Vivemos tempos em que se confunde a liberdade de expressão com a libertinagem de expressão. Por trás do escudo e da capa do humor, tentam esconder-se ideias muito perigosas com grande potencial negativo no mundo. Desengane-se quem ache que os humoristas têm todos boas intenções, são na sua maioria pessoas mimadas que fazem tudo por um bocadinho de atenção, quais cães de Pavlov condicionados por risos e aplausos.

No Charlie Hebdo exaltaram-se as supostas vítimas que nada mais foram do que provocadores que, usando a desculpa do humor, agrediam o que de mais sagrado há para muitas pessoas: a sua fé. Não digo que se mate por uma piada, claro, mas o que é certo é que eles sabiam o que estavam a fazer e que, por isso, é desonesto achar que são vítimas. A violência gera violência e o humor pode ser – é muitas vezes é – uma forma de violência.

Agora, tivemos o caso dos humoristas brasileiros Porta dos Fundos que, depois de uma paródia a Jesus Cristo, viram a sua sede ser atacada com cocktails molotov por parte de cristãos que se sentiram ofendidos com as piadas do grupo. A tensão tinha vindo a escalar desde o início do mês quando lançaram o seu especial de Natal, com petições online a roçar os três milhões de assinaturas, e eles, não contentes, continuaram com sketches diários a escarnecer a fé católica e o próprio Jesus e Deus Nosso Senhor. O resultado estava à vista de todos e, parece-me até, que é feito de propósito para despertar a violência só para terem publicidade e se poderem fazer de vítimas. Quem sabe, até foi tudo fabricado, embora me pareça legítimo que as pessoas se defendam quando sentem a sua liberdade religiosa ameaçada.

Por cá, um país pequeno que não pode ver nada lá fora sem querer copiar, temos um grupo de dois humoristas de redes sociais, Guilherme Duarte e Ricardo Cardoso, que têm um programa de sketches de suposta comédia e que decidiram fazer, também eles, um episódio especial para este Natal. Passou na SIC Radical (em plena noite de consoada!) e está disponível no YouTube neste link onde, relembro, não há restrição de idade e qualquer pessoa pode ver. Confesso que fiquei chocado com o que vi e que foi esse especial de natal que me levou a fazer este artigo de opinião. Vou tentar analisar rapidamente o conteúdo dos mais de trinta minutos de pobreza humorística e de ofensa a tudo a todos que estes dois pseudo-humoristas decidiram publicar em plena época cristã de respeito pelo outro.

Começa de forma relativamente inócua, mas desde logo colocam a figura do Pai Natal como alguém violento e que profere impropérios. Não esqueçamos que o Pai Natal tem o seu quê de figura religiosa e que se nota logo a intenção desta dupla de escarnecer a fé cristã. Segue-se um sketch que gira em torno das crenças pessoais de cada um, em que um dos actores não respeita o outro que ainda acredita no Pai Natal em idade adulta. Isto mostra a falta de respeito pela diferença deste tipo de humor e, pior, a punchline foca-se em medicinas alternativas porque, obviamente, quem não respeita que as pessoas acreditem no que quiserem, é normalmente um fanático pela ciência que não se questiona nem tem a mente aberta. De seguida, um sketch em que o Pai Natal é apresentado como um sujeito de raça negra. Não é que eu tenha algo contra negros, é óbvio que não, mas o Pai Natal deve ser branco, toda a gente sabe isso. Colocar o Pai Natal negro é uma afronta aos valores tradicionais e, mais uma vez, reitero que não sou racista. Aliás, de seguida eles têm um sketch que não desgostei de todo em que afirmam que os brancos por vezes sofrem preconceito por muita gente achar que todos os brancos são racistas, o que não é o meu caso, por exemplo. Esse sketch, apesar de não ter piada, estava “bem apanhado”. Claro que estragam tudo quando noutro sketch mais à frente colocam dois pais Natal a beijar-se. Respeito todas as escolhas sexuais, mas como dizia o outro “Não havia necessidade”.

