Fiquei sem chão.

É a expressão muitas vezes usada pelos pais para descrever o momento em que souberam da notícia da doença do filho. É o momento da notícia inesperada e, acima de tudo, indesejada. É o começar de um sofrimento ímpar e desmedido pelo cuidar diário de um Ser que é, provavelmente, alvo do maior amor do mundo por parte dos pais e para o qual se deseja o melhor do mundo. Toda a estrutura familiar se altera. Os outros filhos, no caso de existirem, ficam a cargo de familiares e amigos. Alguém tem de deixar de trabalhar. As despesas aumentam.

Há heróis sem capa? Os mais pequenos, apesar da doença, são na maioria das vezes a maior fonte de força dos pais. No auge da sua ingenuidade, soltam sorrisos fáceis desde que não estejam a sentir dor. Estas crianças são forçadas a viver uma infância diferente, longe do pó do recreio da escola. Brincam aos médicos como se fossem gente grande. Sabem termos técnicos que muitos adultos desconhecem e enfrentam com coragem diária as intervenções médicas a que são submetidos. Sim, há heróis sem capa.

O mundo virado do avesso!

Ser adolescente ou jovem é sinónimo de energia, de vitalidade, das primeiras paixões, das idas ao cinema com os amigos, dos primeiros concertos... Saber que se está doente acontece de repente. Implica lidar com um interregno, com um imprevisto, com a necessidade de fazer uma pausa nos sonhos por tempo indeterminado. Ao contrário dos mais pequenos, estes sim conseguem ter uma plena consciência e compreensão da doença, estando a informação que desejam à distância de um clique. A imagem altera-se. A rotina altera-se. E a expectativa não corresponde à realidade. Nalguns momentos, a revolta apodera-se do dia-a-dia movida pela angustiante pergunta “Porquê a mim?”. Noutros momentos, a vontade de superar a doença é tão forte que gera uma incrível força e uma surpreendente capacidade de resiliência perante a doença.

Discretos protagonistas.

Sem culpas, os irmãos, tal como qualquer outro elemento da família, sofrem à distância pelo irmão e por si próprios, por aquilo que mereciam e não podem ter por enquanto – colo dos pais, brincadeiras a meias com o irmão ou uma simples ida à praia em família. São os mestres em tolerância e, muitas vezes, o recurso inesgotável de força e esperança para o irmão doente.

No final de tudo isto, há quem olhe para trás e diga que na sua vida existe um a.C. e um d.C. Antes do Cancro e Depois do Cancro. Neste d.C, a contagem do tempo é mais lenta, o urgente deixa de ser tão urgente, o foco está nos detalhes e a lista das prioridades assume uma nova organização. Qual é o novo sentido das coisas? Celebrar freneticamente a dádiva de viver.


A Acreditar, Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro existe desde 1994. Presente em quatro núcleos regionais: Lisboa, Coimbra, Porto e Funchal, dá apoio a todos os ciclos da doença e desdobra-se nos planos emocional e social. Com a experiência de quem passou pelo mesmo, enfrenta com profissionalismo os desafios que o cancro infantil impõe toda a família. Momentos difíceis tornam-se possíveis de viver quando nos unimos.

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