A eutanásia é o assunto do momento que tem gerado debate na sociedade. Devo desde já dizer que sou contra tudo o que seja batota e, a meu ver, eutanásia é querer saltar um nível logo para defrontar o boss final. Quantas vezes não estava a jogar Prince of Persia e decidia saltar o nível 11 – que era muito complicado – para o 12 que era o último? O que acontecia é que chegava ao 12 mais mal preparado e mesmo acabando o jogo ficava com uma sensação de que tinha feito batota e, por isso, com uma satisfação menor. A eutanásia é isso, é batota. É querer ir logo ter com o Deus – que é o último boss do jogo da vida – para a última missão antes de desbloquearmos tudo e podermos andar só a brincar em free roam no Além para toda a eternidade.

Mais do que batota, eutanásia é uma falta de respeito para com Deus.  Pedir a morte antes do tempo é como mandar para o lixo uma prenda que alguém nos deu. Se Deus nos oferece uma doença tramada, terminal e cheia de sofrimento, vamos rejeitar? Há que ter respeito pelo Pai Natal do cancro e de outras doenças. Deus não oferece doenças à parva, Deus escolhe e seleciona a melhor doença para cada um de nós, Deus investe e perde tempo nesse processo e, muitas vezes, até cria uma doença nova só para nos surpreender com o presente. Imaginem que perdem uma semana a comprar uma prenda a alguém e quando a oferecem, essa pessoa diz que gosta muito, mas depois vocês vão ao lixo e vêem que a deitou fora. Gostavam? Não? Então não pratiquem eutanásia e aproveitem todo o sofrimento que Deus vos deu.

Além disto, e tal como num jogo em que decidimos não fazer alguns níveis, o problema da eutanásia é que vai dar origem a uma alma sem preparação para a eternidade. Sofrer com uma doença terminal é o ginásio da alma. Custa, não apetece nada às vezes, fica-se com dores, sofre-se, mas “no pain no gain” e a alma sai fortalecida. Com a eutanásia, a alma não treina tanto porque é-lhe dada a opção de desistir e todos sabemos que desistir é muito mais fácil. Eutanásia é uma alma que pagou a anuidade do ginásio e só vai lá no primeiro mês.

Temos de pensar no futuro e nenhum de nós quer chegar ao paraíso com uma alma toda fraquita, com pernas de cegonha. Queremos uma alma forte e o que não nos mata torna-nos mais fortes, logo a eutanásia, que mata, não fortalece o espírito. Os padres são uma espécie de personal trainer da alma que motivam as pessoas a sofrer para a alma ficar mais forte. São essenciais, porque quando pensamos estar no limite, há sempre um padre a motivar e a dizer “Aguenta, isso, aguenta, mais uma repetição, tu consegues, não desiste agora, não desiste. Vá, não esquecer de alongar a alma no fim do treino e nada de tomar eutanásia que isso é batota, olha que ainda ficas com um choque séptico na alma por causa da agulha da injecção letal.”.

Mesmo o testamento vital é um perigo. Como sabemos nós que a pessoa, depois acamada, entrevada, vegetal e sem conseguir comunicar não lhe está a saber bem? Pode ter mudado de opinião e estar ali bem confortável a ouvir a Cristina Ferreira numa cama de hospital e a adorar os banhos de esponja. Imaginem que mudou de opinião e não consegue dizer? É um perigo. Já viram algum doente em estado vegetativo a queixar-se que está mal? Pois, exacto, se calhar pode estar a gostar da experiência.  Se eu tiver alguma doença terminal ou totalmente incapacitante, deixo aqui, desde já, a minha vontade de que me mantenham ligado à máquina até me começarem a crescer cogumelos nas dobras dos joelhos.

Por isso, a todos os que estão a sofrer, com dores que não conseguem suportar, com uma dignidade da qual pouco resta, ou a todos os que têm entes queridos nessa situação e não podem aliviar-lhes a dor, não queiram a eutanásia. Oiçam antes o que eu digo, eu que estou aqui saudável e pronto para as curvas, que a única dor que tenho são cólicas de gases, às vezes, represento-vos bem. Aguentem. Sofrer é bom, um gajo fica com a alma rija e vamos precisar de uma alma forte para ter uma eternidade feliz. Bons cuidados paliativos a todos, até que a morte (natural) vos separe do vosso sofrimento.

Para ir: Espectáculo de stand-up comedy, em Águeda, dia 7 de Março. Bilhetes aqui.

Para ver: Filme Clara e Claire

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