Circula pelas diversas plataformas a versão de trinta segundos do novo anúncio do IKEA, que poderão já ter visto. A versão completa está disponível no YouTube e aqui me disponho a resumir a propaganda.

Filha beta zanga-se com mãe beta em casa impecavelmente decorada, discutem de forma acesa. Não ouvimos os berros pois uma versão de “Vocês Sabem Lá” de Maria de Fátima Bravo silencia a altercação familiar. Ato contínuo, a filha abandona a casa. Vai dormir para o sofá, bem espaçoso, da tia; a seguir um casal feliz dar-lhe guarida e por fim calha a fava à avó, que claramente tem a idade da mãe. Sendo que, neste último hostel da rebeldia, a filha foragida repara numa garrafa de quatro euros e meio na copeira da avó, igual à de casa de sua mãe, e reconhece que o melhor a fazer é voltar (isso e porque provavelmente era dia 1 e estranhamente a mesada não bateu). Retorna aos braços da mãe. “Às vezes é preciso ir para que faça sentido voltar”. Todos nós choramos.

A atual estratégia da marca é tornar-se “mais portuguesa”, mas tem um longo caminho a percorrer. Note-se a ousadia que leva os arquitetos suecos a conceberem exemplos de casas, disponíveis na exposição, onde atafulham móveis e camas para 14 pessoas numa área de 55m2. Por um lado, partem do princípio de que os Portugueses são minimalistas, quando a tralha é uma instituição de cariz patriótico - repare-se que até a bandeira nacional tem demasiados elementos. Por outro, acaba por ser ofensivo para quem habita em Lisboa, onde as casas destinadas a famílias numerosas dispõem no máximo de 39m2. Assim não vão lá.

Eu percebo que o IKEA queria associar-se à ideia de família feliz, mas tenho poucas dúvidas de que é nos armazéns da marca sueca que começam boa parte dos mais irreconciliáveis dos divórcios. Basta frequentar um dos espaços a um sábado de manhã para perceber que os portugueses não se entendem em relação à decoração da casa. Nem sei porque é que a loja não oferece, assim que um casal com um ar de quem tem sangue na guelra entre no espaço, os serviços de uma firma de advogados especializados em Direito da Família e da Mobília, afim de auxiliarem o belicoso par a deliberar acerca da escolha entre as gamas KALLAX e EKTORP.

Quantas vezes não observámos trocas acesas de palavras entre casais, de todas as orientações, que param para discutir no meio do longo percurso consumista da área da exposição? Esposas desesperadas por chegarem à conclusão de que já não se fazem homens como antigamente e que vão ter de contratar o serviço de montagem, já que o cônjuge não tem desenvoltura sequer para mudar uma lâmpada. Maridos sonolentos e impacientes pois temem não chegar a tempo da primeira parte do Manchester City-Watford porque a consorte se delonga em optar por um entre uma miríade de piaçabas. Crianças mimadas que insistem em ir à loja de comida escandinava para convencer os influenciáveis progenitores a açambarcar seis caixas de tarte DAIM congelada. Enfim, móveis que são móbeis de potenciais crimes. Concluamos sem rodeios, caros leitores, que declínio da família tradicional não provém da depravação, mas da decoração.

Recomendações

O tal anúncio.

Esta casa de pasto.

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