Não são todas as anástrofes que me causam pruridos. Sei conviver bem com anástrofes pessoanas, ou camonianas, por exemplo. Também não me encho de erupções cutâneas a cada frase traduzida do Master Yoda – este personagem da Guerra das Estrelas sofre duma dislexia anastrofizada. Ou seja, tenho uma alergia selectiva que passarei a explicar, não sem antes relembrar os mais esquecidos do que é uma anástrofe.

Vou dar uma definição pouco meticulosa. Basicamente, estou a falar dum recurso estilístico onde se trocam de lugar os elementos duma frase, mas sem que esta perca o sentido. Mudam-se as palavras do sítio, retiram-se da ordem mais natural, e o significado da mensagem não se perde, nem se atabalhoa. Eu posso dizer o que é uma anástrofe, mas também “dizer o que é uma anástrofe, eu posso”. Sigamos em frente (ou, com a anástrofe, “em frente sigamos”).

Esta figura de estilo facilita a escrita de poesia - a possibilidade de rearranjar as palavras dentro duma frase consegue, sem dúvida, abrir mais soluções para que o poeta alcance a métrica ou a rima pretendidas. Mas, já que há pouco falei no Pessoa, há que referir que a virtude da anástrofe não é o facilitismo, muito pelo contrário: Pessoa, e outros dos bons, usam várias vezes este recurso linguístico para causar efeitos climáticos dentro do texto, para criar efeito surpresa num verso. Quase como um cineasta competente, o bom empregador de anástrofes muda a ordem natural da frase de forma a atingir ordem dramática – filma de fora para dentro, e atinge o centro da acção na altura em que ela causa mais arrepio; escreve o verso de forma a que a tensão se acumule até ao fim da frase, até chegar à palavra que rime, até à sílaba tónica mais cativante.

Ora, a minha alergia é tão somente a isto: à anástrofe vulgar na escrita de canções. Tem sido usada e abusada como um atalho, mas um atalho sem história, simplório e inglório, gasto, usado em vez de ousado. O meu amigo Tiago Guillul cantava “porque é que não escreves sem muleta, mas com caneta?”, e é nisso que a anástrofe se tornou: numa muleta. Se enterramos o pé da canadiana num poema, não há como negar a evidência: versejamos coxos; temos dificuldades motoras na nossa escrita.

Como é que funciona este esquema que tanto me mói? É simples (aliás, a minha embirração é com a simplicidade) – com a anástrofe, muda-se a ordem de frases para que os verbos no infinitivo passem para o fim. Por exemplo, em vez de dizermos “Eu vou amar-te para sempre”, optamos por um “Para sempre eu vou te amar”. Em vez dum “Eu sei que vais gostar de mim”, optamos pelo “De mim eu sei que vais gostar”. Estas frases, já simples de origem, passam para um simplismo flagrante. Terminam com palavras acabadas em “ar”, que são de rima óbvia e exigência frouxa. O grau de dificuldade para emparelhar verbos no infinitivo está ao nível, por exemplo, da paupérrima rima com diminutivos (que acabam quase todos em “inho” ou “ito”). “Amar”, “desejar”, “gostar”, “mudar”,”cantar”, etc, são vocabulário comum em canções românticas e provam, não tanto um autor muito apaixonado, mas um autor muito apressado em despachar as rimas.

O que há de errado nisto? Absolutamente nada. É correcto, legítimo e até funcional. Não escolhemos as alergias que temos, tanto que já me vi obrigado a engolir o orgulho, coçar a brotoeja, e escrever anástrofes indesejadas em algumas ocasiões – depois de todas elas apeteceu-me tapar a cara com o casaco, como os réus em frente às câmaras, naquela distância entre a carrinha da polícia e o edifício do tribunal. Não é condenável, a anástrofe, mas o seu uso corrente contraria a virtude que eu mais refiro para elogiar a nossa língua; gabo-me de que o idioma português é magnífico por ser difícil, e a anástrofe desautoriza-me.

A Língua Portuguesa (que é a única coisa que me arranca um patriotismo convicto) torna-se esplêndida na dificuldade que oferece. Digo-o pelo meu ofício diário, onde cada sílaba lusa cantada tem um grau de comprometimento que 500 terabytes de música anglófona podem não oferecer. O português não é líquido como o inglês, não tem a maleabilidade para preencher espaços diversos. É antes como um puzzle, onde cada palavra tem o seu sítio destinado para encaixar (excepto se encaixarmos a martelo, o que infelizmente não é raro). Isto aplica-se à forma e ao conteúdo, e por isso gosto de imaginar que cada palavra nossa é uma assinatura - se está escrita, está oficializada e ficamos-lhe contratualmente obrigados. Com línguas francas, tudo pode ser descartável; com língua lusa, tudo tem de ser franco. 

Assumido o ideal da dificuldade, não há sabor mais doce que o da superação. Escalar uma montanha difícil - é esse o gozo de escrever letras de músicas em português. Daí que, nisto das figuras de estilo, sempre me pareceu infeliz que as usássemos como as tais muletas, e não como equipamento de alpinismo. A diferença está entre apoiar o nosso peso gordo e inábil numa bengala tosca ou, por outro lado, tentar escalar uma montanha muito maior, mais rigorosa e mais bela do que nós. O resultado final nem tem de parecer intrincado ou complexo, mas sim polido, honesto e nunca desleixado. Tem de comprometer quem escreve. Não levem a mal esta presunção que, no fundo, é apenas uma confissão – dou-me ao luxo de não ser preguiçoso nisto só porque sou preguiçoso em quase tudo o resto.

Na próxima semana prometo desdizer praticamente a totalidade do que aqui acabei de imprecar a estas figuras de estilo. Bastou uma canção de uma jovem cantora e compositora portuguesa para que as minhas ideias se alvoroçassem; depois conto. Na próxima semana continuarei com pulmões frágeis, mas o estômago estará forte para digerir anástrofes.

SÍTIOS CERTOS, LUGARES CERTOS E O RESTO

Trago apenas uma recomendação para esta semana, e vem com ferroada. A série “O Mecanismo” está a pôr a opinião pública brasileira de pantanas, e o motivo é bastante imbecil. Gente que eu admiro (o grande Chico César, por exemplo) está embrenhada em comentários patetas, e a fazer apelos ao boicote da Netflix. Nem vou entrar na conversa da liberdade de expressão, porque julgo não ser para aqui chamada – isto é apenas maniqueísmo estupidificante de alguma esquerda brasileira, que teima em dividir o mundo em duas facções: os maus de um lado, os esquerdistas do outro.

Acusam a série de ser tendenciosa e de querer atacar o PT – nada mais ridículo: a série é muito crítica do oportunismo da direita no geral, mais até que o da esquerda. Mas, céus, sugere que a Santa Presidenta Dilma e o São Presidente Lula estão envolvidos no Lava Jato, que crime! Que coisa tendenciosa e propagandística! Altura de apelar a outra santa, a Santa Paciência.

Onde é que está o endeusamento da direita, afinal? O retrato dos polícias não é positivo. O Sérgio Moro é apresentado como um justiceiro narcisista. Temer é uma figura diabólica a despontar. Aécio Neves é exposto como o maior verme na trama. Os grandes capitalistas brasileiros são retratados como um cartel desumano. Ainda assim, anda a esquerda a lamuriar-se das tendências panfletárias do direitolas José Padilha (criador da série). Oh pá, até compreendia se este coro de queixinhas fosse a reclamar do facto do José Padilha ser um realizador sobrevalorizado.

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