Vale evocá-lo pelo exemplo para o tempo atual e o futuro: Desmond Tutu soube ser ao mesmo tempo um libertador, um reconciliador e uma bússola moral. Usou três armas supremas: a coragem, a palavra e o humor – o humor que conseguia neutralizar momentos de alta tensão e convertê-los em situação de risada geral. Ainda recorreu a uma outra arma eficaz: a do perdão para reconciliar.

Foi sempre um homem de ideais e um ser humano livre, tanto que nunca se esquivou, quando entendeu ser devido, a criticar as duas instituições com que mais se envolveu: a igreja e o ANC (o movimento de libertação Congresso Nacional Africano).

Desmond Tutu denunciou com vigor a corrupção instalada no ANC e criticou a igreja anglicana por não combater a homofobia. Ele que levantou muitas vezes a voz para defender os que lutavam pela liberdade sexual e de género.

Não era um militante do ANC mas foi, sempre íntegro, o principal aliado deste partido na luta contra o regime de segregação racial.

Também foi, ao lado de Mandela, o mais forte combatente pela libertação. Sempre juntos nesse ideal de que as pessoas são todas iguais nos direitos e deveres, embora com diferenças de forma entre eles: Tutu defendeu sempre que o combate pela liberdade tinha de ser conduzido sem qualquer forma de violência (ao contrário de Mandela enquanto jovem) e com recusa do comunismo (também aqui, diferente de Mandela).

Juntos, Mandela e Tutu, partilharam a visão de África do Sul como uma sociedade multirracial em que todas as comunidades coabitam sem discriminações nem rancores. Chamaram-lhe o país arco-íris.

É célebre um resumo que Tutu fez da história africana: “Quando o homem branco chegou aqui, nós tínhamos a terra e eles tinham a Bíblia. Agora nós temos a Bíblia e cumprimo-la e eles têm a terra”.

Desmond Tutu usava a palavra bíblica em contraposição aos que, no seio do poder branco, pretendiam justificar o apartheid em nome da fé cristã. Tutu usou sempre o argumento da esperança: “temos de ousar sonhar, preparar o futuro sabendo que um dia seremos livres”.

Foi sempre uma bússola moral. Quando, nos anos 80, o Soweto e muitas townships mergulharam na violência, o bispo Tutu pôs-se à frente das multidões, no púlpito e na rua, para impedir o linchamento daqueles que a multidão suspeitava serem colaboradores do regime de apartheid.

Depois de Mandela ter sido libertado e depois eleito presidente, num só mandato em que se revelou estadista global, Desmond Tutu tomou, em concertação com Mandela, a decisão de criar, organizar e liderar uma Comissão de Verdade e Reconciliação. Ao reconhecer que o perdão, não sendo coisa fácil, é um bem fundamental para o reencontro das pessoas, conduziu uma intervenção determinante para fazer cicatrizar muitas feridas que continuavam abertas.

No período a seguir à presidência do grande amigo Mandela (Madiba, como era carinhosamente tratado por todos), Desmond Tutu foi igualmente determinante: denunciou a corrupção e o nepotismo dos sucessores na liderança do país e fê-lo, sem complacência com companheiros de percurso na luta pela liberdade.

Tutu teve sempre a inteligência para compreender o essencial: já em 2014 defendia a necessidade de a África do Sul renunciar às explorações que emitem tanto CO2 causador das alterações climáticas. O combatente pela justiça social tornou-se lutador também pela justiça climática.

Desmond Tutu deixa-nos o exemplo de lutador pela liberdade de todos e combatente pela defesa da dignidade de todos. Sendo um homem da Igreja, pregou sempre a tolerância, apesar de ter atravessado tanta injustiça e opressão.

Juntamente com Mandela, Tutu concretizou o que ficou conhecido nos anos 90 do século XX como o milagre sul-africano. Arquitetaram a reconciliação que parecia impossível.

São visionários e campeões dos Direitos Humanos em cujo exemplo vale meditar.

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