação para acções no plano físico.

O mundo parece ser um lugar cada vez menos seguro.

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