Há exatamente um ano reuníamos na mesma sala, ainda em formato presencial, o Gabinete de Crise da Ordem dos Médicos para o então novo coronavírus, sem saber que horas depois viria a ser confirmada a primeira infeção em Portugal. O Gabinete tinha sido criado, a meu pedido, no final de janeiro, altura em que a informação que vinha de Wuhan, na China, e da própria Organização Mundial de Saúde era incipiente e errática, mas em que se antevia que iríamos lidar com uma emergência de saúde pública de escala mundial – com a liderança clínica a revelar-se uma chave preciosa e fundamental para adaptar o terreno para a resposta a uma pandemia.

Durante o primeiro mês de trabalho, o gabinete acompanhou e analisou toda a informação que ia sendo disponibilizada. Antecipar é, provavelmente, o verbo mais importante na gestão de uma crise, o que implica saber avançar para algumas decisões de forma pró-ativa, mesmo que mais à frente essas mesmas decisões pareçam excessivas. Em saúde pública a prudência é um valor essencial e devemos prepararmo-nos para o pior, mesmo esperando o melhor. Todos os cenários devem ser colocados em cima da mesa, de forma transparente, para que possamos reagir rapidamente perante os acontecimentos. Os cidadãos devem ser envolvidos e motivados, sendo essencial que compreendam o porquê das decisões e os caminhos que se seguem.

Regressando ao dia 2 de março, estávamos juntos na Ordem dos Médicos para compilar um conjunto de recomendações que considerávamos essenciais para o país, como um todo, e para o Serviço Nacional de Saúde, em particular, estarem preparados para o SARS-CoV-2 e que tornámos públicas. Para evitar o alarme social, partilhámos uma missiva privada com a ministra da Saúde, com informação de índole mais técnica ou sensível, que nunca obteve resposta – na verdade, a Ordem dos Médicos nunca reuniu individualmente com a ministra da Saúde desde a sua tomada de posse para este segundo mandato, nem mesmo num ano de crise pandémica e em que os cidadãos elegeram os médicos e restantes profissionais de saúde como quem esteve melhor neste combate contra um vírus novo.

Mesmo sabendo que uma pandemia como a que vivemos é um desafio gigante e que liderar nesta altura é um exercício muito complexo, sendo absolutamente impossível que decorra tudo sem perturbações, há algo de que continuamos a estar certos: o diálogo, muito em especial com quem está no terreno todos os dias a construir o SNS e a salvar vidas, é o caminho para decisões com base na realidade e ajustadas ao que é mais necessário. Daí que eleja a comunicação como uma área que poderia ter sido feita de forma diferente pela autoridade de saúde e pelo Governo, sem mistura permanente da esfera técnica com a esfera política. A capacidade de diálogo é o mínimo que se pode pedir a quem lidera uma pasta como a da Saúde.

Volvido um ano, volto a essa mesma sala em que reuni com o Gabinete de Crise e revisito o documento que produzimos, já que muita da operacionalização para o combate à pandemia continua atual. Naquele dia recomendámos que fosse dada autonomia às instituições para que atuassem com “adaptabilidade e rapidez para fazer face a uma situação muito dinâmica”, o que passava pela criação de uma linha de financiamento. Defendemos também a identificação bem definida de uma cadeia de comando, liderada pela Direção-Geral da Saúde, que comunicasse com clareza e que servisse de elo entre os vários intervenientes, e a publicação de um Plano de Contingência Nacional.

Da separação entre hospitais Covid-19 e não Covid-19, à criação de hospitais de retaguarda, passando pela criação de uma reserva estratégica nacional bem dimensionada para os equipamentos de proteção individual e pela articulação de todo o sistema de saúde e agilização das respostas sociais, várias foram as recomendações que fizemos num primeiro momento à ministra da Saúde e que, se tivessem sido implementadas desde logo, teriam melhorado o combate à Covid-19.

