1. Passei este mês de Maio a rodar por algumas regiões do Brasil, incluindo interiores e periferias, boa parte do tempo com estudantes. As principais cidades encheram-se três vezes com manifestações, por razões opostas, duas em luta contra o governo, uma para o defender. O país está partido, e a luta é jovem. Duplamente jovem: porque está a ser feita com muita gente na transição entre a adolescência e a idade de votar (ou ser candidato); e porque tem muito pela frente.

2. Ontem foi a segunda manifestação pela educação: o 30 de Maio, 30M, que se queria maior do que o 15M, primeiro protesto, a quente, mal o governo Bolsonaro anunciou cortes de um terço ou mais nas universidades e institutos federais, seguidos de cortes gerais nas bolsas de doutoramento e mestrado. Estive no 15M, no protesto carioca que cresceu da igreja da Candelária pela avenida Presidente Vargas, e no Rio como noutras cidades esse dia foi gigante, muito jovem e vivo. Ontem, no 30 M, eu já não estava no Brasil, segui à distância. Os relatos, em geral, concordam que houve um pouco menos gente em quase todas as cidades. Com excepções como Curitiba, cidade em que ontem choveu mas apesar disso mais gente saiu à rua do que no 15M, e devolveu à fachada da Universidade Federal do Paraná uma faixa “Em defesa da educação”, depois dos pró-Bolsonaros, que se manifestaram pelo país no domingo passado, terem retirado a que lá estava. Uma sequência que resume bem o estado do Brasil, o ponto a que a fractura chegou, ou o buraco desceu. Manifestantes pró-governo a deitarem abaixo uma frase que simplesmente defendia a educação. Como se a educação fosse o novo PT, o novo comunismo, o novo inimigo. Aliás, é: para quem percorra um Brasil em ambientes relacionados com estudo, aprendizagem, leitura, sejam universidades públicas, centros culturais, livrarias ou festas literárias, a impressão que se vive é que ali é território subversivo, um Brasil “vermelho”, uma trincheira de resistentes.

Mas tendo sido menos participadas do que no 15M, as manifestações de ontem, com muitas dezenas de milhares de pessoas em mais de cem cidades do país, parecem suficientemente expressivas para fortalecer esta ideia de uma luta em curso, e a longo prazo. Sempre com uma presença decisiva de gente que há pouco era criança. Os jovens brasileiros que não estiveram envolvidos nas perdas e nos erros da esquerda que se manifestou em 2013, mas que nos últimos anos já se empenharam muito nas lutas pelas suas escolas secundárias públicas. Frutos novos da democracia brasileira, e das conquistas igualitárias dos governos Lula: mais mulheres, mais negros, mais pobres, mais periféricos, mais lgbt.

Já o escrevi, e reforço: ainda estamos a começar a ver o resultado desta geração que cresceu em democracia. E tanto a fractura do Brasil, como a luta em curso resultam também dela. Se o Brasil hoje é escancaradamente um país dividido, já sem a ilusão da cordialidade, em que a raiva, o ressentimento, a vingança estão à solta sem disfarce, isso também acontece porque um Brasil pobre, periférico, negro, feminino, lgbt cresceu com as quotas e com as bolsas, tomou a palavra, está nas escolas, está nas universidades, está na política, Marielles que inspiram novas Marielles. E o Brasil mais alarve, o Brasil que aspira a pseudo-Miami, o Brasil que se compraz na ignorância, que troça dos intelectuais, do feminismo ou dos lgbt porque se sente ameaçado, o Brasil que acha que segurança é ensinar criança a disparar, esse Brasil odeia o Brasil que emergiu com Lula. Despreza nordestino, despreza pobre. Cultua um presidente que é a sua cara: um presidente que acaba de dizer que realmente detesta pobre.

Estes dois Brasis detestam-se, e não vão dar as mãos agora, isso não vai acontecer. Esta racha do Brasil, este afastamento das placas tectónicas talvez tivesse de acontecer. Porque muito esteve tapado por muito tempo. Um cimento nacional frágil por cima das raízes escravocratas, genocidas. Tudo ferido por baixo, na verdade.

3. A quem se lhe opõe na rua, o governo de Bolsonauro responde como todos os autoritários: tentando proibir a divulgação dos protestos, apelando à denúncia de professores, ameaçando-os com represálias. “Caso a população identifique a promoção de eventos desse cunho, basta fazer a denúncia pela ouvidoria do MEC”, dizia um dos comunicados do Ministério da Educação. Um clássico da distopia. Há medo sim, há razões para ter medo, sim, e parte da luta é contra esse medo de represálias.

4. Uma das imagens mais fortes da noite, vista aérea, foi a da manifestação em São Paulo: “Os manifestantes seguiram pela Avenida Rebouças e se dirigiram à Avenida Paulista, carregando ao longo do trajeto uma faixa enorme com os dizeres: ‘O Brasil se une pela educação’”. A frase ficou linda vista do céu. Mas não é verdade. O Brasil também se desune pela educação. A educação é uma parte bem forte dessa desunião. Um Brasil, irreversível, jovem, vai lutar para não retroceder tudo o que a educação avançou. E vai lutar contra um Brasil favorecido, fortalecido pela má educação pública. A educação está bem na racha, na fenda do Brasil. Quem ganhar este duelo ganhará o Brasil. E não há muitas dúvidas de que é um duelo entre uma pulsão de morte e uma pulsão de vida. Armas ou livros. Armas vs livros.

5. E a esquerda partidária? E quem tem mais de 25 anos? Os erros de 2013, a displicência de quem abandonou as periferias, de quem de facto não as conhece, de quem permanece na bolha caviar, tudo isso vai mudar? O futuro é jovem, a luta é jovem, e parte dela poderá mudar a esquerda, mas é preciso que algumas das actuais lideranças de esquerda saiam das suas bolhas, se disponham a ser mudadas. Incluindo o desânimo de uma certa esquerda de elite, que se dá ao luxo de ficar no atordoamento do horror Bozo, ou simplesmente vai embora porque pode. Milhões de brasileiros anti-Bolsonaro, ou directamente afectados por Bolsonaro não têm o luxo do desânimo, nem dinheiro para ir embora do Brasil. Eles são obrigados a ficar, vão ficar, e sabem que é com eles que a coisa vira — ou não vira. É bom que a esquerda esteja do lado deles, e seja mudada por eles. Não basta a pulsão destrutiva, também auto-destrutiva do Brasil pró-Bozo, não basta que Bozo e os seus esbirros sejam os piores inimigos de si mesmos. Bozo vai implodir, vai passar, mas isso não bastará para fazer uma esquerda, nem um futuro.

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