Tenho 27 anos. A minha geração está a atravessar a segunda crise em menos de 10 anos, num momento em que ainda tentava recompor-se da primeira.

Foi mais ou menos entre 2010 e 2015. A crise das dívidas públicas minou todo o nosso percurso no ensino superior e a entrada no mercado de trabalho. Parece distante pensar nas convulsões sociais que vimos e sentimos, recordar manifestações como a de 15 de setembro de 2012 em que os estilhaços da violência que eclodiu em frente à Assembleia da República se projetaram por centenas de metros e artérias de Lisboa. Anos em que as pessoas saíram à rua, como nunca se tinha visto depois do 25 de abril, para se manifestar contra a troika, contra o governo, contra a austeridade, contra o desemprego.

Não foi apenas um peso abstrato sobre os ombros ou um estado mental de “crise” omnipresente no nosso imaginário. Foi drástica e sentiu-se em todos os aspetos da nossa vida. Ficaram cursos por acabar, mestrados e pós-graduações eternamente adiados, dispararam os estágios não remunerados, muitos voltaram para casa dos pais, remediados em banho-maria, milhares emigraram (até hoje), outros viram a única alternativa na precariedade e os salários ficaram, na esmagadora maioria dos casos, irreversivelmente depreciados. Fora as lembranças mais pormenorizadas das dificuldades e sonhos frustrados, ou daqueles que encontraram ainda assim caminhos brilhantes, esta é a pintura geral da nossa geração no último ciclo recessivo do país. Logo nós, filhos da plena integração europeia e com horizontes de expectativas mais largos do que nunca.

Se a última crise toldou esse momento definidor onde, de facto, era a nossa vez de responder à pergunta “o que queres ser quando fores grande?”, esta que vivemos hoje, com a certeza de que o pior ainda não passou, apanha-nos de surpresa na curva apertada do início da idade adulta, com uma consciência muito mais real sobre o que se está a passar, quando tentamos dar o salto para viver melhor (ou simplesmente ir revertendo relações de trabalho que começaram desequilibradas à partida) e ser donos do nosso projeto de vida, novamente nublado por mais dúvidas e indefinições, a somar-se as já habituais e inevitáveis.

Parece-me inegável que temos hoje melhores condições de vida, mais conforto e fizemos menos sacrifícios do que os nossos pais e avós. Foi também para isso que eles trabalharam tanto. Sentimos, ainda assim, outras diferenças: outrora o trabalho árduo gerava poupanças, casa própria, a curva da melhoria das condições de vida era linearmente crescente e uma formação superior dava garantias de desafogo.

Por outro lado, nestes últimos 10 anos (e nos outros todos que passaram e nos que hão de vir) há pessoas a viver infinitamente pior, para quem as dúvidas são de outra ordem (como satisfazer necessidades básicas), as angústias ainda mais materiais e nem sequer têm voz no espaço público. Saber reconhecer isso não significa relativizar os nossos problemas ou achar que a empreitada de tentarmos viver melhor é adversativa em relação ao combate da pobreza cíclica.

A dualidade nós vs outros, que ganha força nas dificuldades e quando nos vendem a sensação artificial de que determinadas políticas públicas nos estão a prejudicar na exata medida em que apoiam outras camadas da população, não só não tem utilidade nenhuma como só nos desgasta, afasta e acaba por prejudicar todos. A tensão criada, por exemplo, entre quem paga impostos e quem recebe apoios do Estado não é nova, já conheceu outras roupagens nos últimos anos: houve a narrativa dos contribuintes contra os reformados pensionistas (quando se discutia o “plafonamento da segurança social”) ou dos jovens precários contra a geração dos “direitos adquiridos”, entre muitas outras, mais e menos prolongadas do tempo. A quem é que essa clivagem interessa? O que é que ganhámos com isso?

As diferentes situações e papéis intercetam-se em famílias, círculos de amigos, comunidades e definem a textura complexa do ecossistema do que é a vida em sociedade, com a certeza de que temos, todos, muito mais lutas e anseios em comum do que responsabilidades diretas nas agruras uns dos outros. E os direitos que queremos conquistar não se subtraem aos dos nossos vizinhos – somam-se sempre. Portugueses contra portugueses (e portugueses contra migrantes) é um filme que já vimos e que só distrai atenções do que realmente deve importar: escrutínio de decisores políticos a nível europeu, nacional, regional e local, participação nas tomadas de decisão e exigência na governação de dinheiros públicos, com as naturais diferenças que provêm das posições ideológicas, variedade de percursos e bagagens.

