Nessa mesma tarde da tragédia em Londres, um campo de refugiados em Maiduguri, no nordeste da Nigéria, foi atacado por bombistas suicidas. Houve vários mortos e feridos. Maiduguri tem sido uma esperança de abrigo para populações que fogem do terror dos Boko Haram, naquela área vizinha do Lago Chad e da República dos Camarões. Maiduguri tem sido um abrigo para muitos milhares de refugiados, mas está longe de ser um porto seguro: um ataque dos terroristas selvagens do Boko Haram em meados de janeiro prolongou-se por várias horas de tiroteios e causou mais de 90 mortes; dias depois, um confronto cruzado entre matadores do Boko Haram e tropas da Nigéria provocou 236 mortes. Um devastador incêndio no maior campo de acolhimento tornou mais impossível proteger os refugiados. São tragédias ignoradas pelos noticiários tradicionais. Nunca são abertura de um telejornal.

Há várias explicações imediatas para o silêncio em volta de atrocidades como esta na Nigéria: as grandes redes de televisão não têm equipas de reportagem na Nigéria como têm em Londres ou Paris. Também há o efeito de proximidade: quando vemos imagens do terror no centro de Londres, no coração de Paris ou na marginal de Nice logo pensamos num lugar onde já estivemos ou desejámos estar. São lugares próximos no mapa dos nossos desejos para uma escapadela em satisfação.

Mas a cobertura mediática de ataques terroristas na Europa tende a ser desproporcionada. Esses ataques são uma tragédia que é devido condenar e combater com a máxima energia. Mas ao permanecermos na ignorância sobre a terrível violência em outras partes do mundo ficamos com uma noção distorcida sobre onde é que está o maior perigo e sobre quem tem a ameaça pela frente todos os dias.

O ataque em Londres vem lembrar-nos como é essencial preservarmos a nossa liberdade e estarmos unidos para não dar espaço aos fanáticos onde quer que eles estejam ou apareçam. Acontecimentos como o atentado em Londres reforçam a lástima por a primeira-ministra britânica ir esta semana assinar o pedido de divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia.

É um divórcio celebrado com júbilo por isolacionistas como Le Pen ou Wilders. Eles estão a saber dar rosto e voz às inquietações de muitas pessoas. Vem a calhar uma muito certeira ideia enunciada há já 30 anos por Laurent Fabius, então primeiro-ministro na França da presidência Mitterand. Fabius comentava o discurso da Frente Nacional da família Le Pen, e reconhecia: ”eles colocam boas questões mas dão-lhes más respostas”. É isso. Continua a ser.

Quando agora Marine le Pen dispara contra a falta de democracia interna na União Europeia, fá-lo com acerto. É facto que a Europa passou a aparecer-nos uma máquina tecnocrática, impessoal, com dose insuficiente de democracia. Não se dá pela Europa social em que possamos sentir-nos respeitados, integrados e representados O desencanto e a deceção apoderaram-se dos cidadãos. A digestão da crise financeira internacional de 2008, agravada em Portugal pelas manobras de golpistas, tem provocado demasiados cortes e muita azia, por entre desemprego, escassez e retrocessos, com alto preço a ser pago pelas pessoas nas curas de austeridade. A União Europeia caiu nestes últimos anos num estado de prostração, que o crescimento tímido de agora não chega para disfarçar. Tudo isto levou a que ficassem postos em causa valores antes compartilhados e o apego à ideia de nossa Europa. A quebra de expectativas e o avanço das incertezas foi caldo propício para os populismos xenófobos e eurofóbicos.

Mas convém não esquecermos que é graças aos visionários que nos anos 50 do século XX lançaram as bases da união na Europa que podemos celebrar seis décadas sem guerras no interior de um continente que sempre viveu entre carnificinas de guerras. A União Europeia continua a ser, de longe, o espaço planetário com mais liberdade, segurança e bem-estar.

A crise dos últimos anos recoloca a discussão fundamental sobre o caminho que queremos. Como reconstruir a solidariedade? Como concertar identidade e soberania no novo cenário? Como garantir que a Europa volta a ser sinónimo de confiança e prosperidade?

As questões securitárias têm de ser tratadas. Mas com respostas que tenham em conta os valores da cultura europeia. Em Londres, na semana passada, viu-se que o terrorista veio de dentro do Reino Unido.

A uns quarteirões do lugar do atentado da semana passada em Westminster há uma placa sempre acompanhada por flores que evoca 27 mortos, naquela esquina, em 1941, em consequência de uma das tantas bombas do Blitz. Então, numa guerra que queremos que seja impensável ter alguma repetição. Essas flores, sempre renovadas nas últimas décadas, tal como as de agora em Westminster, são dois modos de nos lembrar a importância de uma Europa unida, forte, coesa, solidária.

Consola ouvir a reafirmação dos princípios fundadores da União Europeia, como aconteceu por estes dias em Roma, mas também faz falta que vejam como é que a união pode ser melhorada ao encontro das pessoas. A Europa precisa de se arranjar e ficar bonita outra vez.

This is London calling era a frase sempre usada pela BBC na abertura das suas emissões de rádio durante a II Grande Guerra. Quatro décadas depois, a banda The Clash titulou assim, London calling, um dos seus melhores álbuns. Foi banda sonora dos protestos contra as políticas de Thatcher. As grandes metrópoles, como Londres, têm sido exemplos de boa convivência. A mensagem solidária “Londres está contigo” e estes casos de Londres chamam-nos a pensar.

TAMBÉM A TER EM CONTA:

Reportagem vídeo essencial no The New York Times: quando um presidente, o das Filipinas,  diz “vou matar-te”.

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The Art Life: o documentário que nos faz entender o cinema de David Lynch.

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