Há 9 anos descobri que tinha um tumor na perna, que, apesar de benigno, iria viver comigo até à menopausa. Iria crescer com o sistema hormonal, com o stress, com o cansaço e até com as mudanças de temperatura. Depois de tratamentos, e de três cirurgias para o tentar retirar, no ano passado, em plena pandemia, ele voltou depois de estar cinco anos tão calado. Nessa altura, depois de ter chorado aquilo que tinha a chorar, disse muito determinada que não queria voltar a ser operada a não ser que fosse para amputar a perna. Pode parecer uma decisão muito drástica, mas isto já tinha sido proposto pela equipa médica na minha terceira recidiva. Mandaram-me para uma consulta em oncologia médica onde me iriam dar todas as hipóteses e, tal como há 5 anos me tinham dito, a menopausa antecipada seria uma das soluções. Agora, voltavam a falar em tratamento hormonal.

Sempre senti que, apesar de ser tão bem tratada por toda a equipa médica, a fertilidade era uma coisa em que nunca se falava ou que nunca se discutia — e nem sequer se perguntavam se algum dia eu poderia vir a querer ser mãe. Mas nessa consulta tinha ido bem preparada e levei uma lista cheia de perguntas para fazer à médica: taxas de eficácia, durações dos tratamentos, efeitos secundários, etc., e quando perguntei “e posso ser mãe?”, a reação da médica foi um sorriso de ironia e, a esforço, lá me falou na congelação de óvulos. Até aí nunca me tinham falado em tratamentos de fertilidade (ou da possível falta dela). Foi através da Acreditar que fiquei a saber da existência deste tema, pois, apesar de este tema já existir na minha cabeça, eu achava que era normal os médicos não falarem nisto.

Lembro-me que uns dias antes de a minha equipa médica se reunir para falar dos tratamentos que ainda me restavam fazer, eu já estava cheia de medo e, enquanto pensava naquilo que mais desejava para o meu futuro, pus-me a escrever o que veio a tornar-se na carta aberta aos meus futuros filhos. Nela digo as seguintes palavras: “(...) A solução que o cirurgião me deu foi fazer o tratamento hormonal, que poderia implicar nunca vos poder ter e essa jamais será uma escolha para mim. Estou então aqui sentada à espera que o tempo passe e chegue até quinta-feira, o dia em que a equipa médica se vai reunir e discutir o meu futuro. Não sei o que é que eles vão decidir, mas para mim o mais importante é garantir a vossa existência! (...)”.

Acho que às vezes as pessoas que nos rodeiam esquecem-se de que nós também somos seres humanos e passam a ver-nos só como doentes oncológicos, como se não tivéssemos sonhos e objetivos a alcançar. Deixam de falar connosco sobre certas coisas e tudo passa a ser cancro. E quando dizes que queres ser mãe olham para ti de uma forma horrível. Acham que seres doente oncológica é ser doente para o resto da vida ou que, ao seres mãe, também vais fazer com que o teu filho venha doente.

Mas os médicos são pessoas informadas, sabem da nossa realidade e sabem que com todo o acompanhamento tudo é possível e é da obrigação deles falarem na fertilidade e na sexualidade connosco, porque esses temas continuam a interessar-nos e a importar-nos, porque há toda uma vida para lá de "doente".

Sentimo-nos incompreendidos, porque pouca gente percebe este desejo, não entendem que, antes da doença, já queríamos ser pais e que depois da doença, com o medo da morte e com medo de que a vida sejam dois dias, há coisas que passam a ter uma importância ainda maior. Ser mãe passou a tornar-se no meu maior sonho.

Os médicos não me falaram da fertilidade? Passei a ser eu a falar-lhes do tema. Os médicos não me falaram sobre futuras alternativas caso não possa engravidar? Passei a ser eu a procurar. E sozinha comecei a ser eu a garantir que o meu sonho um dia se concretize.

Não vivo só para este sonho, não fui amputada só porque fiz birra e decidi que queria ser mãe. Fi-lo por mim, por um futuro melhor e mais saudável, porque também a equipa médica percebeu que seria melhor para mim a longo prazo para não viver com medo do tumor para o resto da minha vida. Mas é claro que o facto de querer ser mãe agora tem muito mais peso em todas as decisões importantes que tenho de tomar na minha vida.

Sei que continuo a ser pouco compreendida por muitos. Sei que os médicos já nem se lembram que quero ser mãe. Sei que metade das pessoas continua a achar que engravidar pode ser impossível ou perigoso. Sei que a outra metade pensa que ainda tenho muito e demasiado tempo para pensar nisto.

Sou uma jovem de 23 anos que começa a usar a sua voz para dar voz a todas aquelas pessoas, principalmente mulheres, que descobriram agora ser doentes oncológicas e que querem ser mães. Quero que elas saibam que eu entendo o medo e o sonho delas e quero que a medicina entenda que a fertilidade e a sexualidade não são temas tabu ou proibidos na doença, que são temas importantes e que têm obrigatoriamente de começar a ser falados.

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A Acreditar existe desde 1994. Presente em quatro núcleos regionais: Lisboa, Coimbra, Porto e Funchal, dá apoio em todos os ciclos da doença e desdobra-se nos planos emocional, logístico, social, entre outros. Em cada necessidade sentida, dá voz na defesa dos direitos das crianças e jovens com cancro e suas famílias. A promoção de mais investigação em oncologia pediátrica é uma das preocupações a que mais recentemente se dedica. O que a Acreditar faz há 27 anos - minimizar o impacto da doença oncológica na criança e na sua família - é ainda mais premente agora em tempos de crise pandémica.

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