A cordialidade na passagem de testemunho na presidência é uma tradição no sistema político dos EUA. Há um caso célebre no longínquo ano de 1876, quando, na eleição do 23º presidente, os democratas prolongaram a contestação à eleição no Congresso do republicano Rutherford Hayes, quando o democrata de nova Iorque Samuel Tilden tinha alcançado mais 250 mil votos no conjunto da votação pelo povo. Chegou a ser preparada uma dupla cerimónia de investidura, uma para cada candidato. Um compromisso levou o republicano à presidência, mas os democratas mantiveram que o escrutínio foi falseado. Hayes até foi um presidente combatente pelos direitos civis e pela confiança no sistema político, mas com a legitimidade sempre em questão, não se recandidatou em 1880.

Já no nosso tempo, no ano 2000, o democrata Al Gore teve a maioria no voto popular mas perdeu a presidência para George W. Bush no Colégio Eleitoral, após um ainda agora controverso apuramento tangencial na Florida. Houve um mês de intensa batalha política e legal, chegou a haver recontagem de votos em alguns distritos e, no final, Al Gore, embora sem estar convencido, reconheceu a presidência Bush II, tendo invocado que a América precisava de não ficar dividida.

E agora, o que vai fazer Trump? Será que vai optar por continuar em guerra? Não é de excluir que queira continuar a procurar encabeçar a América do ressentimento da classe branca que deixou de ser dominante, que se sente debilitada, insegura e humilhada por a América ter perdido a leadership mundial que Trump promete reconquistar. Quando até a Fox se distanciou de Trump, há quem já fale na intenção de lançar uma Trump TV, combinando a presença na web com canais por cabo e redes sociais. Seria o canal do tea party do tempo digital. Daria satisfação às vaidades de “The Donald” e faria permanente e obstinada oposição à presidência Hillary. É uma possibilidade perigosa: o discurso do ódio pode abrir portas a episódios de violência.

Nesta América política em campanha triste onde está a escassear (nas duas principais candidaturas) a inteligência geradora de sonhos e onde quase todos parecem ficar a perder há, no entanto, um poder que surge vigoroso e ganhador: o jornalismo, a imprensa. Nesta época que parecia dominada pelas redes sociais, vemos que se impôs o velho jornalismo que investigou minuciosamente os candidatos, os seus discursos e as suas propostas, e mostrou a distinção entre a verdade e a mentira. A imprensa tradicional, nas edições em papel e online, desmontou o candidato Trump. Isto contribuiu para que na maioria dos principais jornais o editorial board (na imprensa do EUA, o gabinete de opinião é independente da redação onde os jornalistas devem trabalhar os factos sempre com a independência e o rigor que fazem o prestígio do ofício) tenha assumido hostilidade a Trump, “personagem inadequada para presidente”, e, consequentemente, o apoio a Hillary, embora alguns a vejam apenas como um mal menor.

Os números não deixam dúvidas: são pelo menos 147 os jornais que declaram explicitamente a preferência por Hillary. Há quatro anos, na reeleição de Obama, 67 dos 147 jornais agora a favor de Hillary tinham optado por propor aos leitores que decidissem em consciência, sem recomendação da parte do jornal, e 26 expressaram preferência pelo republicano Romney. Esta escolha editorial dos principais jornais dos EUA vai corresponder em 8 de novembro ao voto dos eleitores nas suas comunidades? É o que veremos daqui a 15 dias, numa noite de eleições que também inclui muitas questões sobre como vai evoluir o Partido Republicano: vai dar a Hillary uma abertura que não deu a Obama? Como vai tratar as feridas abertas com Trump? A maioria republicana no Congresso parece a cada dia que passa com tendência para minguar.

Passámos, nestes últimos anos europeus, a ouvir falar de testes de stress à banca como provas de resistência, através de simulações virtuais, acerca da capacidade dos bancos para enfrentarem a deterioração geral da economia e as suas sequelas. A democracia dos EUA parece enfrentar nestas eleições, com campanha tão triste e rasa, um sério teste de stress.

TAMBÉM A TER EM CONTA:

O Papa faz abrir alguma esperança na Venezuela: governo e oposição encontram-se e há diálogo.

Espanha, após mais de 300 dias com um primeiro-ministro interino, sai do impasse, com um governo de centro-direita, necessariamente vulnerável, outra vez liderado por Rajoy. São os socialistas do PSOE, em crise profunda, quem abre a porta ao novo governo de Rajoy. A política pode sair a ganhar, com a negociação de pactos para reformas. O PSOE tende a ficar mais fraturado.

A tecnologia digital faz transformar a China. Mas o poder político, com o presidente Li, mantém a tradição e avisa que nenhuma forma de dissidência será tolerada.

As primeiras páginas escolhidas hoje remetem-nos para Calais, 24 de outubro de 2016. O dia em que começou o desmantelamento da “jungle”, um acampamento para gente em miséria material e psicológica, que se tornou um retrato no coração da Europa, desta Europa sem coração. Contado assim, no La Voix du Nord, no La Croix, no El País, no La Razón, no The Guardian, no The Scotsman e no La Vanguardia. E agora? Calais é apenas uma pequeníssima gota visível do imenso icebergue de refugiados e migrantes.

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