A televisão é o exemplo desta promiscuidade doentia, ensandecida, entre verdades e mentiras, ilusões e realidades. Uma hora de jantar frente a um canal de TV é a descida ao inferno de bipolaridade universal.

Há notícias. Mortos em Berlim, Alepo, Donald Trump, violência domestica, crime gratuito, monstruosidades umas sobre as outras.

De repente, um flash: o universo construído sob o marketing tenta resgatar a quadra e mostra-nos famílias felizes, casais apaixonados, crianças de sorriso aberto; seguindo a corrente de que não pode alhear-se do mundo, ao mesmo tempo, encosta-se a toda a solidariedade possível, aos braços abertos, a sonhos impossíveis ninguém sabe bem-vindos de quem.

Em minutos, saltamos de mundos que imaginávamos varridos da face de uma terra mais humana para colossais absurdos momentos de violência, misturados com crimes premeditados sobre a vida e a saúde dos outros, para momentos de “afecto” de um Presidente ou para as vitórias de Ronaldo.

No quarto onde me encontro fechado, o que vejo só carrega o mal-estar que já trago de fora. Quero voltar a ser miúdo e poder dizer “não brinco mais a esta brincadeira, quero outra”. Ou quero que alguém abra a cabeça desta gente e me explique como se é capaz de fazer com sangue tão essencial à vida o que aqueles senhores de gravata e ar composto parecem ter feito; como se mata a sangue frio um homem desligado do drama sírio; como se perde a noção do valor da vida e se assassina a mulher, as filhas, o tipo que vai a passar na rua. Quero que me expliquem como se imaginam anúncios de Natal cheios de sorrisos e esperanças no meio de tanto sangue, tanta miséria, tanta barbárie. Quero que me expliquem como se vive neste mundo - de onde saí por semanas e a que volto de coração despedaçado, de alma desfeita, porque a distância dá à realidade uma imagem bem mais realista da proximidade. Como se o pormenor vermelho, lindo, fascinante, só se tornasse sangue quando visto ao longe. Como se apenas o absurdo da música natalícia colado ao estalar dos tiros desse sentido à loucura onde vivemos e às baratas-tontas em que nos estamos a tornar.

Foram duas ou três semanas a saltar entre a presença e a ausência - mas foram suficientes para me deixarem suspenso neste bocado de uma canção de Caetano Veloso:

“Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem / Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final”.

Não peço mais.

Cenas de um ano que passa…

Discute-se muito a “pós-verdade”, a força das redes sociais, a decadência (ou não…) dos media tradicionais. E pela primeira vez lê-se a palavra “medo” quando se fala de internet. Esta é talvez a melhor análise que já li sobre a matéria. Passa deste ano para o próximo…

Não é fácil juntar 25 factos, itens, descobertas, que façam de 2016 um ano especialmente feliz. Com esforço suado, a renovada revista espanhola Cambio-16, agora na sua versão mensal, conseguiu juntar um pacote diverso, discutível - mas, vá lá, animado…

Às vezes iludimo-nos quando julgamos que os leitores das melhores revistas do mundo são muito diferentes dos outros. Não são. E é bom verificar que as próprias rainhas o reconhecem. Esta semana, a The New Yorker publica o seu “ranking de temas e matérias mais apetecidas pelos seus leitores em 2016. É evidente que Donald Trump leva a taça, mas a revista não engana: “gostamos de sexo, mortes, musica”. Comida, evidentemente. E dinheiro, como não podia deixar de ser.

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