A multidão que enche a bancada de um estádio é o povo? Provavelmente é o povo de um clube ou emblema, estão lá, unidos por um sentimento comum de pertença, mas trata-se também de apenas uma fração do povo. As pessoas que se manifestam, quase sempre zangadas com algo ou alguém, através das redes sociais serão o povo? São, igualmente, apenas uma fração do povo.

Povo é uma palavra mil-folhas. É uma palavra que remete para múltiplos significados, que vão da noção de população à de popular. Muitas vezes a expressão povo aparece como definição de uma massa de pessoas com uma certa solidariedade, que tende a estar em oposição ao que é considerado como elites, em especial os ricos ou os que têm poder. Os privilégios tendem a ser um carburante que junta povo, ao impulsioná-lo para uma atitude de oposição a esses privilegiados.

A definição de povo desliza com frequência para o estatuto social de vulgar. Não faltam conotações: quando se fala de populismo, fica muitas vezes associada a noção de povo movido por vontades primárias, esvaziadas de ideais solidários e de grandeza humana.

O apuramento do resultado de uma eleição significa a escolha do povo? É costume dizer-se que é, apesar de frequentemente só uma parte do povo se dispor a votar. Pode-se argumentar que o não voto é uma escolha. Mas o resultado leva a uma escolha que, assim, tem representatividade questionável - quando apenas vota um terço dos cidadãos com direito a voto, será que os eleitos representam mesmo a vontade de todo o coletivo?

A atualidade destes dias mostra-nos casos vibrantes de protestos maciços em praças e avenidas. Poderemos dizer que o povo de Hong-Kong está na rua a manifestar-se pela liberdade? É facto que há mesmo muita gente nas manifestações, falta-nos a noção de quanto da população do território está ali representada. Será sequer a maioria? Por mais que desejemos que os defensores da liberdade sejam maioria, não sabemos se é, de facto, assim.

Outro caso é o das manifestações que se sucedem em Moscovo, duas principais nas últimas três semanas. É a reivindicação de eleições livres e o protesto por a mão de ferro do sistema instalado por Putin excluir da eleição local na capital russa, marcada para 8 de setembro, 57 candidatos classificados como independentes, portanto, não sincronizados com o sistema político do Kremlin.

Há desse protesto uma imagem marcante: é a de uma jovem, Olga Misik, que nos aparece sentada no asfalto, com as pernas cruzadas, diante das forças anti tumulto (as Omon), que estão equipadas com uniforme para confronto, capacetes, viseiras e coletes à prova de projétil. Olga, com apenas 17 anos, tem um livro nas mãos. Esse livro é a Constituição da Federação Russa, em vigor desde o tempo de Ieltsin. Ela lê em voz alta, para os manifestantes e, principalmente, para as tropas da Omon, artigos da lei fundamental da Rússia, por exemplo aquele em que está definido que "a cada cidadão é garantida a liberdade de expressão", e aquela outra parte do texto onde está declarado que "os cidadãos têm o direito a reunir-se e manifestar-se pacificamente".

Olga tornou-se um estimulante símbolo da reivindicação de eleições livres, isto é, liberdade, na Rússia. Mas não há ilusões. O que Olga representa é apenas uma ínfima fração da população da Rússia, ela simboliza o crescente descontentamento de uma parte da população urbana, em especial a que tem menos de 40 anos, em Moscovo e em outras cidades da Rússia. Mas múltiplos inquéritos e reportagens mostram que o estilo de Putin continua a ser apoiado por grande parte da população russa, especialmente no vasto território rural.

É assim que Olga representa uma parte que parece estar a tornar-se crescente do povo russo - e isso é uma esperança. Mas não se pode dizer que seja o povo da Rússia a clamar por liberdade. É apenas como um fio de água que corre para o mar e que leva uma vontade de liberdade.

DÁ QUE PENSAR:

O ciclo político parece voltar a mudar na Argentina. O peronismo está lançado para regressar ao comando.

A morte do financeiro Jeffrey Epstein, por "aparente suicídio" numa prisão dos EUA, está longe de fechar o escândalo. Lança mesmo novas discussões.

Esta capa da Time, com este "é demais". Com a violência das armas de fogo em fundo.

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