Há dias entrei numa repartição de Finanças em Lisboa e, enquanto estava a ser atendida por um funcionário, outro desesperava na mesa ao lado: "Mas isto demora assim tanto tempo?! Cada vez que dou uma ordem ao computador ele fica meia hora a 'pensar'", irritava-se com razão.

Um terceiro funcionário, que me pareceu ser seu superior hierárquico, aproximou-se por trás, deu-lhe uma palmadinha nas costas e respondeu: "Vê-se mesmo que é o teu primeiro dia. Tens de ter calma, senão não vais aguentar nem uma semana. Vê lá se tomas um Xanax antes de vir para o trabalho". E lá continuaram todos na sua - na nossa - vida.

A palavra digital aparece 120 vezes no programa eleitoral do Partido Socialista para 2022. Decido fazer uma pesquisa no Google por "orçamento para a modernização administrativa". Logo à cabeça, um vídeo em que o secretário de Estado da Digitalização e da Modernização Administrativa, Mário Campo Largo, que trabalha na dependência directa de António Costa, explica: "No futuro vai ser mais fácil aceder a todos os serviços públicos".

"No futuro", porque é sempre amanhã, mesmo quando o líder do governo é o mesmo há oito anos. Também não deixa de ser curioso um executivo demissionário estar o publicitar o que vai ser feito no próximo ano, sabendo que poderá ou não ser governo nessa altura - e ainda que o Orçamento do Estado para 2024 tenha sido aprovado ontem (já com partidos a falar em orçamentos rectificativos).

Mas, de volta a "O Orçamento num minuto" de Mário Campolargo. Ao que parece, serão inauguradas oito novas Lojas do Cidadão e 65 novos Espaços Cidadão em 2024. Até aqui, mais do mesmo, muito pouco de digital e ainda nada de transição. De repente, a novidade: "Para o ano será lançada a 'APP Única do Cidadão', uma aplicação móvel que funciona praticamente como uma Loja do Cidadão no seu bolso".

Se a App é de facto tão extraordinária, não percebo exactamente a necessidade de mais oito Lojas do Cidadão e 65 Espaços do Cidadão, mas imagino que o secretário de Estado e o governo tenham uma boa justificação para isso.

Como a transição digital é uma das três prioridades inscritas no PRR - Plano de Recuperação e Resiliência, que deu a Portugal 22,2 mil milhões de euros, consulto o programa das festas - para verificar, com susto, que só 13% dos objectivos foram executados até agora.

Foco-me na Transição Digital, à qual estão alocadas verbas de mais de 2,7 mil milhões de euros, mais concretamente na componente "Administração Pública Mais Eficiente", e vejo que estão previstos investimentos de 153 milhões em serviços electrónicos e infra-estruturas digitais e 276 milhões em formação de trabalhadores e atendimento dos serviços públicos. Não devia ser ao contrário?

Imagino que tenha sido assim que chegámos a este número: 745.582 funcionários públicos em Portugal no segundo semestre deste ano (eram 659.138 no final de 2015, quando o primeiro governo de António Costa assumiu o poder). Os dados são da Direcção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP).

Escusado dizer que nada me move contra os funcionários públicos. Já conheci (e conheço) profissionais fantásticos e dedicados, como também me cruzei com gente mesquinha e incompetente.

Não sei dizer ao certo se há funcionário públicos a mais ou se estão apenas mal distribuídos. O que posso dizer é que a qualidade e a eficiência dos serviços públicos deixa muito a desejar e não tem melhorado, antes pelo contrário (é ver o número de queixas). Se a culpa é do homem ou da máquina? Provavelmente de ambos.

Mas há uma máquina que não vem na Transição Digital nem em todo o PRR e que precisava de ser muito mais moderna e bem oleada, a máquina de fazer políticos. E de fazer política. Não sei como quem está na política quer ser lembrado para a história, mas as memórias mais recentes não são boas.

Era bom que os políticos tivessem coragem para mudar o que todos sabemos que está mal (a começar pelo sistema eleitoral e pela forma como são eleitos), mas também a contratação pública ou a aplicação de dinheiros públicos. E para isso seria importante que pelo menos PS e PSD chegassem a acordo e assumissem compromissos além da legislatura, que fizessem mais pelo país a longo prazo do que por cada um dos partidos no imediato.

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