Esta presidência dos EUA está destinada a ser designada, mais do que o habitual, pela dupla, portanto, Biden/Kamala. Têm  a oportunidade invejável para transformar a América, com efeito pelo mundo. Mas também enfrentam enormes ameaças e incertezas.

126 dos 211 republicanos eleitos para a Câmara dos Representantes são subscritores das manobras de Trump para subverter o resultado da eleição presidencial de modo a mantê-lo na Casa Branca. A tentativa está exausta, chegou ao fim do prazo. Mas a sabotagem e as manobras de deslegitimação da presidência Biden/Kamala pairam como ameaça com o patrocínio de Trump que quer continuar no palco e tem o capital de 74 milhões de votos (Biden tem 81 milhões). É facto que os democratas, embora em novembro tenham perdido 9 lugares, continuam com maioria na Câmara dos Representantes. Mas, para que Biden e Kamala possam governar a cumprir a ambição que propuseram, precisam de contar com o Senado. Não é impossível mas é improvável.

O apuramento da composição do Senado ainda está pendente da escolha da Georgia para dois senadores. Na atual fase da contagem nacional os republicanos estão com vantagem de, precisamente, dois lugares (50-48 no Senado com 100 lugares).

A composição definitiva do Senado fica decidida em 5 de janeiro, na finalíssima da eleição dos dois senadores que vão representar esse estado sulista da Georgia. A regra eleitoral neste estado implica que os eleitos recebam mais de 50% dos votos. Eram vários os candidatos na eleição em 3 de novembro. Nenhum atingiu os 50%, daí que os dois mais votados, os grandes rivais republicanos e democratas estejam a competir para a finalíssima fixada para 5 de janeiro. Aos republicanos basta-lhes conquistar um dos lugares e asseguram automaticamente a maioria no Senado e a possibilidade de bloqueio de decisões da Presidência. Se os democratas conseguirem aqueles dois lugares, vai haver festa grande na Casa Branca: a maioria no Senado passa a estar controlada pelos democratas, porque a vice-presidente Kamala Harris tem voto de desempate entre os dois blocos com 50 senadores.

De facto, o fôlego da presidência Biden/Kamala fica definido em 5 de janeiro na Georgia. Este é um estado que costuma votar pelos republicanos. A última vez que um democrata foi eleito senador pela Georgia foi em 1988. Nas presidenciais, o voto também é maioritariamente republicano mas, desta vez, em 3 de novembro, Biden quebrou a tradição e ganhou. A mobilização dos dois partidos está a ser total para esta eleição em que um estado determina muito do rumo da governação do país.

Biden tem no perfil a arte para negociar. Vai explorar o compromisso com os republicanos. Resta saber se, com a atual altíssima polarização, a engrenagem montada por Trump deixa espaço para diálogo leal.

Já de seguida, os primeiros 100 dias da presidência Biden/Kamala valem como teste à capacidade que terão para levar os EUA para um novo caminho, para salvar da miséria mais de 12 milhões de desempregados, para revitalizar a economia e evitar a hecatombe de falências e também para instalar a confiança no país massacrado pela Covid-19, causadora de 300 mil mortes ao longo dos últimos nove meses. As questões sócio-económicas, que incluem o generoso Obamacare da saúde para todos, vão marcar os primeiros 100 dias e toda esta presidência.

É de prever que a nova administração se prepare para anular muitos dos “decretos executivos” do predecessor, especialmente todos os atos administrativos com os quais a Casa Branca desmantelou os compromissos na luta contra as alterações climáticas. Na COP26, daqui a um ano, em Glasgow, a delegação dos EUA, liderada pelo enviado especial John Kerry, estará a levar a América de volta aos Acordos sobre o Clima.

Também vai regressar o multilateralismo nas relações internacionais, com a ONU a recuperar espaço nos EUA, com a União Europeia a voltar a ser respeitada pela Casa Branca e com a já anunciada intenção de “aliança das democracias”. Meio mundo deseja que os EUA tenham uma administração competente com liderança decente. A presidência portuguesa da União Europeia tem uma boa oportunidade para abrir o caminho para o reencontro dos EUA com a Europa.

É de esperar algum alívio nos EUA para os imigrantes. Quer com o regresso à reunião (que Trump barrou) de famílias separadas, quer com os Dreamers, assim são chamados os estrangeiros que chegaram aos EUA quando ainda eram crianças, e que passaram a viver sob a ameaça de expulsão para o país de origem onde as raízes, para a maioria, estão perdidas.

A busca da reconciliação no país dividido é outra tarefa colossal a que se aplica a etiqueta de missão quase impossível. Há que esperar para ver. Uma prioridade imediata é a de tirar argumentos às teorias da conspiração. Uma parte dos 73 milhões de americanos que votaram Trump foi levada a crer que a vitória de Biden é uma fraude. Há quem se disponha a usar a violência em nome dessa convicção. Aconteceu, por exemplo, no último sábado, na capital, Washington, quando quatro pessoas foram apunhaladas numa manifestação dos Proud Boys, organização extremista que o FBI liga ao supremacismo branco e à misoginia.

A questão racial vai ser tarefa principal para Kamala Harris. Há quem a veja aliada natural do movimento Black Lives Matter, que reivindica mudanças radicais nos sistemas de polícia e de justiça nos EUA. O passado de Kamala no anterior posto de Procuradora no estado da California revelou-a “top cop”, a polícia-mor. É-lhe creditada resposta inteligente à criminalidade ao tempo galopante, mas com recurso a mão dura na política criminal. Poderá tentar promover a reforma do sistema judicial mas não vai ceder às exigências mais transformadoras do Black Lives Matter. A onda de revolta criada com o assassinato de George Floyd, em Minneapolis, numa detenção com absurda violência, continua a mexer com a América. A aspiração de fechar feridas e explorar modos de boa convivência é outro desafio em que a possibilidade de vitória entra para o capítulo das missões impossíveis. Mas é de esperar que a nova administração nos EUA faça do respeito pelos Direitos Humanos uma prioridade.

Biden vai querer evitar ser visto como o presidente que cumpre o terceiro mandato de Obama. Kamala talvez tenha a aspiração de, em 2024, dar continuidade à presidência de Obama. Sobra outra questão: o que é que Trump vai andar a urdir? Vai continuar a procurar sabotar o governo de Biden e Kamala? Os eleitos republicanos vão continuar ligados a Trump?

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A tragédia da guerra dentro da Europa aconteceu, devastadora há apenas 25 anos.

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