De há uns tempos para cá que temos assistido a um fenómeno interessante sempre que alguma celebridade cessa a sua actividade cerebral e vai ter com Deus Nosso Senhor. Só para esclarecer, quando refiro “celebridades sem actividade cerebral”, estou a referir-me às que morrem e não a quem participa em reality shows. Antigamente, uma celebridade morria e só se fosse mesmo muito famosa e/ou muito importante para a sociedade, é que a notícia da sua morte viria nos jornais, impressos ou televisionados. Hoje, a morte acontece primeiro na Internet e o luto é feito nas redes sociais. O conceito de celebridade e de VIP ficou muito mais abrangente e essa é uma das razões pelas quais nos parece que morre mais gente famosa nos últimos anos.

“RIP”, “Descansa em Paz”, “Mais uma estrelinha que brilha no céu” e ainda, no caso dos mais burros, um “RIP in Peace”, são frases que invadem os nossos feeds sempre que alguém famoso bate as botas. Nada contra em mostrar publicamente o afecto por alguém que partiu, mesmo que esse alguém seja um alguém que essas pessoas nunca conheceram pessoalmente, mas de quem gostam do trabalho que influenciou positivamente a sua vida. No entanto, vamos aqui admitir que apenas uma ínfima percentagem das pessoas que se manifesta realmente cai nessa categoria. Os outros, quase todos, querem, como dizia o “Chato”, é aparecer:

“Morreu o Roberto Leal? Então tomem lá aqui uma foto que tenho com ele, tirada em 2008, quando o vi no Chimarrão e lhe pedi para tirar uma selfie, ainda antes das selfies serem moda. Marcou imenso a minha vida.” – São sinais do mundo “Olha eu” e seria o equivalente a alguém no elogio fúnebre de um funeral apenas falar se si e do quão triste está.

Quando o Ângelo Rodrigues estava em coma vi um tweet que dizia “Ainda a semana passada estivemos a trabalhar juntos e estavas tão bem”. Ya, estava bem porque não tinha contraído a infecção ainda. As coisas são assim: antes de estarmos mal, estávamos bem, é um bocado assim que funciona a vida no geral. No entanto, do fundo da arrogância, esta pessoa achava que o facto de ter estado com o Ângelo, de alguma forma, devia ter impedido que ele ficasse em coma. Talvez se julgue uma pessoa antisséptica, não sei. De referir ainda que a forma como o tweet foi escrito, dirigindo-se ao Ângelo, mas sem o identificar nem ser um comentário nas redes dele, revela ainda mais o quadro de “Não se esqueçam de mim hoje”, como diria o comediante norte-americano Anthony Jeselnik.

Ninguém está interessado em ver reacts ao obituário do dia nas redes sociais. As pessoas que fazem isto são uma espécie de carpideiras 2.0 que usam a morte alheia para ter atenção ou serem pagos em moeda virtual, não de bitcoins, mas de ego digital. Transformámos a morte em monetização e masturbação egocêntrica. Na morte nada se perde, nada se cria, tudo se transforma em likes. Já dizia aquele senhor com nome de detergente para limpar vidros.

Sugestões e dicas de vida completamente imparciais:

Para ouvir: Podcast Fumaça

Para ir: Espectáculo solidário de stand-up comedy no Coliseu do Porto, dia 3 de Outubro. Bilhetes neste link.

Para ver: Strange Times, de Joe Rogan

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