Era suposto estar um calor demasiado insuportável para se pensar em coisas, mas o que vigora são coisas demasiado insuportáveis para que se ignorem. O calor, esse persiste — mesmo com os salpicos fresquinhos, e a brisa vigorosa, gerados pelo movimento de tanta gente a sacudir água do capote. Devíamos estar numa silly season, com notícias leves, e eu só leio parangonas pesadas dum país encabeçado por silly people.

Quero ir ao Google, comandado pela secura da minha goela, ver qual o melhor vermute para fazer o cocktail que dá pelo nome de negroni. Não quero ir ao Google, comandado pelo Azeredo Lopes, pesquisar “roubo de armamento militar”. O ministro da Defesa está no seu direito de sugerir um motor de busca para provar que, no caso de Tancos, não se tratou do “maior assalto a armamento militar na Europa neste século”; só que, um segundo que seja a apregoar tal prova, também indicia que o empenho do ministro a apurar responsabilidades não vai ser o maior na Europa neste século. Eu precisava era de estios, não de esquivos. Precisava de um negroni, e duma silly season, não deste tipo de conforto: “Sosseguem com a desgraça de Tancos que já houve pior lá fora” — pois, mas isto é como o meu nariz. Não deixo de ser narigudo só porque lá fora há um Adrien Brody.

A gravidade do roubo à base militar é gigante. É duma dimensão absurda que nos suspende a época silly. A segurança nacional está ameaçada como nunca, e o contributo português para a insegurança internacional pode também nunca ter andado tão elevado. Se não é tempo de entrar em pânico é, com toda a certeza, tempo de inevitável alarmismo. A inconsistência institucional e a irresponsabilidade política dificultam o nosso lado mais avisado. Entopem-no como surdinas. Vendo os alarmes abafados, como não partir para alarmismos? Como não levar as mãos à cabeça, se há tão flagrante crise no apontar de dedos?

Já há muito que temia isto. Temos uma oposição de Direita paupérrima (não há paióis que cheguem para guardar as munições de tantos tiros no pé) e uma oposição de Esquerda a deambular pelos novos 3 éfes  (o frouxo, o faccioso e o frenado). Assim, quem está no poder tem mais facilidade em instrumentalizar o optimismo da população: começa como optimismo natural e voluntário, evolui para um optimismo propagandístico, depois optimismo programático e finalmente optimismo despótico. A partir daí protege-se o governo; dá-se espaço e confiança para que cumpra as suas obrigações, ignorando que tal proteccionismo também lhe alimenta as isenções. E quando as perguntas e as exigências ao Estado começam a ser reprimidas, quase como se se tratassem de afrontas patrióticas, então o padrão das irresponsabilidades fica para durar. É um jogo de cadeiras em que nos dão sempre música, por isso ninguém se senta e, mais grave, ninguém sente a obrigação de se levantar.

Já devíamos estar naquela altura em que a coisa mais pesada do jornal é um suplemento, a mais difícil é um sudoku, a mais escandalosa é um topless. Mas não, não veio a silly season. O peso, as dificuldades e os escândalos são outros: estradas infernais, tragédias inauditas, roubos inconcebíveis, perigosidade alarmante, falhas graves nas instituições que nos deviam proteger, fragilidades, impotências, irresponsabilidades. Até exames nacionais endrominados há no cardápio. Neste país exangue, pensos rápidos e exonerações temporárias serão a solução? Neste país de tanto tropeço, é natural que tão poucos encarregados caiam? — talvez seja, talvez ninguém tenha de cair. Ainda assim, eu queria era estar com os pés na areia, não sentir que ma mandam para os olhos. Tenho saudades das silly seasons em que só aconteciam coisas parvas. Nesta acontecem coisas graves, e todos querem fazer de nós parvos.

SÍTIOS CERTOS, LUGARES CERTOS E O RESTO

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