Então, vais ao centro comercial, apesar de saberes que é hora de almoço, que estamos na fúria consumista dos saldos e das trocas de natal. Vais porque tem mesmo de ser, precisas de uma prenda e importa comprá-la quanto antes. O depósito de paciência está cheio e, driblando a questão igualmente dramática do frio que se faz sentir e dos ares condicionados que te ofereceram, para começar bem este 2019, uma constipação cheia de valentia, avanças sem medos.

Consegues perceber pelo estado da loja – uma dessas de roupa, made in China ou coisa que o valha que dá muito dinheiro a ganhar a alguém que foi muito esperto em perceber que a roupa, nos dias que nos tocam, é descartável – que não está simples: cabides no chão, roupa por dobrar, ténis atirados para um canto, écharpes a varrer o pó penduradas sem destino.

Começas por procurar uma empregada – curiosamente, neste tipo de loja as empregadas são todas jovens, têm cabelo comprido e exibem batom vermelho – e percebes que, sendo hora de almoço, talvez as empregadas não estejam todas a cumprir horário ou, no limite, não estão em número suficiente. Aproximas-te de uma jovem que te olha tristemente, num quase suspiro de agonia, consegues mesmo ler o balão do seu pensamento: ”Ó não, mais uma à procura de não sei o quê. Eu deveria ter ido estudar mas é ...”

Sorris, porque sorrir é uma arma, e descontrais o corpo para pareceres simpática e disponível para o que aí vier. Perguntas pelo artigo que procuras, dizes boa-tarde, se faz favor, obrigada e, no fim, desejas bom ano novo. A empregada olha-te entre o incrédulo e o comovido.

Vais então para a fila na caixa, aí onde se acumulam várias senhoras, um casal, uma senhora com carrinho de bebé. Sabes que será longa a tua espera. À tua frente tens uma senhora com vários cabides e uns ténis vermelhos pendurados na ponta de dois dedos. De repente, outra senhora, materializou-se não sei de onde, começa a perguntar com voz esganiçada: “Esses ténis são 36? É que a minha filha precisa de uns ténis desses e ali não há 36, esses são 36? E vai comprar? Precisa mesmo deles?”

Há um nano segundo de silêncio, não é só a perplexidade e o constrangimento, é também a antecipação da resposta da senhora que, para todos os efeitos, é a legítima futura proprietária dos ditos cujos ténis. A senhora que disparou a pergunta permanece inalterável, aguarda uma resposta. A senhora da fila olha para os ténis. Por fim, responde: “Precisar não preciso, mas vou comprá-los porque custam 25 euros e é boa compra”. E a outra rapidamente: “Mas são 36?” Há um suspiro colectivo, é evidente que são 36. A senhora ajeita os cabides, aproxima os ténis do corpo num gesto defensivo. A outra faz um trejeito altamente duvidoso com a boca e vira-se na direcção oposta deixando cair a seguinte frase: “Há gente muito mal educada, francamente”.

Sorris para a senhora à tua frente, ela encolhe os ombros num gesto de alívio e de sabe-se lá mais o quê. E tu pensas, bem-vindos a 2019, nada muda, nada se transforma.

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