Há quem ache que a imagem mistura sensacionalismo com publicidade aos efeitos do terrorismo, e que ter ganho, num ano em que estão também a concurso fabulosas imagens do drama dos refugiados, e da emigração na Europa, é injusto.

Os argumentos podem ser razoáveis, mas são pobres. Aquela fotografia revela o estado em que estamos nos dias de hoje, a imprevisibilidade dos dias, o parco valor da vida, o confronto entre culturas e forma de vida – ou de morte.

As palavras de João Silva, o fotógrafo luso-descendente que foi premiado, e agora é jurado, do World Press Photo, dizem tudo sobre a escolha do júri: “Vejo o mundo a caminhar em direcção a um abismo. Este é um homem que claramente chegou a um ponto de ruptura”. É essa ruptura com que nos confronta Burhan Ozbilic (cujo sangue frio e a coragem não é demais sublinhar), como se fosse uma prova, uma testemunha, uma evidência.

Todos vimos o vídeo que captou o momento, mas a imagem fixa, parada, do atirador a erguer a pistola, com o corpo do embaixador inerte no chão, tem qualquer coisa de ainda mais negro – nem que seja pelo instantâneo que se revela pela falta de enquadramento, a surpresa que toda a composição mostra, e a loucura que o quadro exibe cruamente. Uma imagem definidora de um tempo e da forma como o podemos ver.

De resto, a imagem é também simbólica para os momentos que o jornalismo vive, e para responder de forma meridiana, mas exemplar, às “não-verdades” que por aí andam: os que a acusam de promover o terrorismo pretendem que não se veja o que efectivamente acontece? Num instante me lembro de, até ao 25 de Abril de 1974, serem cortadas pela censura todas as notícias que revelassem suicídios, para não contagiar a população nem mostrar realidades incomodativas.

Não me parece, de todo, um bom caminho para voltar a ter a verdade ao serviço do jornalismo e os factos verificados e confirmados por quem os testemunha. O que o fotógrafo da AP fez foi justamente servir o jornalismo, mostrando um facto tão incómodo e chocante quanto verdadeiro, e raras vezes visto no momento em que ocorre; foi denunciar o tal “abismo”, a que chamo loucura, que varre o planeta e nos deixa diariamente aturdidos e confusos sobre os caminhos que levamos; foi registar, correndo risco de vida, o instante preciso em que o atirador se revela barbaramente satisfeito com o crime que acaba de cometer.

É bom que tenhamos a noção de que vivemos lado a lado com pessoas como esta, e que amanhã esta imagem nos pode bater à porta sob a forma de um facto inesperado, daqueles que achamos que “só acontecem aos outros”. Nessa medida, esta fotografia é a um tempo um grito e um sinal. Sem encenações. Sem filtros. Sem recurso a dramatismos exteriores ao que os factos já encerram.

Como se estivéssemos a voltar a um qualquer começo, é o jornalismo na sua essência. Puro e duro. Surpreendente e chocante. Mas sempre verdadeiro. No momento que vivemos, em que a verdade se inventa e os factos se esfumam, isso vale mais. Para não dizer que vale tudo.

Por falar em imagem...

Uma boa foto-reportagem (do LA Times) do drama que viveram (e vivem...) as populações à volta da barragem de Oroville, nos EUA, no norte da Califórnia, ameaçadas pela ruptura da estrutura, ameaçada por tempestades que ainda podem causar maior destruição hoje, quinta-feira. A ordem de evacuação passou a alerta, mas todos os cuidados são poucos...

... E um excelente vídeo, que mistura habilmente infografia com imagens, do mesmo jornal, explicando o fenómeno de Oroville e todo o seu enquadramento. Mais um bom exemplo do jornalismo em tempos multiplataforma.

Por fim, agora sem imagens, ou um sinal de que câmaras de vigilância já não querem dizer nada sobre o Big Brother que paira sobre nós: uma matéria da Bloomberg/Business Week sobre os sensores que, nas empresas, detectam a presença ou ausência dos trabalhadores nos seus postos de trabalho. Assustador, no mínimo.

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