Este texto faz parte da rubrica Regresso a um Mundo Novo, em parceria com a plataforma 100 Oportunidades, em que vários jovens nos ajudam a pensar o mundo pós-pandemia.


Que ninguém se engane e pense que a partir de agora podemos sair à rua, marcar férias e fazer a nossa vida como antes. Não, não e não! A economia vai levar tempo a levantar e muitas coisas que nunca fizeram parte do nosso dia-a-dia, farão: máscaras, luvas e mesmo a distância social. Para todos nós, portugueses, que adoramos abraçar e cumprimentar com beijinhos: tudo isto não existirá durante alguns meses – pelo menos, para as pessoas mais conscientes e precavidas.

Esta é a única forma de controlarmos um pouco o que aí vem.

Acredito que a quarentena nos trouxe duas coisas muito importantes: o reconhecimento de que somos seres socais e que precisamos de viver em comunidade para sermos felizes; mas, ao mesmo tempo, a noção de que muitas coisas podem efectivamente ser feitas online.

O que vai mudar daqui para a frente?

Algumas coisas. Acredito que até termos uma vacina acessível a todos, as nossas vidas serão um pouco diferentes daquilo que foram até agora. Acho que o medo que se sente, irá desaparecer, mas alguns pequenos hábitos ficarão. O uso de máscara vai tornar-se algo natural, como já o é no Japão, na China e em tantos outros países. Em muitos países asiáticos, um cidadão usa máscara na rua se estiver constipado ou adoentado por respeito ao outro. De modo que acho que o uso de máscara se torne algo mais normal nos países ocidentais, inclusive depois da Covid-19 estar controlada.

Eu vivo atualmente nos Estados Unidos, sou Data Scientist e estudo/ trabalho na Universidade de Chicago. Antes disso, viajei pelo mundo durante quase dois anos de mochila às costas (por mais de 40 países). O turismo, a educação, a tecnologia e a comunicação foram áreas que mais estiveram na boca do mundo durante este vírus. Portanto, quero falar-vos delas uma por uma.

Turismo

De um dia para o outro, um dos sectores mais prósperos em Portugal parou. Os hotéis, os voos, as visitas guiadas… Este sector levou um abanão e acho mesmo que só os mais criativos terão capacidade de ultrapassar esta crise. Infelizmente, não acredito que os hotéis no Algarve encham este Verão. Acredito que o arrendamento de casas tradicionais e os passeios no campo possam ser uma solução imediata para alguns grupos turísticos sobreviverem. Num futuro próximo, acho que este sector terá de investir muito mais em experiências online (por exemplo, visitas a adegas, quintas usando realidade virtual (RV)). A RV poderá ajudar a recriar espaços e experiências não como meio de substituição, mas como serviço extra, diferenciador. Acho que o Covid-19 só veio mostrar ao turismo nacional a necessidade de se reinventar constantemente e criar várias formas para obter receita.

Educação

Em poucas semanas, vimos o espelho de um país ainda muito desigualitário - nem todas as famílias têm acesso a internet estável e muito menos a um computador por miúdo. Às vezes precisamos destas crises que colocam a mão na ferida e nos mostram todo o trabalho que ainda temos pela frente. No entanto, as aulas online mostraram-nos que há muita coisa que a partir de agora pode evoluir. Talvez os valores exorbitantes de propinas (falo no caso dos Estados Unidos) não se justifiquem, quando a maioria dos conteúdos podem ser encontrados online. Acho que a educação deve continuar na sala de aula, mas com um suporte de conteúdos online (aulas gravadas, vídeos, exercícios didácticos já resolvidos). Já percebemos que o sistema educativo como o conhecemos tem de evoluir e, talvez a Covid-19 venha acelerar esse processo.

Comunicação

Como comunicamos e o que comunicamos. A palavra fake news nunca teve tanto na boca do mundo como durante a quarentena. A dada altura, ninguém sabia em quem confiar: que jornal ler, que noticiário acompanhar. Eu própria, que estudei Ciências da Comunicação na Universidade de Lisboa, senti dificuldade. Com um enorme fluxo que informação que recebemos diariamente, acho que a sociedade se tornou muito mais consciente e exigente. As várias formas de comunicação, principalmente o online, vieram abrir portas e dar ainda mais voz aos influencers. Eles terão a partir de agora ainda mais capacidade e responsabilidade de educar a população.

Tecnologia

A capacidade de colocar tanta gente a trabalhar de casa deve-se exclusivamente a empresas como a Zoom, Google e Facebook. Estas empresas vão continuar a crescer e talvez esta quarentena seja um wake up para muitas que eram reticentes ao trabalho a partir de casa. Nada é perfeito, mas muitas empresas vão aderir cada vez mais ao trabalho remoto. Se a produtividade não se alterou, esta mudança pode trazer muitas vantagens económicas e sociais para empregados e empregadores. Para os empregados, menos horas de trânsito e mais tempo para actividades pessoais. Para os empregadores, escritórios mais pequenos e o que levará a custos mais reduzidos nas despesas de manutenção e renda de imóveis.

Acredito que com paciência venceremos esta crise, mas novos hábitos surgirão para nos tornarmos para fortes.

*Daniel Matinho escreve segundo o antigo acordo ortográfico

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Um artigo do parceiro

O Projeto 100 Oportunidades é um projeto dos Global Shapers de Lisboa que pretende contribuir para a emergência de uma nova geração de vozes, jovens, no debate público, das quais esta que leram é um exemplo.