ANTÓNIO. Há dias, aconteceu-me ouvir António Lobo Antunes a falar de José Cardoso Pires. Um escritor dado a provocações parecia ali um menino feliz com saudades do grande amigo. Não, tenho de ser mais preciso: Lobo Antunes era mesmo um menino feliz com saudades do amigo.  

BRINCADEIRAS. Ora, nesse relato do escritor, o que mais importava eram as coisas sem importância. As brincadeiras entre dois amigos. Conversas repetidas. Piadas que só nós entendemos. Discussões sempre à volta de tudo e, claro, de nada. Malandrices que nos unem num círculo íntimo e nos separam do resto do mundo.

CORPO. Os amigos querem-se perto de nós. Pois se nem sempre pensamos nisso, a amizade também precisa do corpo inteiro de cada um. Um aperto de mão, um piscar de olhos, um beijo — e o cheiro, o movimento, o exacto ritmo dos passos daquela pessoa. E, claro, o abraço.

DISCUSSÕES. Os bons amigos discutem. Mas os bons amigos acabam a discussão, encolhem os ombros e transformam as desavenças em mais um motivo de conversa e gozo (a vida, lá está, não é o Facebook).

ESQUECIMENTO. Às vezes, não telefonamos. Às vezes, desaparecemos. Tudo isso é real, mas os bons amigos encontram-se e continuam no mesmo sítio onde estavam, mesmo que passem dias, semanas, meses. Às vezes, até passam anos.

FOTOGRAFIAS. A compulsão de tirar fotografias agravou-se com esta história do digital. Já não gastamos rolo, gastamos um espaço que nos parece infinito. Mas porquê? Porquê tantas fotos, tantas delas tão más? Não teremos vida para olhar por mais de um décimo de segundo para as fotos que tiramos. Mas continuamos a encher os discos de imagens repetidas. Porquê? Não queremos perder nada. Queremos agarrar os segundos todos — eles fogem, mas tentamos.

GOZO. Entre amigos, vale tudo. Gozamos, humilhamos, rimo-nos com os outros e às vezes dos outros. Nem sempre é algo que passa — há dias em somos cruéis e nem percebemos. Outras vezes, percebemos e somos cruéis na mesma. E, mesmo assim, somos amigos.

HISTÓRIAS. Contamos sem parar as mesmas histórias. Quem entra num grupo de amigos fica a pensar que o rei vai nu: aquelas histórias não têm interesse nenhum. Ah, mas não interessa. Passa um ano e contamos de novo. E o dia em que essa pessoa se ri daquilo que já ouviu milhentas vezes é o dia em que já faz parte dos nossos.

INFLUÊNCIA. Parece ser um facto da vida que os pais andam sempre preocupados com as «más influências». Ah, mas as más influências são sempre os outros. Os nossos filhos são sempre os pobres dos influenciados. Ora, apesar de me deixar o coração apertado ao pensar nos meus filhos, a verdade é que, entre amigos, são os dias em que nos puxamos para os maus caminhos que nos levam às histórias de que, um dia, teremos saudades.

JARDIM-ESCOLA. Achamos que, no jardim-escola, os miúdos são «amigos» com aspas. Ora, o Simão, o meu filho mais velho, tem seis anos. Há dois anos, viu um dos melhores amigos mudar de escola. Ora, numa idade em que ainda está a aprender a falar, nunca se esqueceu dele. Nestes últimos dias, esse amigo voltou, só para as férias de Natal. A felicidade daqueles dois aos saltos a matar sem compaixão as saudades de dois anos foi uma coisa que me deixou sem palavras. E quando perguntei ao Simão se ainda se lembrava de brincar com ele todos os dias, disse-me: «Claro, os melhores amigos não se esquecem.»

LIMPEZA. De vez em quando, convém limpar os contactos do telemóvel, essa lista de amigos, inimigos, conhecidos… E assim descobrimos que nos esquecemos daquela pessoa, que nunca recebemos a resposta daqueloutra, que há nomes que já nem associamos à cara. Mas, depois, indistintos no meio da lista dos nomes, há aquelas caras que estão sempre ali, que fazem parte da nossa vida como família. E não é, como se diz por aí, a família que escolhemos: afinal, os amigos não se escolhem — acontecem-nos.

MÚSICA. Poucas coisas unem grupos de amigos como a música. Nem sempre é por ouvirmos a mesma canção. Também é porque a música nos obriga a passar horas a discutir os gostos errados de quem temos à frente (os gostos são precisamente aquilo que se discute). Ah — e o prazer de andar aos saltos num concerto? Ou de partilhar uma descoberta duma canção qualquer que será para sempre inesquecível?