Com distância é mais fácil olhar para os turbilhões. Para quem procura entrar no mercado de trabalho nos próximos anos, com as mesmas e até mais dificuldades que no início da outra década, desejo que não volte a vingar a narrativa da individualidade, a sedução do trabalho gratuito (para ganhar experiência) disfarçado de estágios não remunerados sem enquadramento legal (ou seja, aqueles que nem fazem parte do currículo académico nem são profissionais) ou a retórica de que nunca se é suficientemente bom mesmo com tantas qualificações. Podem dar muitas voltas até encontrarem um trabalho na área que vos faça sentir realizados, mas não abdiquem dos vossos princípios nem contribuam para uma viciação ainda maior dos problemas do vosso setor profissional. O trabalho dos nossos sonhos não é um comboio que só passa uma vez e explorar outras áreas (ou desenvolver projetos em nome próprio ou coletividades informais, se houver possibilidade) pode abrir muitas perspetivas novas enquanto se espera pela próxima carruagem.

Se, curiosamente, para muitos a última crise do país castigava termos vivido acima das nossas possibilidades e o peso excessivo do Estado, esta crise abrupta provocada pela pandemia revela como seríamos ainda mais frágeis se entregues à nossa sorte e com um Estado (que somos todos) ainda mais pequeno. Para já temos uma crise sanitária e económica. A sanitária está a deixar o país de luto, a multiplicar novas patologias em toda a sociedade, a deixar-nos isolados, parados, impotentes e até ressentidos. A crise económica é paralela, mas vai prolongar-se ainda mais, deixando um rasto de destruição que ainda não conseguimos calcular bem, fechados em casa. A seguir à crise económica, com um esforço de despesa pública superior ao que alguma vez vimos (que agora a Europa acompanha, mas que não sabemos até quando), não estamos livres de enfrentar uma nova crise financeira, outra vez com o peso do défice e das imposições europeias às costas.

Ora, como as marés da nossa vida democrática mostram, os ciclos económicos também fazem oscilar os ciclos políticos e não será surpreendente uma alternância no governo nas próximas eleições legislativas, tanto por desgaste natural como pelo sofrimento generalizado que este e os próximos anos vão trazer.

Nesse sentido, devemos procurar ser simultaneamente exigentes e justos em relação às medidas tomadas daqui para a frente. Exigentes e críticos para que os partidos e governo sintam a responsabilidade de ser transparentes e ser influenciados pelos contributos da população; mas justos e ponderados para que as nossas críticas não se emaranhem com as dos movimentos oportunistas de ascensão ao poder, ancorados na evidência dos problemas mas sem solução melhor que as que têm sido encontradas.

Vejo, no lado mais esperançado da moeda, muita gente próxima a testar novas ideias, a puxar para a frente as paixões de sempre que foram ficando para trás. Como se esta quebra coletiva da normalidade fosse o pretexto necessário para se aproximarem do que realmente querem e gostam, em vez do que lhes tem acontecido. Toda a redefinição da economia a que vamos assistir pode trazer, apesar de tudo, uma oportunidade: se é para começar do zero, que seja à nossa maneira.

Para além desses dias de reflexão individual que, com mais ou menos intensidade, todos temos vivido, assola-me também a questão: não tinha sentido, como agora, estar a viver um momento histórico tão decalcado.

Estamos a ver páginas de livros de História a ser escritos em direto e não acredito que o nosso projeto individual possa ser desenhado, daqui para a frente, sem intervenção política (obviamente, de acordo com a disponibilidade de cada um): porque nada vai ficar na mesma nem queremos ficar outra vez de fora das decisões que nos afetam na segunda crise da nossa geração. Talvez reaproximando-nos dos partidos, ainda os principais fornecedores de governantes e onde o ciclo de vida de uma ideia chega a lei; assumir que a nossa geração já não é apenas o futuro do país e agarrar responsabilidades nos próximos desenhos autárquicos, para que os desafios desta década não sejam abordados com as formas de trabalhar do século passado.

Sei que, qualquer que seja a nossa impressão digital nesta folha em branco que encontrámos, ela tem de ser muito mais orgânica que virtual, ao contrário do que vaticinámos quando instalaram um router em nossa casa pela primeira vez, e concretizar-se em espaços físicos assim que seja possível regressar à rua. No primeiro ano da Faculdade, uma professora alertava-nos para a habitual confusão semântica entre “ir de encontro a” e “ir ao encontro de”. Temos passado os últimos meses a ir de encontro às pessoas na internet e precisamos, muito, de voltar a ir ao encontro uns dos outros, nessa arte nobre de estarmos dispostos a ouvir e a mudar de opinião, se for preciso.

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