É um local que simula a má fama através do mau aspecto. Até por tal fingimento se percebe que este sítio, frequentado por artistas de tantas e tão marginais proveniências, seja pouco (ou nada) dado a tertúlias. Ali não se muda o mundo, nem sequer Lisboa; tornam-se os pulmões mais negros, os banhos mais urgentes, só isso. É um rosto raro da cidade que não é velho, nem hipstérico, nem turístico -  quase uma pérola, não fosse tão encardidamente carvão. Vê-se por lá gente nova, ou semi-nova como os da minha geração, mas é dos menos novos que vou fazer esta história rezar.

Entre a garotada que se alardeia próxima do balcão, costuma estar um senhor cuja idade indefinida pode situar-se entre os 40 e muitos e os 60 e picos. É um bêbedo. Não peço desculpa pela crueza, ou pela franqueza com que o resumo - ser bêbedo é das poucas características que lhe conheço, e não o conheço assim tão pouco. Mas atenuo: é um bêbedo bondoso, não dos maus. É um bêbedo dedicado, próximo do sentido profissional do termo. Faz as coisas de bêbedo (dos bondosos, não dos maus) com uma espécie estranha de rigor, quase método, como se de um excelente actor no papel de bêbedo se tratasse. Executa tudo com o silêncio e o gesticular vincado dum mimo: crava tabaco, simula guitarras em vassouras e faz os piores truques de ilusionismo que já vi. Com os dedos, chama-nos à atenção para a magia que vai executar. Depois são sempre manhas denunciadas, truques com moedas que não chegam a desaparecer. No fim fita-nos com a seriedade exagerada de quem reclama aplausos, admiração e outra cerveja.

Perdoem-me esta introdução esticada, ainda para mais com um tipo anónimo num sítio clandestino. Perdoem também esta grosseria em insistir no “bêbedo” quando falo dum claro alcoólico. Os meus modos esticados e grosseiros são nada mais que uma visão pessoal, compassiva até, que contrapõe a via quase sempre estatística dos vícios. É por isto que fiz o refogado em lume brando: para agora juntar relatos de gente anónima que rapidamente se foi queimando. A moral, de escaldada, só poderá ser boa.

Alguns dos filmes que preferia em miúdo mantêm-se, ainda hoje, na minha predilecção. Muitos deles eram dirigidos por bêbedos resmungões, e incluíam personagem beberrolas num mundo onde, pela época e pela norma, o alcoolismo se ignorava. Em westerns - nomeadamente alguns do John Ford ou do Howard Hawks - as pessoas com problemas com a bebida eram usadas enquanto pontuação humorística, um comic relief. O entorpecimento, a atrapalhação e a sofreguidão em torno do álcool surgiam num descarado convite ao riso. Quedas em bebedouros de cavalos, chapéus enterrados na cabeça a esconder ressacas, pontaria risível com o revólver, ou desmames de whisky feitos com cerveja eram algumas das cenas comuns. Mas afinal, na maioria desses filmes a comédia era só usada para acentuar o drama que chegava: os embriagados que nos faziam rir acabavam por ser vítimas do seu vício, e ficavam expostos à morte ou, pior, à incapacidade de defender quem amavam. Deixava de ter piada. A bebida, que antes garimpara o riso do espectador, era agora uma picareta penosa do fracasso, era a derrota, era o vilão mais devastador. Havia uma lição a aprender, e o arco do sorriso nas nossas caras ficava voltado ao contrário. Uma lição a aprender, e uma compaixão a cimentar.

No mundinho onde cresci, pela época e pela norma, os alcoólicos eram só tidos por bêbedos. Eram também figuras típicas e sobejamente conhecidas, o comic relief da vila. Mas davam azo a lições de compaixão: a população acudia às suas aflições, a população apressava-se a saudar as suas superações, toda a gente chorava se o infortúnio os levasse. Lições duras. Como nos filmes, assim que um personagem embriagado ganhasse o cunho de personagem trágico, o riso do espectador dava lugar ao remorso; as quedas ou as bacoradas brejeiras deixavam de ter piada. Pelo menos até que viesse o próximo bêbedo.

