Estava a pensar no que escrever para a crónica desta semana e pensei: se costumo traçar uma espécie de perfil de todos os concorrentes de reality shows, numa espécie de bullying gratuito, porque é que não haveria de fazer o mesmo para os candidatos a presidente da república, cargo que, no fundo, é também um concurso de popularidade?

Ana Gomes - Há quem pense que é o Herman José caracterizado para um sketch, mas não. É alguém com um vasto currículo e que tem como bandeira a luta contra a corrupção. Desconfio sempre de pessoas que querem acabar com a corrupção, mas estão na vida política desde sempre, em partidos do sistema. Fez peito a Isabel dos Santos e isso fê-la ganhar alguns pontos porque toda a gente gosta de ver uma luta de gajas. Traz alguma animação a estas eleições devido à disputa pelo segundo lugar com André Ventura, já que o primeiro lugar já está atribuído.

André Ventura - O candidato anti-sistema que faz parte do sistema desde 2001. Quer acabar a corrupção, menos a do Benfica e a dos amigos e clientes que ajudou a desviar dinheiro para offshores. É tão anti-sistema que já anda a namorar Rui Rio para formarem um governo de maioria de direita porque nada é anti-sistema como governar o sistema ao lado dos mesmos de sempre do sistema. Tem fetiches por ciganos e até admira ter uma coelha de estimação em vez de um sapo.

João Ferreira - Tem 42 anos e uma longa carreira na política, ou seja, pouco trabalhou na vida. Sim, é biólogo mas andar a estudar plantas não é bem um trabalho, é mais um hobbie de jardinagem. Fez parte da assembleia da freguesia da Ameixoeira e agora é eurodeputado em Bruxelas. Passar da Ameixoeira para Bruxelas é subir demasiado na vida para quem se diz comunista, mas tudo bem. Mesmo com essa formação em biologia, não conseguiu lidar com André Ventura e perdeu o frente a frente, muito por culpa própria ao ser incapaz de admitir que a Coreia do Norte é “um bocadinho” de ditadura.

Marcelo Rebelo de Sousa - O presidente actual e futuro presidente a não ser que morra entretanto de covid ou afogado no Tejo. É formado em direito, ex comentador televisivo, fanático católico, formado no PSD e admirador de Salazar. Parece que estou a descrever o Ventura? São muito parecidos, sendo que Marcelo com a idade ficou mais fofinho e bonzinho. Trata os filhos por você o que para mim é factor suficiente para não votar nele.

Marisa Matias - Tem ar de ser uma pessoa honesta, mas também tem ar de quem fuma dois maços por dia. É licenciada em Sociologia e valorizo sempre quem tem esse curso e não está num call center. Fez daqueles doutoramentos em sociologia que são só desperdício de propinas e que ninguém quer saber e faz parte de uma esquerda que diz representar os portugueses reais (e as portuguesas reais, não esquecer a linguagem inclusiva), mas tem como filmes preferidos “As Invasões Bárbaras” de Denys Arcand, “Tabu” de Miguel Gomes, “Esquece Tudo o Que te Disse” de António Ferreira, “Ida” de Pawel Pawlikovski e Palombella Rossa de Nanni Moretti. Como podemos ver, representa claramente o português comum.

Tiago Mayan - Tem nome de mestre Reiki ou de quem tem uma clínica de estética. É o 4.º licenciado em Direito entre os 7 candidatos. Se calhar está na altura de deixar de escolher malta de humanidades para cargos políticos. A malta de humanidades na escola era sempre a que faltava às aulas para ir fumar umas atrás do pavilhão juntamente com o pessoal de artes. Ninguém quer pessoal de artes a mandar em coisas, vamos querer malta de humanidades? Por isso é que depois mais de um terço das pessoas diz que não quer tomar a vacina da covid. Também não estou a dizer para votarmos no biólogo que biologia é tipo veterinários, dentistas e enfermeiros, é tudo gente que não teve média para medicina.

Vitorino Silva - Frequentou o curso de comunicação, mas não o terminou, provavelmente porque de cada vez que tinha de fazer uma apresentação de um trabalho demorava duas horas a contar a história de como começou a fazer o trabalho, sempre com metáforas e analogias que envolviam pedras e ovelhas. É calceteiro de profissão e, por isso, está mais que habituado ao meio político devido à quantidade de poias de cão que encontra no seu trabalho. É, provavelmente, o candidato que inspira mais confiança e honestidade e o único que não é do sistema e que representa o português comum. É também, provavelmente, o menos capaz para desempenhar o papel de presidente da República porque, lá está, o português comum não é capaz de grande coisa. Ainda assim, num cenário hipotético de uma segunda volta entre Tino e Ventura, tenho a certeza que ganharia Tino e isso acaba por fazer de Portugal um país caricato, mas bom de se viver. No debate entre os dois, Tino deixou o Ventura calminho porque ele é de Rãs e toda a gente sabe que isso afasta os ciganos. Esta piada seria incrível, não fosse o caso de a terra do Tino se escrever Rans em vez de Rãs e caso os ciganos não soubessem distinguir rãs de sapos (isso provavelmente não sabem porque ninguém sabe), só talvez o João Ferreira porque é biólogo.

E é isto. Espero que tenham ficado mais esclarecidos e já saibam em quem votar ou, mais importante, em quem não votar.

Sugestões:

Para ver: Morte a 2020, na Netflix

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