O que está em causa é o BPI, e não só, é a própria estabilidade de um sistema, o financeiro, que está longe de estar resolvido e sustentado, como se sabe e como se suspeita. Por detrás do pano de fundo destas discussões, o que parece evidente é que o Caixabank está a aproveitar o que considera ser um "upside" de imagem em relação à empresária angolana, em Portugal e em Frankfurt. Nas duas últimas semanas, o acordo já foi "anunciado" na imprensa mais do que uma vez, já foi até aprovado um princípio de acordo na Unitel, principal acionista do BFA, o banco angolano controlado maioritariamente pelo BPI e que é a fonte original do problema. Depois, "qualquer coisa" emperrava o acordo final.

A estratégia dos catalães não é de agora, nem sequer apenas com Isabel dos Santos. Quando lançaram uma OPA sobre o BPI, há cerca de um ano, levaram a sua até o fim. E não fizeram negócio. Ofereceram 1,3 euros por ação, quando o conselho do BPI fixou um mínimo justo de 2,25 euros por ação. Teriam resolvido o problema então, não o fizeram e recorreram, depois, à influência politica de Artur Santos Silva junto do PS e de António Costa. Foi o pecado original do primeiro-ministro, que aceitou meter-se num negócio privado.

O Governo preparava-se para legislar à medida, para deitar abaixo uma blindagem de estatutos que garante que todos os acionistas do BPI votem com 20%, independentemente da posição que têm. O CaixaBank tem 44%, e é justo que possa votar com essa posição, sim, mas tem de pagar o preço justo para isso.

É claro que Isabel dos Santos tem uma arma negocial relevante, a posição acionista no BFA e, claro, o Banco Nacional de Angola atuará, com uma nacionalização do BFA, se Portugal fizer uma lei à medida para favorecer os catalães. Alguém os pode, mesmo, criticar? O CaixaBank viveria bem com isso, Portugal é que não, porque se precisamos de Espanha, e precisamos, também precisamos de Angola. Sobretudo, precisamos de capital estrangeiro, do bom, que tenha projeto empresarial e não objetivos políticos. Hoje, só motivamos o interesse do capital espanhol e do angolano, não chega, é preciso mais.

Não alinho na estratégia anti-espanhola e na defesa dos centros de decisão, sabemos o que isso nos trouxe, mas rejeito a ideia de uma banca privada controlada por um país terceiro, em Madrid ou qualquer outra capital, e mais ainda a subserviência aos interesses do BCE e dos poderes europeus, para os quais seria mais fácil supervisionar Portugal como mais uma província espanhola.

O CaixaBank, claro, conta com o apoio explícito do BCE e o Banco de Portugal, já nem sequer disfarçam, e agora o Governo também já se envolveu no processo, o que não ajuda, envieza as negociações, torna-as políticas quando são económicas e financeiras. É também isso que levou o CaixaBank a fechar as negociações de forma unilateral, sem acordo. E conta também com a imagem negativa de Angola em Portugal, cíclica, sempre que o país está em crise e não "está" investidor.

Com o relógio a contar, o anúncio informal do regresso das negociações conhecido hoje pode ser um bom indício de que, afinal, o CaixaBank já encontrou os limites da sua negociação, condição necessária, mas não suficiente, para um acordo no BPI.

As escolhas

Hoje vamos ouvir Marcelo Rebelo de Sousa à hora dos telejornais, exatamente às 20 horas. Na primeira comunicação relevante do seu mandato em Belém, o Presidente vai anunciar a promulgação do Orçamento do Estado para 2016, isso já não é notícia. A notícia será outra. O que vai dizer Marcelo sobre as opções económicas e orçamentais de António Costa? Vai continuar a alinhar o discurso com a estratégia dos afetos e da esperança ou vai alertar para os riscos – evidentes – da realidade? Marcelo não quer que o Orçamento entre em vigor no dia 1 de Abril, para evitar as piadas fáceis. Mas as piadas fáceis não são o maior problema. Esta primeira intervenção vai servir também para perceber como será, nos próximos meses, a relação entre Belém, São Bento…e São Caetano à Lapa.

E no fim de semana, a hora mudou. Sabe porquê? A guerra e o carvão ajudam a explicar, como se pode ler aqui no SAPO24.

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