Entre a crença e o optimismo, acho que a minha geração conseguiu filtrar a estupidez e reter a compaixão. Tivemos tudo para isso, tempo e educação. Tivemos ainda bons maus-exemplos. Vimos vidas destroçadas pelo vício e não as quisemos imitar; também ouvimos risos transformados em remorso, óptimos para não serem repetidos. Manter a simpatia, repulsar o escárnio, afastar o vício: tivemos tudo para isso. À boa índole que nos é naturalmente exigida, acrescentaram-se então esses maus exemplos que, em vez de instar à repetição, constrangem ao bem. Não largo o optimismo de que esta crença é fundamentada.

Tal como no alcoolismo, a toxicodependência parecia uma palavra de telejornal. Eram “drogados” que existiam por perto – num número esmagadoramente inferior ao dos bêbedos, mas geracionalmente mais próximos de mim, e com muito menos risos à mistura. Os drogados não eram os meus colegas que fumavam charros, eram antes o primo de alguém, o irmão mais velho de alguém, o tio mais novo de alguém. A faixa etária estava ali entre a minha e a dos meus pais e, por norma, era malta que do fumo ou do cheiro tinha passado e acabado no chuto. Pela imagem esquelética e escoriada lembravam zombies, gente com uma existência esvaziada. Para todos os efeitos, eram o espelho duma vida sem esperança, os poster boys grotescos duma geração a perder-se. O legado que me chegou é tão poderoso quanto triste: não há panfleto mais chocante e eficaz para uma geração do que ver a anterior a perder-se, nem há compaixão mais avisada do que aquela que nos confronta com o nosso próprio futuro.

Se é verdade que o consumo de drogas diminuiu em Portugal nos anos após a descriminalização, a minha teoria também atenta para uma coincidência geracional: o consumo diminuiu entre as pessoas da minha idade - aqueles que estão mortificados pelos “zombies” que os antecederam. Somos uma geração naturalmente avessa a certos narcóticos. Infelizmente, não vejo melhor maneira de demonizar o uso de drogas duras do que ter conhecido os pobres diabos que as consumiram. Foi por isso um choque aperceber-me que muitos miúdos não têm semelhante aversão, e que compram um grama de coca com a mesma naturalidade com que os putos do meu tempo iam para a mata fumar erva.

Posso estar muito enganado quando baseio esta análise na experiência pessoal, mas eu tinha avisado o contraponto à estatística, e não me parece má a conclusão a que irei chegar. No “Relatório Europeu sobre Drogas” revelado ontem notavam-se, entre outras coisas, maior procura e disponibilidade de cocaína, aumento das mortes por overdose e crescimento do consumo de heroína. Portugal, não sendo digno de nota ou especial alarme, acompanhava estas tendências. A desinibição dos mais novos com drogas pesadas que denunciei não me parece um factor explicativo a ignorar. Mas e a desinibição, quem a explica?

Creio que a estes miúdos faltou a decadência do primo de alguém, do irmão mais velho de alguém, do tio mais novo de alguém. Faltaram os poster boys de gente acabada, a desmotivar os que querem começar. Faltou isso tudo, graças a Deus. Mas e nós, gente da minha criação: já que não fomos bons maus-exemplos, como é que podemos ser bons bons-exemplos? Se não temos uma vida devastada para oferecer, que sucedâneo alarmista é que arranjamos? Na verdade, não creio que isto vá lá com metadonas. Inspiradores, modelares e compassivos - isso sim, é uma missão como deve ser.

Neste momento devo ser a pessoa mais careta à face da terra: indicio um discurso anti-drogas e ainda acabo por rebater na tecla mais choninhas - a da compaixão. Compaixão pela garotada que se tresmalha, compaixão pelos que são antigos no tresmalhar. Compaixão ao não encurtar os parágrafos sobre aquele velho bêbedo anónimo num bar clandestino. Eu, que sei o nome dele, da próxima vez vou querer que aprenda o meu. Não é por nada. Pode ser que ele me reconheça na rua, fora daquele sítio decadente. Pode ser que eu passe só a reconhecê-lo fora desse sítio.

Sítios certos, lugares certos e o resto

“Medida emblemática” tão boa que devia passar de emblema a brasão, e figurar num museu de heráldica.

Festas de Lisboa têm que ter sardinha achada.

Se o Millwall subir de divisão, todos ao Marquês!

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