Mas, sobretudo, se estas recomendações tivessem sido consideradas não teríamos chegado ao final de 2020 com menos 7,8 milhões de consultas médicas presenciais nos centros de saúde (reflexo da opção política de concentrar os médicos de família nas atividades Covid), menos 3,4 milhões de consultas, cirurgias e urgências nos hospitais (reflexo da opção política de ter doentes Covid em quase todos os hospitais, causando disrupção nas equipas e nos espaços e gerando também mais desconfiança e até medo nos cidadãos) e menos 25 milhões e exames complementares de diagnóstico e terapêutica que se vão traduzir em diagnósticos tardios e num aumento da morbilidade e mortalidade que ainda estamos longe de conseguir medir de forma rigorosa.

Ao longo do ano produzimos dezenas de recomendações ajustadas ao momento que vivíamos ou que outros países viviam antes de nós, envolvemo-nos em projetos solidários, como o Todos Por Quem Cuida, e desenvolvemos com a Sysadvance um ventilador específico para cuidados intensivos já certificado com a marca CE, entre muitas outras ações, como o alerta para o problema dos lares, conseguido após a auditoria clínica ao Lar de Reguengos de Monsaraz. Saímos na nossa esfera de atuação mais habitual para sermos agentes ativos na resposta portuguesa. Foi ainda em abril do ano passado que defendi o uso obrigatório de máscaras em zonas interiores, estendendo essa recomendação aos espaços exteriores já em agosto, e em que pedimos um plano excecional de recuperação para os doentes não Covid. Em ambos os casos as autoridades tardaram a decidir, num processo que, mais do que pelo efeito prático de se ter começado a utilizar a máscara mais tarde, acabou por levar a que a população encarasse com desconfiança as recomendações das autoridades de saúde, perante sucessivos avanços e recuos, em que também ficaram célebres algumas declarações sobre os aeroportos.

Ainda na primavera, insistimos que era essencial reforçar a compra de vacinas para a gripe e no início do verão pedimos que a preparação do inverno fosse feita antecipadamente, com especial foco na manutenção da atividade assistencial a todos os doentes. Uma vez mais, como já referi, a capacidade de antecipar é crítica em cenários de crise e infelizmente conhecemos muito tarde documentos, como o plano de outono/inverno, que foram publicados quando já estava quase tudo a acontecer e que, mesmo assim, apenas tinham linhas orientadoras conceptuais e sem qualquer operacionalização.

Não vale a pena estarmos sempre a insistir no que já sabemos, mas será impossível fazer um balanço sem voltar a lamentar a ligeireza política com que o período de novembro a janeiro, incluindo o Natal, foi encarado e gerido, empurrando-nos para o segundo confinamento que agora conhecemos e levando as unidades de saúde para lá de uma linha vermelha com impacto brutal nos médicos, nos profissionais de saúde, nos doentes Covid e em todos os outros doentes.

Contudo, agora que se começam naturalmente a ouvir mais vozes a exigir o desconfinamento, não podemos ficar prisioneiros de um receio de voltar a acontecer o que aconteceu no Natal e a cair no erro contrário. E, uma vez mais, a chave estará em saber antecipar. Se é certo que ainda não reunimos condições para um desconfinamento pleno, a verdade é que é fundamental que seja comunicado com clareza e atempadamente um plano para que a população assimile a mensagem e organize a sua vida pessoal e profissional. Tal como dissemos ao longo do ano passado, vamos viver provavelmente muito tempo com este vírus, sendo fulcral aumentar a capacidade de testagem e de acompanhamento em termos de saúde pública para bloquearmos rapidamente as cadeias de transmissão. A política, tal como a medicina, existe para servir as pessoas. Se for exercida sempre com respeito a essa premissa, saber-se-á ouvir as pessoas que estão no terreno e tomar as decisões técnicas e políticas que possam de facto ajudar as pessoas com respeito, humanismo e solidariedade.

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