Fernando Santos, selecionador nacional de futebol é um homem de Fé. Uma Fé que publicamente reconheceu ter começado depois de algumas “fezadas” que teve no início da carreira de treinador, no Estoril-Praia.

Fé em Deus, descoberta já com os seus trinta e muitos anos, levou-o a proferir, por diversas vezes, uma frase que viria a ganhar projeção mediática no último campeonato de Europa de futebol: “não confundir fé com fezada”. Ele tinha Fé, sim e está comprovada numa carta que escreva antes da prova. Mas nem o mais otimista cá do burgo tinha qualquer grama de fezada no que vivemos, sejamos honestos.

França. Não vou falar da França que foi recentemente a eleições e em que a Frente Nacional recolheu 11 milhões de votos, deixando (?) muitas almas descansadas. Falo da tal seleção “maldita” que viria a cair aos pés da equipa das quinas, numa final marcada pela lesão de Cristiano Ronaldo e pelo pontapé certeiro de um tal de “patinho feio” chamado Eder. O tal “que os f...”, uma celebração de um golo que virou cântico futebolístico nacional.

Futebol é, quer queiramos, quer não, um terreno fértil para que Fé e fezada se misturem. Foi sempre assim, reconheçamos. E será assim este fim-de-semana. Digo de seguida onde.

Fátima. São os 100 anos das aparições, os milagres, os segredos e os três Pastorinhos. Mas é também o Centro Desportivo de Fátima, clube por onde já passou Rui Vitória, atual treinador do Sport Lisboa e Benfica, defesa direito da equipa da Luz, Nélson Semedo ou o médio leonino William Carvalho. Os três treinaram no Estádio Municipal que hoje ganha o nome de Estádio Papa Francisco. O momento será assinalado com o desterrar de uma lápide após o Sumo Pontífice aterrar no recinto desportivo que levará de agora em diante o seu nome. A prova de fogo no que toca às questões de fezada (ou Fé) surge logo no dia seguinte, 14 maio, em que será palco da última jornada do Campeonato de Portugal Prio que, pode ditar a subida do Fátima à segunda Liga. Uma subida que não depende de milagres, antes de uma conjugação de resultados. Fezada entra, assim, no campo do futebol, em Fátima e com o Fátima, num local onde a Fé grita mais alto.

Fazendo fé nas declarações do dirigente do Fátima, o Padre António Pereira, este confidencia, no entanto, não terem sido consultados nem convidados para o momento solene no Estádio que servirá de base de segurança da visita Papal e lamenta igualmente não ter a possibilidade de entregar um cachecol a Jorge Bergoglio, adepto confesso de futebol.

Francisco entra em campo. A visita do Papa e a canonização coloca Portugal, a partir de hoje, no centro do mundo católico e não só. Presidirá à cerimónia de canonização dos beatos Francisco e Jacinta Marto, os mais jovens santos não-mártires. Tudo em menos de 24 horas.

Função Pública agradece e lá teve o seu “diazito” para ir em peregrinação. E outros fazem a sua “grevezita”. Antes e depois porque há hábitos que não mudam.

Fim de semana não se esgota, no entanto, com a visita Papal e com o Centenário das Aparições. E a 13 de maio o país inteiro estará de olhos postos e de ouvidos colados na bola redonda. Mas não só.

Futebol a norte e a sul promete dividir o país. Benfica poderá sagrar-se campeão e, desta forma, os festejos rivalizarem com as manifestações de Fé.

Festa, essa, parece estar já marcada para a Praça Marquês de Pombal, em Lisboa. Claro que haverá quem reze para que tal não suceda, mas também há quem chame Nossa Senhora como foi o caso do humorista Miguel Lambertini. Numa produção que contou com uma aliança de um sportinguista com um portista (terá sido profecia?) e que apelou igualmente à ajuda divina para um artista de nome Salvador que terá a sua aparição na noite de sábado, em Kiev, num festival em que a música deveria sentar os povos lado a lado mas que a política decidiu separar.

Festival da Canção, cuja fraca participação portuguesa tem sido o nosso fado (leia-se fatalidade) poderá, não tanto pelas preces do humorista, mas seguramente pelo burburinho que o representante luso tem provocado, conhecer, finalmente, outro dos significados da palavra fado: destino. Um fado bom, digamos, e esperemos, que não se repita a triste sina. Algo que ajudará a animar a mais popular rede social que nos dias que se seguem deverá andar estafada de utilização em Portugal.

Facebook. Sim, essa mesmo que estava a pensar. Mark Zuckerberg poderá perguntar o que se passa com Portugal. A resposta é simples: resume-se a um fim de semana particularmente intenso de Fátima, Futebol e Fado sendo que este último é mais uma espécie daquele género de música que nos popularizou mundialmente e que estará no Festival da Canção. Pelo Facebook devem circular selfies de milhares de peregrinos, da previsível festa dos “diabos vermelhos” e milhares de comentários sobre Salvador Sobral que andarão entre o “eu sempre disse que ele ia ganhar” e o “eu já sabia que ia ser uma vergonha”.

“F”. Efe de Fátima, de Futebol e de Fado. Os três efes parecem estar de volta a um país de onde nunca saíram. Tenha tido origem nos anos 60 do século passado ou não passe de um mito que nasce após a revolução de abril de 1974, aparecem com nova roupagem e com outros efes à mistura, que vão ganhando protagonismo. Eusébio e Amália foram substituídos por Cristiano Ronaldo (e cada qual pode acrescentar um cromo da sua cor clubística – André Silva, Renato Sanches ou Gélson Martins) e por inúmeras novas vozes (Ana Moura, Gisela João, Mariza, Cuca Roseta, Carminho, António Zambujo, Camané, Katia Guerreiro e Ricardo Ribeiro, entre outros). A história dos Três Pastorinhos, essa, mantém-se inalterada.

Fátima, Futebol e Fado, conhecem os seus novos “irmãos gémeos”. Festa, fezada, Fé, Festival da Canção. Tudo somado e devidamente retratado naquilo que o Facebook tem para mostrar. Este é o próximo fado de um país que vive muito do faz-de-conta, que financeiramente canta que está melhor, mas que não deixará de andar a reboque do que Frankfurt (onde está o BCE) ou a Fitcht’s (agência de rating) desta vida ditam.

Fim.

Sugestões:

Blog sobre Fátima, Futebol e Fado

Nasci, como muitos, a ouvir que Portugal é um país de “três efes”. Devoto a Fátima, apaixonado por Futebol e historicamente marcado pelo Fado. Um olhar de dois historiadores — Francisco Pinheiro e Ricardo Serrado — que vai um pouco mais além da conversa de café.

Livro: “Submissão” | Michel Houellebecq

Uma leitura provocadora sobre um cenário que decorre nas eleições em França, em 2022, entre o candidato da Frente Nacional, Marine Le Pen e um candidato muçulmano (Ben Abbes, da Fraternidade Muçulmana). Com a ameaça da direita radical, Abbes recebe na segunda volta o apoio de uma coligação alargada de esquerda. Apresentado como moderado e capaz de salvar a França da xenofobia e da intolerância, leva à transformação da França que, aos poucos, se entrega ao Islão.

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