NOITE. Em certas idades, passamos o dia à espera da noite. A luz demasiado forte e o som a atropelar-nos dão-nos a sensação de estarmos a viver o que nunca ninguém viveu. Depois, chegam as idades em que gostamos mais de estar sossegados a conversar, de dia ou de noite — e ainda as idades onde a noite é mesmo para dormir (quando temos sorte). E não é que há amigos que nos acompanham nessas idades todas e, se antes dançavam ao nosso lado, agora conversam sobre fraldas e coisas dessas?

ÓDIO. Isto da amizade não são só coisas bonitas. Nada do que importa é completamente agradável. Afinal, as conversas à solta entre amigos têm, em certos momentos, uma crueldade que nos custa reconhecer. Faz parte da vida — dizem.

PARTIDA. Há sempre os que vão — ou porque mudam de país e a amizade muda (às vezes para melhor); ou porque desaparecem mesmo.  Há ainda amigos que se perdem em explosões que deixam marcas mais profundas do que qualquer namoro acabado.

QUEIRÓS. Eça, claro. Porquê? Porque tem um dos grandes livros sobre a amizade. Não é comum dizer isso d’Os Maias, mas o par que protagoniza o romance é mesmo Carlos e Ega. Tudo o resto são histórias para recordar, anos depois, entre risos, a correr pela cidade.

RIDÍCULO. Os amigos são também aqueles com quem fomos ridículos. As bebedeiras, as gritarias, os desaires, as vaidades, os defeitos. Os amigos salvam-nos do medo do ridículo (o mais ridículo dos medos).

SILÊNCIO. Não sei se o meu caríssimo leitor concorda, mas quando não conhecemos bem outra pessoa é difícil estarmos com ela em silêncio. Sabemos que somos amigos no dia em que nos vemos calados — um a ler, outro a pensar na vida. Os bons amigos sabem estar juntos, de vez em quando, sem falar.

TCHIM-TCHIM. A amizade também tem rituais. Os jantares de aniversário, as visitas aos filhos, as piadas que dizemos sempre ao pé daquele amigo em particular. Brindemos também a isso na mesa de Natal.

ÚNICO. É um pouco estranho usar uma só palavra para descrever estas relações todas. Desde aquela pessoa a quem telefonamos horas a fio ao amigo com quem conversamos sobre futebol e pouco mais dizemos, há tantas diferenças. Cada um daqueles nomes na lista do telemóvel é único (mesmo quando estamos a passar pela zona das Anas ou das Marias — que em Portugal são mais que as mães).

VOZ. Disse acima que a amizade é mais física do que por vezes pensamos — pois há também o timbre da voz do nosso amigo, a particular maneira como o ar vibra quando ele fala.  

XAROPADA. A letra X é um problema nestes textos feitos de A a Z. Vou agora confessar o que fiz, em pânico, com o texto já escrito — faltando apenas esta penúltima letrinha. Pus-me a ler listas de palavras começadas por «x». Comecei a transpirar. Nada! Nada de nada! Será que teria de passar à frente, como faço com as letras pouco portuguesas («k», «w» e «y»)? Ah, foi então que vi a famosa «xaropada». Que tem isto que ver com os nossos amigos? Ora, faz parte dos tais rituais da amizade passar por umas quantas xaropadas. Ver fotografias de viagens que não fizemos, ir a baptizados intermináveis, ler textos enormes no Facebook (ou fingir que se lê), conversar sobre política com o tio do amigo numa qualquer festa de aniversário… Ser amigo também é isto: aguentar as xaropadas — e pagar com a mesma moeda à primeira oportunidade.

ZÉ. Termino onde comecei: na recordação intensa de um amigo morto, ou seja, nas palavras comoventes de António Lobo Antunes — ele não é só o escritor de génio ou o menino traquinas que conhecemos das entrevistas. É também o amigo de José Cardoso Pires. Depois de o ouvir, imaginei-os, há muitos anos, a fugir pelas ruas de Lisboa de um grupo furibundo de crentes na santidade de Sousa Martins. Lembrei-me das alhadas em que me vi metido com os meus amigos. Não pude deixar de imaginar as traquinices futuras do meu filho com os seus amigos. A essas pessoas que vamos encontrando pela vida reservamos uma espécie de amor cheio de conversas sem tino, horas ridículas, patetices comoventes e uma estranha crueldade que nos aproxima — até que descobrimos que não sabemos viver sem elas.


Marco Neves | Tradutor, professor e autor. Escreve sobre línguas, livros e outras viagens no blogue Certas Palavras. O seu livro mais recente é o Dicionário de Erros Falsos e Mitos do Português.

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