Segue-se uma paródia à colocação dos professores, num sketch em que conseguem ofender essa classe já que os retratam como descontentes com tudo e com todos, como também conseguem ofender minorias. Parodiam o Centro Comercial Colombo como sendo um antro de crianças pobres, piolhosas com cheiro a rendimento de inserção social. Portanto, estão, obviamente, a fazer piadas e a discriminar os ciganos.

A seguir, fiquei perplexo com o que vi. Um sketch que faz pouco de crianças deficientes e que, pior, mais uma vez retrata o Pai Natal como uma figura sem compaixão nem empatia, estando claramente, a dupla de humoristas a personificar a sua noção de Deus no Pai Natal. 

Depois de um sketch sem piada nenhuma sobre vegans onde recorrem à asneira básica para tentar estimular o riso no espectador (sem efeito, diga-se) vem talvez o pior sketch de todo o especial e um dos quais me leva a ponderar mover um processo contra estes dois humoristas. A premissa deste sketch é a seguinte: Maria de Nazaré era virgem e foi violada por Deus. Deturpam toda a bonita história bíblica e resumem-na a uma violação quando toda a gente sabe que Maria foi avisada pelo Arcanjo Gabriel de que Deus lhe daria o privilégio de a engravidar com Jesus. Maria sabia o privilégio que era e deu o seu consentimento, por isso nunca poderíamos estar a falar de uma violação. 

Depois temos mais uns sketches que são mais do mesmo, que giram em torno de brejeirice, escárnio da classe política e mais uma vez em torno de tentar o riso através do gozo de pessoas com deficiência física. Um dos actores imita um tetraplégico, só para verem que esta dupla não tem quaisquer limites na sua tentativa de fazer humor. Sketches à frente, como não podia deixar de ser, voltam a atacar a religião (sempre a católica porque não têm coragem de criticar o Islão) onde fazem uma paródia com Deus ser um pai ausente e irresponsável e, insinuam que os padres são pedófilos. Pelo que investiguei, não é a primeira vez que esta dupla trata com tamanha leviandade este tema sensível da suposta onda de pedofilia na Igreja Católica. Estamos a falar de pouquíssimos casos que aconteceram – em Portugal são quase inexistentes – e, na maioria deles, só sabemos um lado da história. Só sabemos a versão das crianças, temos de apurar os factos e ouvir os padres para saber duas coisas: primeiro, se é verdade; segundo, a ser verdade de que forma é que as crianças podem ter induzido, ainda que inconscientemente, a que os abusos acontecessem. Raramente é culpa apenas de uma das partes.

Bom, podia alongar-me aqui e falar dos restantes sketches, mas acho importante que vejam pelos vossos próprios olhos. Deixo aqui o link para o especial completo no YouTube para que possam ver pelos vossos próprios olhos. Partilhem para que Portugal veja o tipo de humoristas acéfalos que andamos a produzir. Eu já subscrevi o canal e activei as notificações porque quero estar atento ao lixo que estes dois irão produzir no futuro.

Aconselho que, se conseguirem, vejam o especial de Natal e confirmem que o objectivo é, claramente, chocar e não o de fazer rir. Tentam chocar com calão, com blasfémia, com gozo puro de crianças com todo o tipo de deficiências, entre muitas outras coisas. Tentam ofender tudo e todos em nome de quê? Em nome do riso? Em nome do humor? Não, no humor não vale tudo, pois se no humor vale tudo, também vale tudo por parte de quem se sentiu legitimamente ofendido e pretende calar estes dois jovens. A liberdade de uns termina onde começa a liberdade dos outros. Este humor é violento e, por isso, não é de estranhar que receba cocktails molotov em troca. Só não vê quem não quer.


Esta crónica foi escrita sem o novo acordo ortográfico por escolha do autor António Marques dos Santos, personagem fictícia de Guilherme Duarte.

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