Sou dependente do automóvel. Não no sentido em que “era impossível fazer a minha vida sem andar permanentemente de carro”. Não. Podia utilizar menos o carro, teria a possibilidade de recorrer a outros meios de transporte para alguma parte da minha rotina, mas não o faço por inércia. Vou várias vezes de carro a sítios aos quais podia chegar a pé; conduzo grande parte das vezes sozinho; convivo com poucas pessoas que utilizem diariamente os transportes públicos; já estacionei em segunda fila para ir à farmácia; para ir comprar tabaco; para ir buscar frangos, metade com picante, metade sem.

A culpa é minha. Algumas destas acções são opções erradas e que prejudicam o outro. Sei também que vivo num país que é permissivo em relação a esta relação tóxica com o carro. A cultura do automóvel, a civilização do pára-arranca, está enraizada em Portugal e especificamente em Lisboa de uma forma muito contraproducente.

Pode dizer-se que a minha situação é o cúmulo do privilégio. Vivo em Lisboa, a cidade do país com mais oportunidades, e tenho carro, o mais protegido dos meios de transporte dessa cidade. Quem tem carro e vive dentro dos limites de Lisboa usufrui da dupla vantagem de habitar o centro de decisão do país e de, ao mesmo tempo, poder movimentar-se como se se tivesse estabelecido numa pequena vila em que tudo é pertinho. Alguém que viva no Restelo, um pacato bairro residencial quase no limite do concelho e habitado pelas classes abastadas, demora apenas 10 minutos a chegar de carro ao centro nevrálgico da capital. De transportes, demora mais de meia hora — se não perder nenhum autocarro, porque metro não existe naquela zona.

Não é só uma cidade dominada pelo carro, é uma cidade dominada pela condução perigosa. Sempre que tenho a tentação de comprar o jogo Gran Turismo para a PlayStation, vou dar uma voltinha na Segunda Circular porque a sensação é a mesma. A Avenida Gago Coutinho tem carros que andam mais rápido do que o avião que o homem que origina a toponímia pilotava. Não vejo razões que impeçam a CRIL, que liga Algés a Sacavém, de vir a albergar uma das próximas edições do Dakar. E ainda dizem que é uma cidade que não estimula a prática desportiva.

Gostamos de achar que Lisboa emulsiona um pouco de terceiro mundo no primeiro mundo, ou vice-versa. Acredito que isso pudesse ser verdade nos anos 80, mas hoje a capital é uma cidade de primeiro mundo, com excepção do trânsito automóvel. A forma como o carro hostiliza todos os meios de transporte não se mitiga só com a construção de ciclovias, mas é um importante passo para reconquistar espaço público a tubos de escape. Sem entrar numa batalha de moralismo e sinalização de virtude, vamos ter de mudar. Em breve tenho de levar o carro à inspecção, mas primeiro seria avisado para levar-me a mim próprio a uma revisão de mentalidade.

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