Já aqui escrevi sobre o país dos pampas e do tango, faz pouco mais de um ano, a propósito das eleições presidenciais que afastaram o centro-direitismo de Muarício Macri e reinstalaram — mais uma vez! — o peronismo, agora incarnado em Alberto Fernadez. Não vale a pena estar a contar em pormenor as contorções da democracia constitucional argentina para que o populismo de Juan/Evita Peron, que governaram efectivamente entre 1946 e 1955, rejuvenesça continuamente, apesar dos maus resultados económicos. Nestes últimos anos, a Argentina foi talvez o pior pagador das dívidas internacionais. Desde a independência, em 1816, já entrou em “default” nove vezes. O “default” de 2001 levou quinze anos a pagar.

Talvez o problema não seja o peronismo, como grande parte da intelligentsia internacional gosta de dizer, mas o país em si. A verdade é que, tirando a substância ditatorial, Peron melhorou a vida dos trabalhadores e deu-se bem com os empresários. Aliás, esta é mais ou menos a fórmula universal do populismo: mostrar-se cúmplice dos “descamisados” mas sem incomodar muito os “camisas de seda”.

Tanto que, ao fim de dez governos peronistas e apenas três de tendências centristas, isto desde 1946, quase metade dos argentinos vive abaixo do limiar de pobreza e o país anda constantemente a pedir e não pagar ao FMI.

À crise endémica somou-se, desde o ano passado, o espectro da pandemia. O desastre sanitário foi terrível; há uma média de 50 mil casos por milhão de habitantes. Mas o efeito económico dos lockdowns, o abrandamento do mercado e a redução das exportações, foi ainda pior.

Alberto Fernandez, o presente peronista de serviço, teve então a ideia de fazer os ricos pagarem a aflição – uma ideia que é muito falada no mundo inteiro, mas que parece nunca sair das boas intenções. No caso, a proposta é taxar os ricos uma única vez, em 2-2, 5% do seu capital. Para se ter uma ideia do fosso económico entre argentinos ricos e remediados/pobres, a medida atinge 12 mil pessoas, num país com 45 milhões. Está agora no Senado, onde deverá ser aprovada. Se passar, o que é quase certo, trará teoricamente ao Estado a bela quantia de 3 mil milhões de dólares. 

E digo teoricamente porque há razões práticas que impedem uma medida destas de funcionar, por mais lógica e justa que seja. Uma, evidentemente, é que os ricos sabem muito bem esconder os seus bens e a corrupção do sistema ajuda. A outra é que o capital está globalizado há muito tempo e, se um país se torna incómodo, nada impede quem pode de ir viver noutro. 

No caso da Europa, como se sabe, os países que favorecem descaradamente esta possibilidade são a Holanda e o Luxemburgo. Nem é preciso deslocar-se fisicamente para lá, basta contabilisticamente. No caso da Argentina, o paraíso chama-se Uruguai. 

A Oxman, um consórcio internacional de mais de três mil parceiros que se dedica a estudar estas situações de desigualdade económica, calcula que as fortunas dos milionários da América do Sul cresceram 17% desde Março de 2020, o equivalente a 38% dos pacotes de estímulos dos governos e nove vezes o valor alocado pelo FMI.

Para estas pessoas, o Uruguai oferece grandes vantagens fiscais, recentemente melhoradas exactamente para atrair clientela. Uma condição é morar lá. Mas isso também se torna uma vantagem. O país, pacífico socialmente e relativamente civilizado, é o lugar ideal para se morar. O sistema político, república presidencialista democrática, tem uma estabilidade única na America latina. Montevidéu, uma cidade pequena e simpática, está mesmo ao pé de praias maravilhosas, com uma estrutura turística bem desenvolvida. 

O problema da Argentina é o mesmo que se verifica em todo o mundo. Ainda esta semana o presidente Biden colocou a hipótese de criar um imposto especial para as grandes fortunas, mas é impossível que passe no Senado. Na Europa, de onde vem o famoso livro do economista francês Thomas Piketty, “O capital no século XXI”, recebido com grande sucesso, que analisa exactamente a questão – o capital dos mais abonados aumenta mais do que o P.I.B. dos países – falou-se muito e não se fez nada. O dinheiro também traz poder político, como se sabe.

No caso da Argentina, os grandes proprietários já se habituaram a viver com os peronistas há muito tempo. A grande produção do país, e também as maiores exportações, vêm do sector agro-pecuário, onde é fácil usar uma contabilidade criativa.

As medidas de nivelamento social, a que a direita de chama de socialistas e a esquerda de populistas, têm mais impacto político do que económico. Os peronistas não desistem da sua postura popularucha, que lhes fica muito bem, mas no fundo sabem que não podem atingir os beneficiários do sistema, com crise ou sem ela.

Se neste caso, por milagre, o imposto funcionar e aliviar a situação, não deixarei de comentar aqui. Com perplexidade.

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