Verme que é verme gosta de rastejar no lodo e cuspir lama para chamar à atenção. É um truque tão patético quanto antigo, que deixa sempre na dúvida quem está fora do charco. Devemos ou não dar atenção? Resulta melhor ignorar e esperar que passe, ou ouvir, rebater e desmontar? Não creio que exista uma só resposta para os diferentes casos. Há barbaridades que são só mesmo para ignorar – por todos, incluindo a comunicação social que não pode pôr-lhe sempre um megafone à frente da boca – mas em muitos casos, é importante não ignorar e responder. Pode ser com factos, pode ser com o desmanchar de narrativas falsas. E também pode ser com solidariedade e amor, numa resposta de elevação democrática. 

Foi o que vimos nestes dias. Queriam luta no lamaçal, mas fez-se antes sol no jardim. Em solidariedade com Marisa Matias, milhares e milhares de pessoas pintaram os lábios de vermelho. E não foi só sobre a Marisa, foi sobre todas as mulheres. E foi sobretudo sobre as mulheres, mas foi também sobre os homens, as crianças, a liberdade e a democracia.

Que bonito foi, que reconfortante está a ser. Mas é também triste que tenha que ter acontecido, que tenhamos que fazer manifestações antifascistas, que tenhamos que estar todos os dias a discutir a importância da democracia por esta não estar assegurada, quando temos – em democracia – tantas outras coisas para resolver.

Pode ficar ainda no ar a dúvida sobre se uma resposta tão contundente e generalizada não terá sido dar-lhe importância a mais. Neste caso não acho, de todo. Quero até acreditar que poderá ter levado muita gente a perceber a importância de votar nestas presidenciais, ao perceber que além da importância a estas imanente, há mais, muito mais, para além disso.

Não nos iludamos, com qualquer candidato ou partido democrático, há ainda um longo caminho a percorrer contra a misoginia, o racismo, a homofobia, o capacitismo, o classismo, ou qualquer outra divisão discriminatória e de desigualdade. Mas é em democracia que o faremos, e não n fascismo, se queremos sequer sonhar com igualdade e liberade.

A união de lábios vermelhos anti fascistas e anti machistas está a ser muito bonita, mas não adianta de nada se não formos votar em defesa da democracia.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

- Faz de Conta que Nova Iorque É Uma Cidade: ainda só vi metade, mas estou a gostar bastante.

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